Há obras que se medem em dinheiro. Mas há obras que se medem pelo tempo oferecido, pelo esforço silencioso, pela persistência e, sobretudo, pela capacidade de servir sem esperar recompensa. As Grandes Festas de Nossa Senhora dos Anjos, em Água de Pau, pertencem a esta última categoria. Quando olhamos para a fotografia que acompanha estas palavras, vemos um grupo de homens, na sua maioria jovens, alguns acompanhados por elementos mais experientes de anteriores Comissões de Festas. À primeira vista, é apenas uma fotografia de família. Vinte anos depois, porém, ela transformou-se num verdadeiro documento de memória coletiva. Nela está retratada uma geração que decidiu não cruzar os braços perante o futuro das festas da sua Padroeira.
Foi assim que, em 2006, nasceu uma nova dinâmica na Comissão das Festas de Nossa Senhora dos Anjos. Jovens cheios de fé, de entusiasmo, de ideias novas e de uma enorme vontade de trabalhar juntaram-se a alguns dos homens que já conheciam, por experiência própria, os caminhos, as dificuldades e as responsabilidades inerentes à organização das festas.
Não é fácil dizer quem aprendeu mais: se os mais novos aprenderam com a experiência dos mais velhos, se os mais velhos aprenderam a acompanhar a energia, a criatividade e a ousadia dos mais jovens. Provavelmente, aconteceu aquilo que de melhor pode acontecer numa comunidade: uns trouxeram a experiência; outros trouxeram a força da renovação; e todos colocaram as suas capacidades ao serviço de Nossa Senhora dos Anjos e do povo de Água de Pau.
Ao lado deles esteve o Padre João Furtado, pároco e conselheiro atento, acompanhando esta caminhada e ajudando a orientar uma Comissão que haveria de marcar profundamente a história recente das festas.
Uma decisão que mudou o caminho
A partir de 2006, a Comissão assumiu uma nova forma de organização e de gestão. Até então, era a própria Paróquia que suportava diretamente muitas das despesas relacionadas com a preparação das festas, recorrendo a pessoas contratadas para trabalhos como a colocação dos mastros, a pintura, decoração e iluminação da fachada da igreja e das ruas por onde passava a procissão.
A nova Comissão decidiu fazer diferente. Não por querer afastar-se da tradição, mas precisamente por querer garantir que a tradição tivesse futuro. Os seus membros assumiram progressivamente tarefas que antes eram entregues a terceiros. Organizaram-se, aprenderam, trabalharam, erraram, corrigiram e voltaram a fazer. Pegaram em ferramentas, prepararam estruturas, montaram iluminações, decoraram ruas, transportaram materiais e, muitas vezes, trabalharam quando os outros já descansavam.
Foi uma mudança de mentalidade. A Comissão percebeu que, se queria elevar as festas a um novo patamar, tinha de criar meios próprios, organizar os seus recursos e investir no futuro.
E assim começou a construir uma verdadeira estrutura de sustentabilidade. Foram adquiridos materiais, lâmpadas, equipamentos e outros meios necessários à decoração e à logística das festas. Ano após ano, os recursos foram sendo ampliados. A necessidade de espaço levou à aquisição de um grande armazém, situado a escassos metros da Igreja Paroquial de Nossa Senhora dos Anjos, que passou a constituir uma importante base de apoio para guardar e preservar todo o equipamento utilizado nas festas. Pode parecer um pormenor. Não é.
Por detrás de cada lâmpada que se acende, de cada rua ornamentada, de cada estrutura montada e de cada elemento decorativo que surge diante dos olhos do público, existe trabalho, planeamento, investimento e, sobretudo, muitas horas oferecidas gratuitamente.
O verdadeiro preço de não cruzar
os braços
É aqui que se compreende o verdadeiro significado deste título: O Preço de Não Cruzar os Braços. Porque não cruzar os braços tem um preço. É chegar cedo e sair tarde. É sacrificar fins-de-semana. É interromper momentos com a família. É estar disponível quando alguma coisa corre mal. É resolver problemas que ninguém vê. É ouvir críticas depois de ter dado tudo. É voltar no ano seguinte, apesar de tudo. É acreditar quando ainda não se vê o resultado. E é, acima de tudo, compreender que uma festa desta dimensão não acontece por acaso. Acontece porque há pessoas que decidem servir
Foi essa atitude que permitiu que as Grandes Festas de Nossa Senhora dos Anjos recuperassem e consolidassem o lugar de destaque que merecem na vida religiosa, cultural e comunitária de Água de Pau.
Ao longo destes vinte anos, a Comissão foi desenvolvendo uma logística cada vez mais ampla. Estabeleceu e reforçou parcerias com instituições autárquicas, Câmara Municipal de Lagoa e Junta de Freguesia de Água de Pau e locais, entre as quais se destaca a colaboração com a Casa do Povo na realização dos Cortejos Etnográficos e de Oferendas, que se tornaram momentos marcantes das celebrações e que mobilizam a comunidade no domingo que antecede o grande dia de 15 de agosto.
Também foram criadas e ampliadas zonas destinadas às tradicionais “barraquinhas”, permitindo reforçar as receitas necessárias à realização das festas e, consequentemente, melhorar a qualidade e a diversidade do programa. Entre os momentos mais aguardados encontra-se o fogo de artifício, que ao longo dos onze dias — de 7 a 17 de agosto — vai iluminando o céu e acrescentando brilho a uma celebração que já faz parte da identidade coletiva da vila.
A própria procissão conheceu novos caminhos. Com o crescimento da comunidade e a expansão urbana da vila, o percurso foi prolongado até à Rua Manuel Egídio de Medeiros, e do Paul, permitindo que mais moradores e visitantes pudessem participar e sentir a presença da Padroeira nas suas ruas. E há outro aspeto que merece especial reconhecimento: a música.
