O Coliseu Micaelense, a maior sala de espectáculos dos Açores, saiu do seu núcleo e movimenta-se hoje noutros espaços culturais, através de parcerias e de muita vontade para que os projectos possam ter uma dimensão maior que a fronteira da ilha. Cila Simas, Presidente do Conselho de Administração, fala da nova fase em que as artes visuais também ocupam destaque cimeiro através da ‘Matriz Atlântica’. “Temos plena consciência do peso histórico e institucional do Coliseu Micaelense e também da responsabilidade que isso representa”, garante a nossa entrevistada.
Correio dos Açores: Como nasceu o Matriz Atlântica e por que razão entenderam que este era o momento certo para lançar um projecto dedicado às artes visuais contemporâneas nos Açores?
Cila Simas (Presidente do Conselho de Administração do Coliseu Micaelense): O Matriz Atlântica nasce, antes de mais, de uma visão que temos vindo a consolidar para o Coliseu Micaelense: queremos que esta seja uma casa cada vez mais aberta, mais dinâmica e capaz de acolher diferentes expressões artísticas. Desde 2021 que o Coliseu Micaelense integra a RTCP – Rede de Teatros e Cineteatros Portugueses, mas foi sobretudo a partir de 2025 que começámos a explorar de forma mais efectiva as potencialidades desta rede, através do estabelecimento de protocolos de cooperação com outros teatros e estruturas culturais.
Esta integração trouxe também um desafio importante: pensar o Coliseu para além da programação de espectáculos e diversificar os domínios artísticos presentes nesta casa. Foi nesse contexto que começámos a olhar com maior atenção para as artes visuais. Há ainda uma outra dimensão que considero fundamental. Queremos abrir cada vez mais as portas do Coliseu durante o dia, permitindo que residentes e visitantes possam conhecer o edifício, a sua história e o seu património.
Nesse sentido, pareceu-nos absolutamente natural que o Salão Nobre pudesse receber exposições temporárias, enriquecendo a experiência de quem nos visita e dando uma nova vida aos diferentes espaços do Coliseu. Ao mesmo tempo, era também uma vontade deste Conselho de Administração fazer regressar o cinema a esta casa. Portanto, quando falamos de abrir as portas às artes visuais, estamos na realidade a falar de uma estratégia mais ampla de diversificação artística e de valorização do Coliseu enquanto espaço cultural. O Matriz Atlântica nasce dessa ambição, mas pretende ir mais longe: criar uma programação continuada na área das artes visuais, estabelecer pontes entre os Açores e outras instituições e agentes culturais e criar novas oportunidades de encontro, criação e reflexão a partir deste território.
Tem havido apoio do accionista?
Naturalmente, esta evolução só tem sido possível porque existe também uma forte aposta do nosso accionista, a Câmara Municipal de Ponta Delgada, na cultura e no Coliseu Micaelense. Temos sentido essa confiança por parte do Presidente da Câmara, Pedro Nascimento Cabral, e uma visão muito clara sobre a importância que a cultura deve assumir no desenvolvimento do concelho. O contrato-programa que mantemos com o Município desde 2023 deu-nos condições para crescer, não apenas ao nível da programação, mas também na capacitação e consolidação da equipa que diariamente dá suporte a toda esta atividade.
Entendemos que este era o momento certo porque o Coliseu está também a repensar o seu próprio papel. Queremos que continue a ser a grande sala de espectáculos que todos conhecemos, mas queremos igualmente que seja uma casa de cultura viva durante todo o dia, aberta à cidade, aos artistas e à comunidade.
O Coliseu Micaelense é tradicionalmente associado às artes performativas e aos grandes espectáculos. O que significa para a instituição entrar de forma mais afirmativa no domínio das artes visuais?
Temos plena consciência do peso histórico e institucional do Coliseu Micaelense e também da responsabilidade que isso representa. Somos uma instituição com uma capacidade de projecção muito significativa e acreditamos que essa força deve ser colocada igualmente ao serviço da arte, dos artistas e da cultura açoriana, contribuindo para que possam chegar mais longe e afirmar-se além do arquipélago.
Entrar de forma mais consistente no domínio das artes visuais significa, por isso, alargar a missão cultural do Coliseu e criar novas oportunidades para os artistas açorianos. Não pretendemos substituir ou diminuir aquela que é a nossa forte ligação às artes performativas. Pelo contrário, queremos acrescentar novos domínios artísticos à vida desta casa e utilizar a capacidade institucional do Coliseu para estabelecer pontes que dificilmente seriam criadas de forma isolada.
