O artista angolano Paulo Flores regressa à ilha de São Miguel após mais de 20 anos, para actuar no festival Azores Burning Summer. O Correio dos Açores entrevistou o ícone da música angolana, que admitiu que o concerto será uma celebração da sua carreira e uma amostra dos vários géneros musicais.
Correio dos Açores – Pode começar por explicar como nasceu a sua ligação com a música?
Paulo Flores (músico) – A ligação com a música começou muito cedo. O meu pai era DJ, em Angola chamava-se ‘discotequeiro’. Ele tinha milhares de discos em casa, para além de ter uma ligação muito forte com muitos músicos. Passavam lá em casa músicos de Cabo Verde, do Brasil, o Martinho da Vila, por exemplo, então eu sempre estive rodeado de arte, de música. Eu vim para Portugal cedo com a minha mãe, mas o meu pai ficou lá e eu ia sempre de férias, nas férias grandes, passava um pouco nesse meio. Lembro-me de ser criança e cantar no microfone em cima dos discos do meu pai. Desde muito cedo, tanto que depois o meu pai veio para Lisboa em 1986 e em 1988, com 16 anos, eu gravei o meu primeiro disco de originais. Portanto, foi tudo tão rápido que eu nem tive tempo de perceber como é que aconteceu. Desde criança a música foi sempre a única coisa que eu quis fazer”.
A sua grande influência na música acabou, portanto, por ser o seu pai?
Sim, sem dúvida. A grande educação, a informação musical, também a variedade, a forma como ele tinha música do mundo inteiro, desde a América Latina, Estados Unidos, música africana, música da Angola Antiga e essa foi para mim a grande, pelo menos o sítio onde me socorri para ir aprendendo, ir entrando nesse universo. Acho que, de alguma maneira, também toda a poesia, os poetas, os poetas portugueses, o Ari dos Santos, os poetas da música, como o Chico Buarque, todos eles, de alguma maneira, tinham também aquela crítica social, de alguma maneira, a condição humana. Tudo isso, acho que foi despertar em mim na minha maneira de escrever e de compor, que até hoje acaba por ter essa influência toda.
As suas canções falam de vários temas e servem como uma música de intervenção. Sente que a sua música serve para consciencializar o povo angolano?
Acho que acabou por ser isso, acabou por ser uma música considerada de intervenção e principalmente que ajudou muito a mexer com algumas consciências, a ter caminhos para a expressão livre das pessoas e até às vezes para o pensamento. Como disse, eu comecei tudo tão cedo que eu nunca tive na minha cabeça que eu queria fazer isso dessa maneira, só que todas as influências que tive e a forma como fui vendo a vida deste pequeno, com muitas coisas que me marcaram, ajudaram nisso. Eu vivia entre Portugal e Angola e havia muitas coisas que eram diferentes de cá e eu fui aprendendo. Lembro-me de numa das férias grandes que fui a Luanda, o Agostinho Neto morreu, em 1979 e dos 60 dias que eu estive lá, 45 dias foram de luto, onde não se podia ouvir música, às 21 ou 22 horas toda a gente estava recolhida. Lembro-me do meu pai estar com os amigos a jogarem jogos de cartas e ouvirem um álbum que eram 4 discos do Muddy Waters, mas a ouvirem tudo muito baixinho porque era luto e não se podia ouvir música. Eu com aquela idade, comecei a perceber que até ouvir música poderia ser errado.
Eu acho que tudo isso foi o que me influenciou, para além daquilo que eu acho que é mais importante na minha música, porque embora eu fale de facto dos nossos problemas, eu acho que os afectos estão muito presentes em tudo e mesmo quando eu falo de Angola, dos seus problemas e dos problemas do mundo, eu tento de alguma maneira, não é muito uma questão de apontar o dedo, é mais uma altura para a gente se conhecer e falar de nós próprios. Num país onde falta luz, falta água, isso tudo acabou por estar presente na minha escrita de uma maneira simples e natural. Acho que foi esse o grande contributo que a minha música deu, que tinha a ver muito com essa frescura de falar das coisas sem pudor, de forma simples e de forma que de alguma maneira nos acabava por unir a todos, nem que fosse nessa dor.
