Estudo dinamarquês com mais de 136 mil mulheres mostra que pacientes com endometriose recorrem mais a ansiolíticos e antidepressivos até uma década antes de receberem o diagnóstico; diferença agrava-se após a confirmação da doença.
Uma ampla investigação baseada em registos de saúde da Dinamarca revelou que as mulheres com endometriose apresentam um consumo significativamente mais elevado de medicação para a ansiedade e para a depressão, além de recorrerem com maior frequência a serviços psiquiátricos hospitalares. A conclusão é de um estudo conduzido na Universidade de Aarhus, que analisou dados de 136.842 mulheres.
O que mais chamou a atenção dos investigadores foi a precocidade e a persistência do padrão: o aumento do uso de psicofármacos já se verifica nos dez anos anteriores à confirmação da doença. “O que nos surpreendeu foi o quão claro e constante era o padrão, e que a diferença não diminuía com o tempo. Pelo contrário. As mulheres com endometriose resgataram consistentemente mais receitas de antidepressivos do que as mulheres sem a doença durante todo o período, desde dez anos antes até dez anos depois do diagnóstico”, afirmou Marie Josiasen, doutoranda no Departamento de Saúde Pública e uma das autoras do trabalho.
Nos anos que antecederam o diagnóstico, as mulheres com endometriose resgataram 29 por cento mais receitas de antidepressivos e 16 por cento mais de ansiolíticos. Após o diagnóstico, esses números subiram para 40 por cento e 46 por cento, respectivamente. Apesar de o estudo não apontar uma causa única para o sofrimento psicológico, Josiasen admite que a dor prolongada, a incerteza sobre a origem dos sintomas e a frustração por não conseguir levar a vida desejada podem estar entre os factores. Para algumas, os problemas de fertilidade constituem igualmente um fardo emocional considerável.
Um dos achados mais intrigantes, na perspectiva da investigadora, é que o diagnóstico não alivia o desgaste mental. A diferença em relação às mulheres sem endometriose torna-se ainda mais acentuada nos anos seguintes. “Um diagnóstico pode ser um alívio, mas também implica aceitar uma doença crónica”, observou Josiasen. O estudo não permite concluir se um diagnóstico mais precoce reduziria a pressão psicológica.
No âmbito do seu projecto de doutoramento, Marie Josiasen vai agora explorar o papel que a contracepção hormonal pode ter na saúde mental destas doentes. “Vemos que muitas recebem medicação e têm contacto com os serviços de psiquiatria. Mas ainda falta compreender o que realmente ajuda estas mulheres. É isso que quero ajudar a descobrir”, rematou.
A pesquisa contou com financiamento do programa Horizonte 2020 da União Europeia e da Fundação Helsefonden, e os autores declaram não ter conflitos de interesse.