É precisamente com esse objectivo que, em Janeiro de 2026, assinámos um protocolo de cooperação com o Centro Português de Serigrafia, uma instituição com uma longa experiência na edição, divulgação e promoção das artes visuais. Esta parceria permite-nos criar uma ligação entre os Açores e o contexto artístico nacional e, sobretudo, pensar em mecanismos concretos para dar visibilidade aos nossos artistas e criar oportunidades para a sua projecção fora da Região.
O Matriz Atlântica materializa essa intenção. Queremos trazer aos Açores artistas, curadores, coleccionadores e instituições de referência, mas queremos também que esse movimento aconteça no sentido inverso: que os nossos artistas possam sair, circular, estabelecer contactos e encontrar novas oportunidades no panorama artístico nacional.
Para nós, esse é um dos grandes objectivos do projeto: fazer do Coliseu uma plataforma que, a partir dos Açores, seja capaz de criar pontes e projectar a criação artística açoriana além-mar.
Que lacuna existente no panorama cultural açoriano pretende o Matriz Atlântica preencher?
O Matriz Atlântica procura responder a várias necessidades que identificamos no panorama cultural açoriano, mas também a uma ambição muito concreta para o próprio Coliseu Micaelense.
Estamos no centro de Ponta Delgada, num edifício com um enorme legado histórico e cultural, e acreditamos que o Coliseu deve ser cada vez mais uma atracção cultural e também turística, um ponto de passagem para quem visita a cidade e um espaço que possa ser vivido para além dos horários dos espectáculos.
O Matriz Atlântica contribui para essa abertura. As exposições temporárias anuais, que estarão disponíveis ao público durante períodos alargados, permitirão que quem entra no Coliseu encontre uma oferta cultural mesmo durante o dia. Ao mesmo tempo, ajudam-nos a colocar esta casa de forma mais permanente na agenda cultural e mediática, não apenas como espaço de apresentação, mas também como lugar de criação, reflexão e debate.
E há debates que consideramos urgentes nos Açores. Um deles é, desde logo, o financiamento da arte contemporânea e a necessidade de encontrarmos novos modelos de participação das empresas, das fundações, dos coleccionadores e da própria sociedade civil no desenvolvimento cultural. É precisamente por isso que a apresentação pública do Matriz Atlântica acontece associada a uma conferência dedicada ao Mecenato e Arte Contemporânea.
Mas o projeto não se esgota nas exposições ou no debate. Tem uma componente muito importante de criação e capacitação dos artistas açorianos. As residências artísticas terão a particularidade de decorrer em Lisboa, nos ateliês do Centro Português de Serigrafia, proporcionando aos artistas seleccionados a oportunidade de trabalhar num contexto profissional especializado, contactar com outros agentes do sector e desenvolver trabalho com condições técnicas de grande qualidade.
Finalmente, existe uma dimensão que para nós é indispensável: a mediação cultural. Através do Serviço Educativo do Coliseu, queremos desenvolver oficinas e actividades dirigidas aos mais jovens e às famílias, aproximando novos públicos das artes visuais e contribuindo para a formação de públicos desde cedo.
Portanto, quando falamos do Matriz Atlântica, falamos de um projecto que procura actuar em várias frentes: expor, criar, capacitar, debater, mediar e projectar. Mais do que preencher uma única lacuna, queremos contribuir para criar um ecossistema mais aberto e com mais oportunidades para as artes visuais contemporâneas nos Açores.
A parceria com o Centro Português de Serigrafia é uma das bases do projecto. O que pode esta parceria trazer de novo para o ecossistema artístico regional?
Esta parceria é um dos elementos mais importantes do Matriz Atlântica, sobretudo pela capacidade de projecção que o Centro Português de Serigrafia pode proporcionar aos artistas açorianos.
Quando falamos do CPS, é importante perceber a dimensão da instituição e da comunidade que construiu. Estamos a falar de uma estrutura com mais de 4.000 sócios, assinantes mensais e coleccionadores de arte, uma revista dedicada à arte com uma tiragem de cerca de 4.000 exemplares, uma newsletter bissemanal e espaços próprios em Lisboa, nomeadamente uma galeria em São Bento e uma loja no Centro Cultural de Belém. É uma plataforma de divulgação e contacto com o mercado da arte de enorme relevância, sobretudo para artistas que trabalham a partir de uma região ultraperiférica como os Açores.
É precisamente aqui que esta parceria pode fazer a diferença. Não queremos apenas trazer o CPS aos Açores; queremos colocar os artistas açorianos dentro das redes e dos circuitos que esta instituição construiu ao longo de décadas. As residências previstas no Matriz Atlântica permitirão aos artistas seleccionados trabalhar nos ateliês do CPS, em Lisboa, num contexto profissional especializado, e beneficiar da sua capacidade de divulgação e projecção.
