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“Vai chegar o momento em que será impossível o Santa Clara jogar no estádio”

A SAD da Santa Clara, Açores, Futebol, cujo único investidor é Bruno Vicintin, iniciou a quinta temporada na ilha de São Miguel.

Tem sido uma ligação de sucesso, com poucas cambiantes menos conseguidas. O propósito é a estabilidade na I Liga portuguesa para fazer crescer o clube e projectar ainda mais a Região Autónoma dos Açores e a ilha de São Miguel.
Aproveitando a estada em Ponta Delgada mantivemos uma longa conversa com Bruno Vicintin, que aprecia a ilha e os Açores de tal forma que a família residente em Belo Horizonte, no Brasil, não dispensa visitas regulares. Abordámos muitos temas, divididos em capítulos a serem apresentados em próximas edições.
O primeiro, por ser premente e por preocupar, foi o estado do estádio de São Miguel. Uma análise sensata sobre uma estrutura que o tempo da concessão fez esmorecer os projectos iniciais.

A SAD ainda está interessada na concessão do estádio de São Miguel, atendendo à longa demora na abertura do concurso internacional?
“O estádio de São Miguel é pertença do Governo Regional dos Açores. Só quando abrirem a concessão saberemos as condições.
Adianto, desde já, que a SAD do Santa Clara só terá interesse em investir se o modelo de negócio for extremamente vantajoso e por um período de tempo que justifique. De outra forma não há interesse em investir. Sendo um estádio antigo, com muitas debilidades estruturais, requalificá-lo é um investimento muito alto.”

Como sabe, a falta de verbas e de desinteresse ao longo de muitos anos são a causa para a não realização das obras necessárias…
“Isso é o que temos sabido para as obras indispensáveis e necessárias. Mas há possibilidades de obtê-las. Vender os terrenos adjacentes pertencentes ao Governo a um grupo imobiliário privado e o retorno ser aplicado na renovação do estádio de São Miguel é uma hipótese.
É o que tem sido feito em alguns locais. Por exemplo, a câmara de Madrid cedeu o terreno ao Real Madrid. Foram construídos edifícios que custearam a instalação da Cidade Desportiva. Em Viseu, onde estive, a parceira Câmara/SAD permitiu reabilitar e revitalizar uma estrutura antiga. Na Madeira o Governo teve uma acção determinante nos estádios do CS Marítimo e do CD Nacional.
Qualquer investidor que esteja na SAD do Santa Clara não irá empregar verbas avultadas numa estrutura que não lhe pertence. Nós não temos interesse em administrar aquela estrutura.”

“Um investidor é somente
o guardião da marca”

A SAD vai tapando algumas lacunas. A última é a manutenção do relvado…
“Exactamente. Temos ajudado para a Liga autorizar jogarmos na ilha de São Miguel. Têm sido vários os investimentos desde que aqui chegamos. Estamos a realizar uma forte intervenção no relvado, porque tem sido muito criticado pela má qualidade que tem apresentado, ao ponto de na última época ter sido o pior da I Liga. Houve uma pressão forte para melhorá-lo. Estamos a aplicar uma verba muito significativa nos relvados dos campos do Lajedo e das Laranjeiras, para além dos dois do Centro de Treinos.”

Mas sem melhorias, um dia pode surgir a notícia do impedimento da realização de jogos da I Liga…
“É uma possibilidade real. Se não se registarem melhoramentos urgentes e com a degradação que acontece, vai chegar o momento em que será impossível jogarmos no estádio.
A queda da lâmpada que, felizmente, feriu ligeiramente dois espectadores no jogo com o Nacional da Madeira, é um exemplo. Mesmo pequeno, teve repercussões.
Se o Santa Clara tivesse passado à fase de grupos da Liga Conferência na época passada, os jogos quase de certeza que não seriam no estádio de São Miguel.
A Liga Portugal tem interesse em que haja jogos na Região, mas a Região tem de colaborar.
Deixo vincado que qualquer dono de um clube é o guardião da marca, mas o clube, no caso do Santa Clara, pertence à Região.”