Sente que a Angola que deixou na infância mudou para melhor? Ou os tempos vieram acentuar ainda mais os problemas?
Acho que há muitas diferenças. É como se fosse um bebé a gatinhar. Passa por várias fases e que ainda tem muito para se descobrir, para crescer e principalmente, para se humanizar dessa maneira, que esperamos que seja para todos ou cada vez para mais pessoas. Acredito que há muita coisa que melhorou também, naturalmente, o mundo mudou e acho que Angola está a fazer um esforço para tentar, nesse sentido, como Estado, como preocupação com o seu cidadão, para ser melhor, mas naturalmente com muitas carências.
Antigamente, e aí talvez seja a coisa que eu sinto mais de diferença, parecia que toda a gente se conhecia. Tenho uma música que se chama ‘Independência’ que diz que ‘todos sofrermos da mesma carência foi o que fez diferença’. Naquela altura, todas as pessoas se conheciam, todas se ajudavam e isso é a grande diferença da sociedade de hoje, que com os seus problemas continua cada vez mais afastada. As pessoas acabam por ter, às vezes, os mesmos defeitos do mundo moderno, que não tem tempo para a gente se conhecer, nem para apreciar as coisas simples, mas ao mesmo tempo continua, agora cada vez com mais habitantes. É tudo muito diferente, mas se calhar ao mesmo tempo e na forma como as pessoas tinham tempo para falar e se conhecer, é aquilo que eu sinta mais diferença.
Lançou recentemente um single com a cantora Anna Joyce, chamado “O Pai”. É uma artista angolana de uma geração diferente. Sente que aprende com os novos músicos angolanos?
Sim, claro que sim. Mais do que aprender, é voltar a sentir emoções como se fosse a primeira vez, porque isso normalmente os mais jovens transmitem aquele amor tão vivo quando fazem uma música, quando cantam, quando celebram o que estão a fazer e acho que é essa paixão que se vai renovando em mim cada vez que estou com os mais jovens. Costumo dizer também que muitas vezes o futuro já aconteceu, ou seja, musicalmente eu não vou ali à procura de fazer sucesso com a musicalidade deles, mas sim ter essa noção que, por mais força que eu faça, o futuro é uma coisa muito rápida e poder ter presente e estar junto de quem o constrói é um privilégio e tento aproveitar ao máximo.
Que artistas angolanos da nova geração o estão a surpreender e que gostaria de destacar?
Eu acho que nós nos últimos anos temos tido um crescimento grande em termos artísticos e em termos da emoção profissional dos artistas angolanos. Desde o Matias Damásio, Yuri da Cunha, o Anselmo Ralph, o C4 Pedro, que foram montando e conseguindo cimentar uma dimensão enorme em Angola e cá fora também. A Yola Semedo, a Perola, a Anna Joyce, com quem gravei há pouco tempo, as pessoas mais do semba, os mais velhos que ainda estão, a Banda Maravilha, a Patrícia Faria e também os mais modernos, o Anderson Mário, Gerilson Insrael e tem muitos que têm uma nova musicalidade, uma nova abordagem e estou esperançoso que continue a crescer. Tem muitos artistas com muito talento.
Já tinha estado nos Açores?
Já estive nos Açores, mas já foi em 1994, acho eu, já há 20 e tal anos em São Miguel. Foi uma viagem que adorámos, ficámos quase uma semana e fomos às Furnas e passei nas Sete Cidades. Foi uma viagem muito enriquecedora.
Está entusiasmado por voltar à Região?
Claro que sim. Quando fui a primeira vez, devia ter 20 ou 22 anos, agora tenho 54. É ver como tudo aconteceu e ter o privilégio de voltar a lugares onde fomos felizes. O ditado diz para não o fazermos, mas acredito que seja um reencontro também bastante emocionante e espero que toda a gente possa participar e celebrar connosco.