Consideramos, por isso, que este protocolo representa um passo muito importante na promoção das artes visuais açorianas a nível nacional. Queremos criar pontes que permitam aos nossos artistas sair dos Açores, circular, ser vistos e encontrar novas oportunidades para o seu trabalho.
O lançamento do Matriz Atlântica está associado a uma conferência sobre mecenato e arte contemporânea. Por que razão consideram importante trazer este debate para os Açores?
Estamos perante um momento particularmente oportuno para fazer esta discussão. Temos um novo enquadramento nacional para o mecenato e, nos Açores, não existe legislação regional específica sobre esta matéria. Parece-nos, por isso, que este pode ser um ponto de partida para refletirmos sobre o papel do mecenato no financiamento da cultura e sobre a possibilidade de encontrarmos soluções adaptadas à realidade económica, social e cultural da Região.
Para iniciar este debate, quisemos trazer ao Coliseu Micaelense personalidades e instituições com experiência e conhecimento efectivo sobre estas matérias. Teremos representantes de fundações de referência, como a Fundação Calouste Gulbenkian, a Fundação “la Caixa” e a Fundação Casa de Mateus, bem como alguns dos mais relevantes coleccionadores privados nacionais. Teremos ainda um painel inteiramente dedicado às questões jurídicas, fiscais e de financiamento da cultura. Para a moderação dos três painéis contamos também com três rostos conhecidos da televisão portuguesa, ligados à CNN Portugal.
Queremos que o dia 10 de Setembro fique na agenda como um momento importante para o debate sobre o mecenato nos Açores. Esperamos, por isso, uma participação alargada dos agentes culturais, instituições, comunidade científica, responsáveis políticos e culturais e, naturalmente, do sector empresarial privado. Se queremos encontrar novas formas de financiar e apoiar a cultura na Região, esta é uma conversa que tem de envolver todos estes sectores.
Importa ainda referir que a participação na conferência é totalmente gratuita, estando apenas sujeita a inscrição prévia. Queremos que este seja um espaço aberto à comunidade e a todos aqueles que tenham interesse em contribuir para uma reflexão séria e construtiva sobre o futuro do financiamento da cultura nos Açores.
É possível falar hoje de desenvolvimento cultural nos Açores sem falar também de investimento privado na cultura?
É muito difícil falar de desenvolvimento cultural sem falar de diversificação das fontes de financiamento e, necessariamente, do papel que o investimento privado pode assumir nesse contexto.
No caso do Coliseu Micaelense, temos um contrato-programa com a Câmara Municipal de Ponta Delgada, que é fundamental e nos permite financiar uma parte muito significativa da estrutura e da programação desta casa. Mas o mecenato tem também um papel importante, porque nos permite reforçar a nossa capacidade de programação e concretizar projectos que, de outra forma, seriam muito mais difíceis de realizar.
Esse apoio dá-nos, por exemplo, a possibilidade de apostar na presença de artistas nacionais nos Açores e tornar a programação cultural mais acessível ao público. Numa região arquipelágica, onde trazer um espectáculo implica custos acrescidos de viagens, transportes e logística, encontrar parceiros que partilhem esta missão faz uma diferença muito significativa.
Por isso, quando falamos de investimento privado na cultura, não estamos a falar de substituir o financiamento público. Estamos a falar de complementá-lo e de criar uma responsabilidade partilhada em torno da cultura. Quanto maior for a capacidade de envolver empresas e outros parceiros privados, maior será também a nossa capacidade de diversificar a programação e, sobretudo, de democratizar o acesso à arte e à cultura nos Açores.
Na sua perspectiva, o que está a falhar actualmente para que empresas, fundações e particulares assumam um papel mais forte no financiamento da cultura na Região?
Diria que precisamos sobretudo de reforçar três dimensões: diálogo, comunicação e acesso. É necessário aproximar quem cria e desenvolve projectos culturais de quem tem capacidade e interesse em financiá-los, criando mais espaços de encontro e tornando mais claras as formas através das quais empresas, fundações e particulares podem participar no desenvolvimento cultural da Região. É importante reconhecer que já existem vários projectos culturais nos Açores apoiados por fundações e entidades privadas. Portanto, não partimos do zero. O que acreditamos é que esta relação pode ser aprofundada e estruturada, criando maior proximidade entre o sector cultural e potenciais mecenas e parceiros.
A conferência pretende discutir a descentralização do investimento cultural. Considera que continua a existir uma excessiva concentração dos recursos e das oportunidades culturais em Lisboa e no Porto?
Sim, considero, e os estudos e as estatísticas continuam a demonstrar que existe uma concentração significativa de recursos, investimento e oportunidades culturais nos grandes centros urbanos, sobretudo em Lisboa e no Porto. Para uma região insular e ultraperiférica como os Açores, esta realidade coloca-nos naturalmente desafios acrescidos.
