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Quando o Cão Morre, a Dor é a Sério

A casa fica na mesma. As paredes são as mesmas. Os móveis não mudaram de lugar. Mas há uma coisa que mudou para sempre: o silêncio.
Já não se ouve o barulho das patas no chão. Já não há ninguém a correr para a porta quando alguém chega a casa.
Muita gente pensa que chorar por um cão é exagero. Acham que só se deve chorar assim por uma pessoa. Mas isso não é verdade.
Os médicos e os psicólogos já provaram: **a dor de perder um cão é uma dor a sério**. É a mesma dor que sentimos quando perdemos alguém da família.
Porque é que o coração sofre tanto
Quando vivemos muitos anos com um cão, o nosso cérebro cria um laço forte com ele. É parecido com o laço entre pais e filhos.
O nosso corpo liberta uma substância chamada oxitocina quando estamos perto do animal que amamos. É a mesma substância que sentimos quando abraçamos alguém que gostamos muito.
Por isso, quando o cão morre, o corpo sente a falta a sério. Não é imaginação. É uma dor verdadeira, que se sente no peito, no estômago, na cabeça.
“O nosso cérebro não olha para o tipo de animal.
Olha para o tamanho do amor. Um cão que dormiu ao nosso lado durante dez ou quinze anos fica gravado no coração, tal como uma pessoa importante”, explica uma psicóloga que trabalha com pessoas que perderam os seus animais.
Porque é que ainda há gente que não entende
Há pessoas que dizem: “é só um cão, arranja outro”. Estas palavras magoam muito. Quem as diz, normalmente, nunca teve um animal que amasse tanto. Não fazem por mal, mas magoam na mesma.
Quando alguém nos diz isto, sentimos que a nossa tristeza não vale nada. Isto tem um nome: chama-se **dor não reconhecida**.
Quer dizer que a sociedade não aceita que sofremos tanto por um animal. E isto faz-nos sentir sozinhos, e por vezes até com vergonha de chorar.
Mas a verdade é uma só: se sofre, é porque amava. E isso não precisa da aprovação de ninguém.
Sinais de que o corpo está a sofrer
Quando perdemos um cão, o nosso corpo e a nossa mente mostram sinais claros de tristeza:
No coração e na cabeça — sentimos tristeza profunda, um vazio grande, culpa, raiva, e às vezes nem acreditamos que ele morreu mesmo.
No corpo — não conseguimos dormir bem, ou dormimos demais. Não temos vontade de comer, ou comemos sem parar. Sentimos cansaço, dores de cabeça, um aperto no peito.
No dia a dia — não temos vontade de ver ninguém. Custa-nos concentrar no trabalho. Evitamos os lugares onde o cão costumava estar, ou, ao contrário, não conseguimos largar as coisas dele.
Muitas pessoas ficam surpreendidas com a força desta tristeza. “Eu não sabia que ia chorar tanto. Tive vergonha, achei que estava a exagerar por causa de um animal”, contou uma mulher que perdeu a sua cadela depois de treze anos juntas.
Esta frase repete-se muitas vezes, em muitas casas, em muitos países. A surpresa é sempre a mesma: descobrir que a dor era real.
O peso de decidir a eutanásia
Há uma parte deste luto que é ainda mais difícil: quando somos nós a decidir a eutanásia.
Ao contrário da maioria das mortes, aqui há um momento exato, uma escolha, uma assinatura num papel. Isto traz uma culpa muito grande. Sentimos que fomos nós a “matar” o nosso amigo, mesmo sabendo que foi a decisão mais generosa que podíamos tomar, para que ele não sofresse mais.
Os veterinários dizem sempre o mesmo: esta é a última prova de amor que podemos dar a um animal que sofre. Mas raramente sentimos isso como amor, no momento. Sentimos apenas dor.
Aceitar a dor é o primeiro passo para curar
Aceitar que este sofrimento é verdadeiro não é só uma questão de sermos mais simpáticos uns com os outros. É uma questão de saúde.
Quanto mais aceitarmos esta dor, menos hipóteses há de ela se tornar num problema maior, como uma depressão, que pode durar anos sem ser tratada.
Se está a sofrer pela morte do seu cão, fique com esta ideia bem clara na cabeça: a sua dor é real.
O seu luto é válido. Tem todo o direito de sentir esta tristeza com a força que ela tiver, sem pedir desculpa a ninguém.
Por: Paulo Rebelo

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