O que podemos esperar deste concerto no próximo dia 28 de Agosto?
É um pouco uma viagem pela minha carreira, uma amostra por vários géneros que marcam a minha musicalidade, desde o semba, a rumba de Angola, a própria Kizomba, que, entretanto, se tornou também muito famosa no mundo inteiro. Quando nós começamos em 1988, eu lembro-me que a minha música ‘Isso É Boda’ foi a primeira que usou a palavra Kizomba com esse significado, de festa e de dança. Então pronto, é isso tudo que vamos celebrar e com certeza será para quem gosta da música angolana e da minha música em particular, um momento de reencontro e de amor ao próximo porque está sempre presente também nas minhas músicas.
É especial cantar para a comunidade Angolana que vive fora de Angola?
É claro, é sempre muito especial porque as minhas músicas também se tornaram parte do fim de semana, dos encontros dos angolanos em família, como nós fazíamos com a música do Kota Bonga, do Teta Lando e poder ouvir essas músicas que nos transportam à terra. Tem muitos portugueses que, felizmente, durante os anos foram-me conhecendo e recebendo a minha música também como sua. Portugal também faz parte do meu pensamento e daquilo que eu componho.
De facto, tocar para essa comunidade que está longe e sentir que é como se chegassem a Angola depois de tantos anos sem ir lá, é muito bom. Lembro-me de ter ido tocar à Noruega, acho que há uns dois anos, e vieram angolanos da Suécia. Quando eu entrei em palco, olhei para a frente e vi umas três senhoras já com mais de cinquenta anos a chorar compulsivamente e ainda só estava o instrumental, ainda nem tinha cantado. Acho que isso diz tudo. Eu tenho um poema que diz que “para ser mais feliz tem que ser em Angola”. Essa Angola é aquilo que nós romantizamos, que nós sonhamos que poderia ser e que a transportamos para todo o sítio onde vamos”.
Acha que a música tem o poder de transportar uma comunidade pelo mundo inteiro?
Angola é muito um pedaço de nós, do que sentimos, do que sofremos, do que sentimos falta, o que choramos e o que sorrimos. Essa construção de cada nação é feita por pessoas, o que elas sentem e o que elas acabam por representar. Sem dúvida, a música é também a nossa capacidade de sobrevivência, ajuda-nos a ser mais fortes, a aguentar o dia-a-dia e tem essa função de nos unir e nos edificar também. Tenho uma música com a Yuri da Cunha que é a “Njila ia Dikanga”, que traduzindo é ‘Um caminho distante’ e que fala muito da vontade, do desejo que as nossas avós tinham de morrer na própria terra. Essa música, assim que entra, parece que o ritmo nos transmite logo a sensação de pátria e essa sensação está em todos os cantos do mundo.
Com quase 40 anos de carreira, sente-se realizado por tudo aquilo que fez e conquistou?
Nunca tive grandes expectativas sobre nada. Nunca quis ser o melhor, nada disso. Comecei a compor, a escrever e a cantar, no fundo, para desabafar. Era a minha maneira de me consolar a mim próprio, talvez por isso a minha música tenha essa nostalgia, mesmo quando é dançável. Eu lembro-me que as pessoas dançavam muito a minha música, a música tornava-se um sucesso e só depois, quando as pessoas começavam a ouvir bem as palavras, é que compreendiam a melancolia que está tão presente. Acontece muito no semba e no samba.
No fundo, acho que me sinto mais que realizado, por tudo isso que disse. Muita gente tem o testemunho de como a minha música foi importante nas suas vidas. Tenho gente que me disse que uma música minha lhes salvou a vida. Os soldados diziam que saíam das batalhas em Angola e metiam a minha cassete para ouvir as músicas enquanto saravam os ferimentos. São coisas tão acima de qualquer coisa que eu poderia imaginar, porque no fundo só estava a desabafar sobre mim próprio, e sobre o que eu achava, a minha família e falta também do lugar.
Vasco Blayer