No entanto, acredito que não podemos ficar apenas à espera que essa descentralização aconteça. Temos também de criar oportunidades a partir dos Açores e encontrar formas de projetar aquilo que fazemos para fora da Região. No Coliseu Micaelense temos procurado seguir esse caminho e a Semana do Brasil, que voltará a realizar-se este ano, de 18 a 25 de outubro, e cujo programa apresentaremos em breve, é um bom exemplo dessa estratégia.
Os artistas que recebemos não vêm apenas actuar aos Açores. Procuramos criar conteúdos e estabelecer pontes que permitam que esses projectos tenham uma dimensão muito maior. Um exemplo recente foi a presença de Ney Matogrosso, que resultou também na série “Ney nos Açores”, levando um projecto desenvolvido a partir do Coliseu e dos Açores a públicos muito para além do arquipélago.
É esta lógica que queremos também aplicar ao Matriz Atlântica: não queremos apenas descentralizar trazendo artistas, instituições e oportunidades aos Açores; queremos que a descentralização funcione nos dois sentidos, criando condições para que os nossos artistas e a nossa produção cultural circulem, ganhem visibilidade e encontrem novos públicos a nível nacional e internacional.
Fala-se também no conceito de “coleccionador cidadão”. Que impacto pode ter o coleccionismo privado na democratização do acesso à arte nos Açores?
O conceito de “coleccionador cidadão” é particularmente interessante porque nos leva a olhar para o coleccionismo não apenas como uma paixão ou investimento privado, mas também como uma forma de responsabilidade social e cultural.
E esta relação entre o coleccionismo privado e a fruição pública já acontece nos Açores. Os nossos museus e centros de arte têm recebido obras provenientes de colecções privadas, através de empréstimos que permitem integrá-las em exposições e colocá-las ao alcance de todos. É um excelente exemplo de como uma colecção particular pode adquirir uma dimensão pública e contribuir para enriquecer a oferta cultural do arquipélago.
Numa região insular, esta partilha assume uma importância ainda maior. Democratizar o acesso à arte passa também por criar oportunidades para que as pessoas possam contactar com obras, artistas e colecções às quais, de outra forma, dificilmente teriam acesso. É precisamente esta reflexão que queremos aprofundar no terceiro painel da conferência, dedicado ao Coleccionismo e Responsabilidade Social: perceber como podemos reforçar esta relação entre coleccionadores e instituições, incentivar a partilha de acervos e, ao mesmo tempo, envolver o coleccionismo privado no apoio aos artistas e no desenvolvimento do ecossistema cultural açoriano.
Que papel quer o Coliseu Micaelense assumir no futuro ecossistema cultural dos Açores: produtor, programador, mediador ou também agente na captação de investimento para a cultura?
O Coliseu Micaelense sabe exactamente qual é o seu papel enquanto empresa municipal e continuará, naturalmente, fiel ao seu objecto social e à missão de serviço público que lhe está confiada pelo Município de Ponta Delgada. E fazemos esse caminho em estreita articulação com o nosso acionista, a Câmara Municipal de Ponta Delgada, cuja confiança e investimento têm sido determinantes para o crescimento que o Coliseu tem registado nos últimos anos.
Os próprios Estatutos são muito claros: cabe-nos assegurar a programação artística e cultural, promover e participar em produções e co-produções, contribuir para a formação de públicos, dinamizar culturalmente o concelho de Ponta Delgada e fomentar o intercâmbio artístico e cultural a nível nacional e internacional.
É dentro dessa missão que queremos continuar a crescer. Seremos produtores, programadores e mediadores, mas queremos também ser uma instituição capaz de criar pontes. Pontes entre os Açores e o exterior, entre os artistas e as instituições, entre o sector cultural e o sector empresarial e entre projectos culturais e potenciais parceiros. Não pretendemos assumir o papel de uma entidade financiadora da cultura regional, porque não é essa a nossa função. Mas podemos utilizar o peso institucional, a capacidade de comunicação e as redes do Coliseu para aproximar pessoas e instituições, estimular parcerias e ajudar a criar novas oportunidades para a cultura e para os artistas.
O Matriz Atlântica é precisamente um exemplo dessa forma de actuar: o Coliseu cumpre a sua missão cultural, mas, ao mesmo tempo, coloca à mesma mesa artistas, fundações, coleccionadores, empresas e instituições. Se dessa aproximação nascerem novas parcerias, novos projectos e mais investimento na cultura, estaremos também a contribuir para um ecossistema cultural mais forte.
José Henrique Andrade
