Em 1976, a má distribuição da carga fez com que o navio “Espírito Santo” virasse a escassos 100 metros do Porto das Velas, em São Jorge, vitimando 8 pessoas. Passados 50 anos, o Correio dos Açores falou com sobreviventes e testemunhas da tragédia.
O naufrágio de um navio no Verão de 1976 marcou a população do Concelho das Velas. 50 anos depois, a tragédia ainda persiste na memória dos sobreviventes e testemunhas.
No dia 13 de Agosto de 1976, o navio Espírito Santo naufragou na Baía das Velas, em São Jorge, vitimando 7 passageiros e o maquinista do navio, além de vários animais.
O barco chegou ao Porto das Velas proveniente da Terceira, tendo feito uma escala técnica na Calheta, em São Jorge, onde descarregou e carregou mercadoria. O destino final da viagem era a cidade da Horta, na ilha do Faial, passando ainda pelo Cais do Pico, em São Roque.
O Correio dos Açores falou com Anabela Matias, sobrevivente da tragédia, que revelou detalhes desse dia, contados pela sua madrinha e pela população.
“O barco veio da Terceira com carga já a bordo. Chegou às Velas, onde o embarque e desembarque correram na normalidade. Pelo que me contaram, os marinheiros avisaram o mestre que a carga estava mal distribuída no porão. Tinha animais e ferro mal distribuídos. O mestre não ligou aos avisos”, revelou.
Anabela tinha apenas seis meses quando o acidente, que retirou a vida à sua mãe e avó, aconteceu.
“A minha mãe ficou comigo na rua. A minha avó foi para a parte de dentro do barco porque queria ir à casa de banho. Por norma, as pessoas têm sempre a tendência de, quando o barco está a sair do cais, ir para o lado em que se vê a terra, para se despedirem das famílias. O barco começou a recuar e na altura em que foi virar de frente para seguir caminho, começa a tombar, devido à má distribuição do peso”.
A junção da má distribuição da carga e o ajuntamento dos passageiros a bombordo fizeram com que o navio começasse a virar, a apenas 100 metros do porto.
A sobrevivente revela também que no porto das velas, na altura da tragédia, estavam várias pessoas e pescadores que, quando começaram a ver o que estava a acontecer, correram para os seus barcos para ajudar.
“Na altura em que a minha mãe viu que o barco estava a tombar, atirou-me à água e disse ‘salvem a minha filha que eu vou salvar a minha mãe’. As calças de plástico antigas que eu tinha vestidas fizeram como um balão e eu fiquei ao de cima da água. Fui recolhida por um barco. Um médico que estava no porto teve que me aspirar o leite que eu tinha estado a beber para me salvar a vida, porque eu também tinha engolido muita água”.
A mãe de Anabela tentou salvar a filha e a mãe da tragédia, mas já não conseguiu sair da cabine do Espírito Santo.
“A minha mãe pôs-me a salvo e foi lá dentro buscar a minha avó. Com a força da água as portas fecharam e as pessoas já não conseguiram sair da cabine. A maior parte das pessoas que morreram estavam dentro da cabine”.
O Salvamento
Estevão Góis ajudou no salvamento dos passageiros do Espírito Santo e revelou detalhes dessa tarde.
“Estava no banco quando alguém apareceu a dizer que o Espírito Santo tinha virado. Vi o meu pai a correr para o barco, mas já não consegui ir com ele. Fui noutro barco. Quando estávamos a ir para fora, o meu irmão José já vinha para dentro com um bebé, muito pequeno. Quando chegamos lá, havia uma senhora mesmo ao pé do nosso barco, mas nós nem sequer a vimos. Só quando nos avisaram é que conseguimos avista-la e pegar nela. Levamos mais uma ou duas pessoas para dentro”.
O navio São Roque, um Draga-minas da Marinha Portuguesa e o navio patrulha “Rovuma” estavam ao largo de São Jorge e ajudaram a rebocar e reflutuar o navio Espírito Santo, com a ajuda dos Bombeiros voluntários da Horta. Os seus mergulhadores ajudaram a retirar os corpos de dentro do navio, bem como a carga do porão.
Fernando Alvarino também estava em São Jorge, onde acompanhava vários jovens jogadores de futebol de equipas da ilha Terceira. Os juvenis do Angrense e do Lusitânia foram fazer jogos de demonstração na Graciosa e em São Jorge, na tentativa de incentivar a abertura de escalões de formação naquelas ilhas.
“Estava em São Jorge. Fui chefiar a Delegação dos Desportos de Angra de Heroísmo. Fomos almoçar ao Topo e quando chegámos às Velas, a mais de meio da tarde, vimos um movimento estranho no cais. Fomos até lá e vimos que o Espírito Santo tinha tombado. O mar estava muito calmo. O peso extra fez com que o navio metesse a borda debaixo de água e a partir daí, descontrolou. Felizmente não afundou logo e apareceram dois ou três barquinhos de pescadores. Além disso, apareceu uma corveta da Marinha que ajudou a rebocar o barco antes de este ir ao fundo”.
Apesar da ajuda prestada pela corveta, a mesma não consegiu terminar a manobra de entrada no porto das Velas devido à sua dimensão, deixando o Espírito Santo ainda com risco de se afundar.
Segundo Fernando, numa “reacção espectacular” e na tentativa de não deixar o “Espírito Santo” naufragar, foram amarrados dois cabos grossos ao barco, “um deles puxado por um tractor e o outro puxado por umas 90/100 pessoas”, na esperança de o puxar o mais perto possível da rampa.
“Com o barco já na rampa, apareceram alguns rapazes que eram mergulhadores amadores. Começaram a ir lá abaixo tentar ver se conseguiam resolver alguma coisa. Só depois, com o apoio dos mergulhadores da Marinha, é que conseguiram retirar os corpos. Eu fotografei estre processo quase todo, mas depois fugi quando começaram a tirar os corpos”, admitiu Fernando Alvarino.
Depois do incidente, o navio foi rebocado até à ilha do Faial pela traineira “Marisousa”, onde foi reparado. O barco navegou até ao ano de 1992, quando no dia 27 de Setembro afundou dentro do porto da Praia da Vitória, devido ao furacão Charley.
O Espírito Santo era o terceiro navio com esse nome a navegar nos Açores. O primeiro navegou entre 1853 e 1892 e foi mandado construir por João da Cunha. O segundo foi mandado construir pelos seus três filhos e navegou até 1952, altura em que foi deliberadamente encalhado na Praia da Graciosa, devido à abertura do seu fundo quando navegava.
O terceiro navio com o nome Espírito Santo foi reconstruído pelo mestre Manuel Joaquim de Melo, de Santo Amaro do Pico e foi lançado à água a 4 de Outubro de 1953. Começou a navegar no ano seguinte, pela empresa de Transportes Marítimos Graciosenses.
Vasco Blayer
