Embora tenha acontecido o que aconteceu em Rabo de Peixe, e que ninguém deve desculpar, relativizar ou branquear, não posso deixar de dizer que me admira profundamente a ligeireza com que muitos têm falado da nossa Vila.
Sim, Rabo de Peixe tem problemas sociais graves. Sim, aquilo que aconteceu é condenável. Sim, é preciso agir, responsabilizar e encontrar soluções. Mas há uma coisa que não podemos aceitar: transformar um acontecimento grave na definição de uma terra inteira e de cerca de dez mil pessoas.
Rabo de Peixe não é um crime. Rabo de Peixe não é droga. Rabo de Peixe não é violência. Rabo de Peixe são pessoas. São famílias. São crianças. São idosos. São trabalhadores. São pescadores. São agricultores. São jovens que estudam, trabalham e lutam diariamente para construir uma vida melhor. São associações, grupos culturais, instituições, Igreja, escolas e tantas pessoas que, muitas vezes silenciosamente, fazem muito por esta comunidade.
Por isso, quando vejo alguns a falar de Rabo de Peixe como se estivessem a falar de um lugar condenado, lembro-me inevitavelmente das palavras de Jesus: “Sepulcros caiados de branco: por fora parecem belos, mas por dentro estão cheios de ossos de mortos e de toda a espécie de podridão.”
Talvez antes de apontarem o dedo para Rabo de Peixe, alguns devessem ter a coragem de olhar para dentro das suas próprias casas, das suas próprias comunidades e, sobretudo, para dentro das suas próprias consciências.
É muito fácil falar de Rabo de Peixe quando se está de fora. É muito fácil julgar quando não se conhece a realidade. É muito fácil fazer comentários nas redes sociais, lançar acusações e alimentar preconceitos. Difícil é vir cá. Difícil é conhecer as pessoas. Difícil é entrar nas casas. Difícil é ouvir quem sofre. Difícil é permanecer quando as câmaras se vão embora.
E é precisamente aqui que a minha indignação aumenta quando ouço alguns responsáveis políticos falar.
Tem-me desiludido profundamente a forma como alguns políticos têm abordado esta situação.
Muito discurso, muita declaração, muita preocupação pública, mas pouca coragem para fazer aquilo que verdadeiramente se exige neste momento: um mea culpa.
Porque onde está a responsabilidade política?
Onde está a coragem para reconhecer que, apesar de décadas de programas, investimentos, projetos e políticas sociais, alguma coisa falhou?
Falharam estratégias.
Falharam respostas.
Falhou a prevenção.
Falhou a capacidade de acompanhar algumas famílias.
Falhou a continuidade de determinadas políticas. E, sobretudo, falhou a capacidade de atacar as causas profundas de um problema que não nasceu ontem.
E o mais preocupante é que muitas das condições que contribuíram para este falhanço continuam presentes.
Então, o que mudou?
Mudaram as declarações. Mudaram as fotografias. Mudaram os discursos.
E ninguém quer ficar mal na fotografia.
Ninguém quer ser impopular.
Ninguém quer assumir responsabilidades.
Ninguém quer dizer: “Também falhámos.”
É sempre mais cómodo apontar o dedo ao outro. É sempre mais fácil dizer que o problema é de uma Vila, de uma família, de determinados jovens, de determinadas pessoas. Assim, evita-se olhar para o espelho.
E isso, para mim, é a verdadeira hipocrisia.
Não precisamos de políticos a defenderem-se uns dos outros. Precisamos de políticos com coragem para defenderem as pessoas.
Não precisamos de discursos feitos para agradar aos de cima.
Precisamos de decisões que incomodem, que mexam nas estruturas, que enfrentem interesses e que tenham coragem de produzir resultados.
Aquilo que aconteceu é condenável. Sem desculpas. Sem relativizações.
Mas também é condenável utilizar esse acontecimento para condenar uma comunidade inteira.
E, antes de voltarmos a ouvir os habituais “especialistas” de ocasião, os comentadores de bancada e os políticos que tudo sabem depois de acontecer, talvez fosse bom perguntar-lhes simplesmente:
Onde estavam antes?
O que fizeram?
O que não fizeram?
O que correu mal?
E o que estão verdadeiramente dispostos a mudar?
Porque Rabo de Peixe não precisa de piedade.
Precisa de verdade.
Rabo de Peixe merece mais do que discursos. Merece respeito. Merece verdade. E merece ação.
Por: P. Marco Luciano