Desde 2006, a procissão tem contado com a participação de numerosas bandas filarmónicas, muitas vezes mais de dez em cada edição, num espetáculo de fé, tradição e cultura que transforma as ruas de Água de Pau num extraordinário ponto de encontro. Mas as festas também souberam olhar para a diáspora. Água de Pau é uma terra marcada pela emigração. Desde meados do século XX, muitas famílias pauenses partiram em busca de novas oportunidades, sobretudo para os Estados Unidos da América e para o Canadá. Partiram fisicamente, mas levaram consigo a memória da terra. E a Comissão soube compreender que as festas podiam ser também uma ponte entre a comunidade residente e as comunidades pauenses espalhadas pelo mundo. Por isso, ao longo dos anos, artistas e grupos musicais ligados aos destinos da emigração foram subindo ao palco das festas, trazendo consigo sons, memórias e histórias que atravessaram o Atlântico.
As festas tornaram-se, assim, muito mais do que um acontecimento religioso. Quando chegam os dias grandes, Água de Pau transforma-se. Chegam milhares de pessoas. Chegam os que vivem na ilha, os que regressam da emigração, os que vêm de outras localidades, os que chegam em família, de carro, de camioneta. E também aqui o trabalho invisível da Comissão se torna essencial. A necessidade de estacionamento, por exemplo, exige uma organização que muitas vezes passa despercebida a quem chega apenas para participar na procissão. A Comissão tem conseguido, junto de agricultores e proprietários locais, a cedência de terrenos para estacionamento, criando condições para acolher o enorme fluxo de visitantes que se deslocam à vila. É um trabalho de bastidores. Mas sem ele, a grande festa não seria possível na dimensão que hoje conhecemos. Porque uma festa grande não se faz apenas no palanque, na igreja ou nas ruas iluminadas. Faz-se também nos armazéns, nos terrenos, nos transportes, nas montagens, nos contactos, nas reuniões, nos telefonemas e nas decisões tomadas quando quase ninguém está a ver.
A noite em que o povo diz obrigado
E depois chega 17 de agosto. Chega a despedida de Nossa Senhora dos Anjos. Depois de onze dias de celebrações, música, encontros, devoção, convívio e movimento, chega o momento em que as luzes começam a apagar-se e a multidão se reúne para a despedida. É talvez nessa noite que todo o trabalho ganha verdadeiro significado. Porque diante de Nossa Senhora dos Anjos estão milhares de fiéis. E, por detrás daquela multidão, estão vinte anos de dedicação. Vinte anos de pessoas que deram o seu tempo. Vinte anos de pessoas que deram ideias. Vinte anos de pessoas que deram muitas vezes aquilo que tinham de mais precioso: o seu tempo de vida. O aplauso do povo nessa noite é, por isso, muito mais do que um aplauso.
É um obrigado. Obrigado por não terem cruzado os braços. Obrigado por terem trabalhado quando era mais fácil desistir. Obrigado por terem percebido que a grandeza de uma terra também se constrói através daqueles que servem a comunidade sem procurar protagonismo.
Vinte anos depois, a fotografia dos primeiros tempos ganha hoje uma força especial. Aqueles rostos mais jovens que ali vemos talvez não imaginassem a dimensão do caminho que tinham pela frente. Provavelmente não sabiam quantas horas de trabalho os esperavam. Não sabiam quantas dificuldades teriam de ultrapassar. Não sabiam quantas decisões teriam de tomar. Mas tinham uma coisa que vale mais do que qualquer previsão: tinham vontade. Vontade de servir. Vontade de honrar Nossa Senhora dos Anjos. Vontade de honrar Água de Pau. Vontade de deixar aos que viessem depois uma festa maior, mais organizada e mais capaz de receber todos aqueles que, ano após ano, regressam à sua terra. É isso que os vinte anos desta Comissão representam. Não representam apenas duas décadas de festas. Representam duas décadas de compromisso.
Neste 20.º aniversário, é justo prestar homenagem a todos os que fizeram e fazem parte da Comissão das Festas de Nossa Senhora dos Anjos. E uma palavra muito especial para o Padre João Furtado, que acompanhou esta caminhada como pároco, coordenador e conselheiro, ajudando a orientar gerações de membros da Comissão e mantendo sempre presente a dimensão espiritual que dá sentido a toda esta celebração. Que continue a ser, nos próximos anos, uma presença amiga e um conselheiro atento, ajudando os membros a compreender que uma festa religiosa não vive apenas do que se vê. Vive da fé. Vive da comunidade. Vive da entrega. E vive da capacidade de passar o testemunho.
E se hoje as Grandes Festas de Nossa Senhora dos Anjos são reconhecidas pelo povo como uma das grandes expressões da fé e da tradição religiosa dos Açores, isso deve-se, em grande medida, a todos aqueles que, durante décadas, deram o melhor de si para que a festa pudesse continuar a crescer.
À Comissão das Festas de Nossa Senhora dos Anjos de Água de Pau, pelos seus 20 anos: parabéns, obrigado e bem-haja.
Que Nossa Senhora dos Anjos continue a proteger esta terra, as suas famílias e todos os seus filhos espalhados pelo mundo. Que continue a iluminar aqueles que servem. E que nunca faltem mãos disponíveis, corações generosos e jovens com coragem para pegar no testemunho. E, enquanto houver quem não cruze os braços, haverá sempre futuro para as Grandes Festas de Nossa Senhora dos Anjos da Vila de Água de Pau.
Por: Roberto Medeiros