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“O desporto açoriano caminha para a decadência”

O Clube Escolar de Vila Franca do Campo vai regressar nesta época com equipa sénior de futsal.

A última participação foi na época de 2022/23 inserido na Associação de Futebol de Ponta Delgada, porque não compete nas provas nacionais das séries Açores das II e III Divisões desde 2017.
João Paulo Cabral assumiu a presidência da direcção a 30 de Junho último, aquando do acto eleitoral. Em Outubro do ano passado foi eleito presidente da Comissão de Gestão que dirigiu o clube quando a Direcção anterior concluiu o mandato.
O porquê do ressurgimento do futsal sénior foi o mote para um diálogo com João Paulo Cabral, com muitos anos de união com o clube nas funções de treinador das equipas de formação.
Com forte ligação ao desporto local, em especial ao futebol de formação pelos anos como treinador nas equipas do Clube Operário Desportivo, a entrevista levou-nos ao momento actual da actividade na ilha de São Miguel e nos Açores.

O que motivou a direcção, após três anos de ausência, fazer regressar ao clube uma equipa sénior?
“Quando assumi a liderança do clube, primeiro como presidente da Comissão de Gestão e agora como presidente da actual Direcção, tinha em mente, em conjunto com os meus parceiros, retomar a abertura de praticamente todos os escalões. Sempre fez parte da história do clube ter todos os escalões, o que não sucedeu nos últimos três anos.
O desejo de alguns antigos atletas e como uma das nossas missões, enquanto estivermos na orientação do clube, é, e será sempre, fazer crescer o Clube Escolar de Vila Franca do Campo, também ajudando a evolução do futsal no concelho, foram a simbiose para o reaparecimento da equipa sénior”.

Sentiram não fazer sentido ter equipas nos vários escalões de formação e não haver continuidade para os praticantes que pretendem prosseguir na modalidade, originando que muitos se afastem da prática desportiva?
“Esta vontade surgiu antes de assumirmos o clube. Houve, de facto, o afastamento de alguns atletas, uns por motivos pessoais, outros por quererem praticar futebol de 11.
Sendo Vila Franca um concelho que sempre teve bons atletas, a pressão de alguns dirigentes de outros clubes, não só do concelho, originou a transferência para o futebol de 11. As experiências tiveram resultados positivos nuns casos, mas noutros não”.

“Promessas jamais chegam
a bom porto”

Quando se ouvem dirigentes e responsáveis políticos afirmarem que se deve apostar na formação das crianças e dos jovens e falham os apoios nos seniores, dando azo a que muitos clubes dispensam aquela categoria devido aos custos, estão cometendo erros?
“Este é um assunto que custa-me abordar. Acho que o desporto açoriano caminha para a decadência. Esta a sensação com que fico pela acção dos políticos que nos governam e que estão na oposição. Os mais recentes exemplos, somando os que foram acontecendo, não permitem termos ilusões.
Manter um clube a funcionar, dar formação e ocupação dos praticantes, requerem custos elevados. Os clubes não têm esta capacidade sozinhos. Promessas recebem, mas essas promessas jamais chegam a bom porto. É muito difícil. Já dizia o ditado antigo: “ao rico não dêem, mas ao pobre não prometas!”

O protocolo da Câmara de Vila Franca com a Associação de Futebol de Ponta Delgada no pagamento das inscrições, facilitou este regresso porque será uma poupança de uma boa quantia de Euros?
“O protocolo da Câmara de Vila Franca, agora abrangendo todos os escalões, é um bom alívio, mas não dispensa procurarmos alguns apoios de outras fontes”.

O orçamento do clube aumentou muito com este investimento?
“O nosso orçamento é controlado pelos dinheiros que recebemos tanto do município, como dos contratos institucionais e também de alguns eventos que vamos fazendo para angariarmos as verbas necessárias a uma gestão equilibrada. Temos de saber gerir o que temos. Neste momento somos um clube controlado e saudável”.

O treinador Ruben Teixeira foi anunciado para os seniores e para os juniores. Como irá dividir-se?
“O Ruben é o treinador dos seniores, tendo o Rui Damião como adjunto. Nos juniores é o inverso: o Rui é o treinador e o Ruben o adjunto. É uma situação nova no clube mas que está a entusiasmar ambos”.

“Consolidar a equipa
nas provas locais”

A constituição da equipa está sendo concretizada com atletas vindos das camadas inferiores, de antigos atletas que estavam parados e com atletas de outros clubes ou há a tendência de dar prioridade a jogadores do concelho?
“A maioria são atletas da casa, alguns juniores que subiram a seniores. Regista-se o regresso de alguns antigos atletas e a adesão ao projecto de uns de fora do concelho de Vila Franca do Campo, escolhidos pelo “mister” Ruben. No entanto, temos sempre a nossa formação como prioridade e o aproveitamento dos atletas que ascendem”.

Que perspectiva nesta época de regresso?
“O principal objectivo é consolidar a equipa no patamar competitivo da Associação de Futebol de Ponta Delgada, nunca entrando em loucuras. Pretendemos ver os nossos jovens dos escalões abaixo chegarem à equipa sénior com evolução”.

Voltar à série Açores da III Divisão, se efectivamente continuar, de onde saiu em 2017, está nos planos?
“Temos os pés bem assentos no chão. Os tempos não permitem exageros. A série Açores da III Divisão é outro patamar. Para lá chegar é preciso muita sabedoria e muita, mas muita coisa que muitos clubes não possuem… Vamos caminhar um passo de cada vez”.

“Falta de interesse
e falta de compromisso”

Esta equipa sénior de futsal colmata a falta de uma equipa sénior de futebol em Vila Franca do Campo?
“A falta de uma equipa sénior de futebol em Vila Franca do Campo é um marco negativo. Esta vila já foi enorme no futebol sénior da ilha e regional. Vários e bons jogadores daqui saíram.
Neste momento a única equipa sénior na vila é a nossa de futsal. É pena, mas é a realidade.
A população apoia a equipa. Sempre que jogamos no nosso recinto, o Açor Arena, aparece em massa. Esperamos que continue no futuro”.

Tem havido um decréscimo de equipas seniores de futsal na ilha de São Miguel. É um problema dos clubes, da falta de argumentos financeiros, de falta de atletas?
“Como dirigente desportivo preocupa-me este panorama. Vejo os campeonatos de seniores de futebol nas ilhas e na Região cada vez mais enfraquecidos. A falta de dinheiro dos clubes não é apenas o motivo. Verifico a falta de interesse da maioria dos jovens na prática desportiva organizada, acrescida da falta de compromisso. Isso agudiza a crise.
No futsal ainda não se nota muito isso. Temos muitas e boas equipas a disputarem os nossos campeonatos em diversos escalões”.

José Silva

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