Edit Template

De regresso à ilha

Há regressos que começam ainda antes de chegarmos. Talvez quando fechamos a última mala, talvez quando olhamos uma última vez para a casa onde passámos alguns dias, ou simplesmente quando percebemos que o tempo, esse velho inimigo das férias, decidiu correr mais depressa do que gostaríamos. É sempre assim. Chegamos com a sensação de que temos todo o tempo do mundo e, quando damos por nós, já estamos a arrumar as coisas para partir.
Ficam para trás alguns dias na terra. Dias diferentes, porque voltar a um lugar que nos pertence, mesmo quando já não vivemos nele, tem sempre qualquer coisa de especial. Há ruas que continuam a ser nossas, pessoas que reconhecemos sem precisar de palavras, paisagens que dispensam fotografias porque estão guardadas noutro sítio, muito mais fundo. Regressar é também perceber que há lugares que deixámos de habitar, mas que nunca deixaram de nos habitar.
É curioso como podemos construir uma vida longe do lugar onde nascemos e, ainda assim, continuar a sentir que uma parte de nós ficou por lá. Não é uma questão de escolher uma terra em detrimento de outra. Talvez seja precisamente o contrário. Há momentos em que sentimos saudades de onde estamos quando estamos longe e sentimos saudades de onde estivemos quando regressamos. A verdade é que se pode ter mais do que uma casa. Pode-se pertencer a mais do que um lugar. E talvez seja esse o preço de quem aprendeu a viver entre duas terras: nunca se parte completamente de nenhuma delas. Agora é tempo de regressar.
Regressar às manhãs com horários definidos, às obrigações que não esperam, aos compromissos adiados durante alguns dias e àquela estranha sensação de que o despertador toca sempre demasiado cedo depois das férias. Regressar à escola também significa voltar aos rostos conhecidos, aos corredores, às salas, aos alunos, às reuniões, aos papéis, às planificações e a todas aquelas pequenas coisas que, quando estamos longe, parecem tão distantes e, quando voltamos, recuperam imediatamente o seu lugar.
A rotina tem má fama. Talvez injustamente.
Durante as férias sonhamos com o descanso e fugimos dela. Mas, depois de alguns dias de liberdade absoluta, descobrimos que a rotina também tem o seu conforto. Há qualquer coisa de tranquilizador em saber para onde vamos, o que temos para fazer e quem encontraremos pelo caminho. O problema é que o regresso torna ainda mais evidente aquilo que deixámos para trás. Os dias sem horários. As conversas demoradas. Os almoços que não precisavam de terminar depressa. As tardes sem outra obrigação que não fosse decidir o que fazer com elas. A possibilidade de acordar sem olhar imediatamente para o relógio. As férias têm esta crueldade: terminam precisamente quando começamos a perceber como eram boas. Mas talvez seja esse o sentido de regressar. Não podemos viver permanentemente de férias. A vida faz-se também de responsabilidades, de horários, de trabalho, de escola e de rotinas. Faz-se das pequenas obrigações que, somadas, acabam por construir aquilo a que chamamos vida normal. E, no entanto, alguma coisa muda depois de uns dias de distância. Voltamos diferentes, ainda que não saibamos exatamente em quê. Talvez mais descansados. Talvez com outra disposição. Talvez apenas com a certeza de que precisamos, de tempos a tempos, de parar para perceber aquilo que temos. Agora é tempo de voltar.
A outra terra fica para trás, mas não desaparece. Fica guardada nas conversas, nas memórias, nos lugares e naquela saudade que começa, curiosamente, quase no mesmo instante em que dizemos adeus. E esta terra espera-nos. Com os seus dias de trabalho, os seus horários, as suas responsabilidades e a sua rotina. A mala já está desfeita.
O despertador está novamente preparado. A escola espera. As férias acabam. A vida recomeça. E talvez seja precisamente isso que torna os regressos tão especiais: percebemos que, apesar de tudo, temos sempre para onde voltar.
Por: Fernando Marta

Edit Template
Notícias Recentes
“Não se trata apenas de escolher um destino e reservar um hotel”, afirma o travel designer Hugo Oliveira
A Igreja em todo o mundo reza pela saúde do Papa
Governo dos Açores anuncia reforço da conservação da floresta com pomar de espécies endémicas
Município de Angra do Heroísmo disponibiliza Agenda Conversacional com inteligência artificial
“Vários estudos científicos mostram que aprender através de jogos pode melhorar a aprendizagem, a motivação e o desenvolvimento dos alunos”, afirma Paulo Santos
Notícia Anterior
Proxima Notícia

Copyright 2026 Correio dos Açores