“Não se percebe a falta de cadeiras”

E Bruno Vicintim adiantou outro pormenor…
“Um pormenor que não se percebe é a falta de cadeiras no topo norte. Pelo menos há três anos que o espaço está em cimento. Além do mau aspecto que passa para todo o país, reduz a capacidade em 15/20 por cento da ocupação nos jogos com as equipas que atraem mais espectadores.”

Recuaram no fecho da bancada Açores, a nascente, que mereceu informação aos associados aquando da renovação dos lugares, nos jogos sem grande afluência de espectadores…
“Foi um assunto discutido. Porém, concluiu-se que sendo a colocação das câmaras nas transmissões televisivas do lado contrário, as bancadas apareceriam vazias. Mesmo que do lado da tribuna estivessem muitas pessoas, ficaria a sensação de estádio vazio.”

Um dos melhoramentos urgentes é a cobertura das bancadas…
“É fundamental. Eu, que gosto imenso de futebol, num dia de jogo com tempo instável, não iria ao estádio para apanhar chuva. Hoje em dia o espectador é mais exigente e requere conforto”.

A concessão por cinco anos do campo do Lajedo motivou muitas críticas. A SAD já se manifestou e está disponível para ceder o relvado sempre que for necessário?
“Sim, é um assunto para nós ultrapassado. Não percebo porque ainda há quem levante um problema que já não existe. Devem estar fora do que aconteceu ou serem mal informados. Porque não nos procuram para saber a conhecerem a realidade?
O torneio internacional de futebol infantil do Clube União Micaelense foi ali realizado e no novo ano, se pretenderem voltar a realizá-lo no Lajedo, iremos ajustar para que tal aconteça.”
“O terreno adquirido
não é para estádio”

O Santa Clara foi punido, por uma segunda vez, com um jogo à porta fechada, mas ainda não cumpriu…
“Fomos absolvidos porque concluiu-se não ter a SAD responsabilidade no equipamento de gravação que acompanha a segurança dos espectadores e dos intervenientes no jogo. É a segunda vez que sucede. Da primeira vez jogamos, há dois anos, com o Moreirense sem público.

Fala-se que a família Vicintin adquiriu um terreno com o objectivo de construir um campo de futebol?
“Adquirimos um terreno na zona do Azores Park, mas não temos intenção de construir um estádio, cujo custo é de milhões. Foi um investimento que surgiu. Não está nada previsto a curto ou a médio prazo. Pode, até, ser possível erguer um campo de futebol que sirva a formação, mas é apenas intenção.”

Segunda fase a médio prazo

A primeira fase do Centro de Treinos, em Santana, Rabo de Peixe, está concluída. Dois relvados naturais, espaço para treino de guarda-redes e um campo sintético. Todos com as medidas regulamentares. Os balneários são provisórios, em contentores.

Quando se iniciará a segunda fase?
“Prevemos a médio prazo iniciar as obras da segunda fase, que comporão as áreas administrativa e médica, os balneários e outras valências. O investimento na manutenção dos relvados, que custam alguns milhares de Euros, foi prioritário. Outro investimento foi no gabinete médico, que funciona no estádio. Adquirimos equipamentos de ponta.
No futebol como modelo de negócio é indispensável um Centro de Treinos. É fundamental para o progresso dos atletas.”

O campo sintético vai ser licenciado para jogos oficiais?
“Para já não. Teríamos de construir uma bancada e enquanto não houver os balneários não podemos avançar com os preparativos para os jogos oficiais.
Estamos muito bem servidos na utilização do campo do Bom Jesus. É uma parceria que saúdo porque os dirigentes do clube e os residentes da vila de Rabo de Peixe perceberam quão importante é a aliança. Temos sido muito bem recebidos e gostamos muito daquelas pessoas. ”

José Silva

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