Nesta segunda parte da entrevista, Ana Pereira e Helder Pereira, fundadores da Sleep HAIbeat, destacam a importância de descentralizar o acesso à saúde e combater as assimetrias no arquipélago através da tecnologia e da inovação. Partindo de a iniciativa “Dormir como um Bebé”, desenvolvida nas Flores e recentemente distinguida pela World Sleep Society com um prémio internacional, os fundadores defendem que a educação em saúde e o diagnóstico especializado devem chegar a todas as ilhas, provando que as boas ideias não têm de viver limitadas pela geografia.
Correio dos Açores – A mensagem de que “a geografia não deve determinar o acesso à saúde” é o grande estandarte deste prémio. Como pretendem expandir esta missão nos Açores?
Helder Pereira (Co-fundador) – Para nós, este prémio é, acima de tudo, uma confirmação de que as ideias e os conceitos em que temos acreditado fazem sentido. Ainda existem limitações importantes no acesso a algumas especialidades de saúde nas ilhas mais pequenas e acreditamos que, com a evolução tecnológica que temos hoje, viver longe de um grande centro não deveria significar necessariamente ter menos acesso a meios de diagnóstico ou acompanhamento especializado.
Nem todos os doentes precisam de se deslocar a um hospital ou a outra ilha para realizar exames que, tecnicamente, podem ser feitos perto de casa. Em muitas áreas, os equipamentos podem deslocar-se até eles, os exames podem ser realizados localmente, os dados podem ser analisados remotamente e os resultados posteriormente integrados e validados por equipas médicas especializadas, mesmo que estas se encontrem noutro território.
É precisamente aí que vemos o futuro: não tentar colocar todas as especialidades em todas as ilhas, mas criar pontes entre estas e os centros especializados, fazendo viajar o conhecimento e a tecnologia sempre que for possível, em vez de fazer viajar sistematicamente o doente.
Nas Flores ouvimos relatos de pessoas que esperaram períodos muito prolongados para realizar um estudo do sono, que só então receberam um diagnóstico de apneia do sono, aguardaram novamente pelo início do tratamento e que, posteriormente, tiveram dificuldade em ter um acompanhamento regular. Estes exemplos mostram-nos que o desafio não termina no diagnóstico. É necessário pensar em todo o percurso do doente: acesso, diagnóstico, tratamento e acompanhamento.
Naturalmente, isto exige investimento, recursos e integração com as estruturas de saúde existentes. Mas exige também visão e um plano pensado especificamente para a realidade dos territórios mais pequenos e vulneráveis. Uma solução desenhada para um grande centro urbano nem sempre pode ser simplesmente transportada para uma ilha com alguns milhares de pessoas.
Gostaríamos, por isso, que a visibilidade proporcionada por este prémio também ajudasse a colocar esta discussão na agenda e a aproximar-nos das entidades de saúde, das instituições, dos investigadores e de outros profissionais que partilhem desta visão. Existem pessoas com experiência internacional que escolheram regressar aos Açores e que têm vontade de contribuir. Seria extraordinário aproveitar esse conhecimento e essa vontade para construir soluções em conjunto.
A nossa ambição é que as Flores possam ser um ponto de partida para demonstrar que modelos descentralizados, apoiados pela tecnologia e pela colaboração entre profissionais, podem melhorar o acesso a determinadas áreas de diagnóstico e acompanhamento nas ilhas mais pequenas.
Porque, no final, o princípio é muito simples: a geografia pode determinar onde vivemos, mas não deve determinar a saúde a que temos acesso.
Quais foram as actividades específicas desenvolvidas que mais pontuaram nos critérios da World Sleep Society (como o impacto, a inovação e a sustentabilidade)?
Ana Pereira (Co-fundadora) – A actividade que esteve no centro desta candidatura foi a iniciativa “Dormir como um Bebé”, que desenvolvemos com o objectivo de abordar o sono desde os primeiros anos de vida. Falámos sobre sono na primeira infância, sono pediátrico, hábitos de sono saudáveis e seguros e também sobre sinais de alerta aos quais pais e cuidadores devem estar atentos.
Desde o início quisemos que não fosse uma iniciativa dirigida apenas a pais e mães. Procurámos envolver também cuidadores e profissionais ligados às áreas escolar e pré-escolar, porque percebemos que a saúde do sono de uma criança não depende apenas daquilo que acontece durante a noite: depende de todo o ecossistema de pessoas que participa no seu desenvolvimento.
Uma das principais aprendizagens desta actividade foi perceber que ainda existe uma necessidade significativa de informação sobre práticas de sono saudáveis e seguras. Muitas vezes não se trata de falta de preocupação ou cuidado, mas simplesmente de informação que nunca chegou às famílias ou aos profissionais de uma forma clara e acessível. E é precisamente aí que a educação em saúde pode ter um impacto enorme.
A inovação, para nós, não esteve em tornar a iniciativa tecnologicamente complexa. Esteve precisamente no contrário: pegar em conhecimento científico especializado e transformá-lo em informação simples, prática e útil para uma comunidade que, pela sua localização geográfica, tem menos oportunidades de contacto regular com determinadas áreas de especialidade.
E existe também uma componente importante de sustentabilidade. Quando damos conhecimento a um pai, a uma mãe, a um cuidador ou a um profissional de educação, esse conhecimento não termina quando acaba a sessão. É levado para casa, para a escola, para outras famílias e pode influenciar comportamentos durante muitos anos. É esse efeito multiplicador que queremos continuar a desenvolver.
Acreditamos que prevenir também significa educar. Quanto mais cedo conseguirmos promover hábitos de sono saudáveis e ajudar as famílias a reconhecer sinais de alerta, maior poderá ser o impacto na saúde futura das nossas crianças.
Talvez seja essa uma das mensagens mais bonitas deste reconhecimento: uma iniciativa não precisa de nascer num grande centro para poder ter impacto. Pode começar numa pequena ilha no meio do Atlântico e, ainda assim, abordar um problema que é verdadeiramente universal.
Como avaliam a importância de ter contado com o apoio local para o vosso sucesso?
Ana Pereira e Helder Pereira (Fundadores) – Agradecemos profundamente todo o apoio que temos recebido desde o início, em particular da Câmara Municipal de Santa Cruz das Flores e da Incubadora das Flores. A Câmara teve um papel muito relevante ao acreditar no potencial do projecto e ao reconhecer que a inovação, a ciência e a tecnologia também podem nascer e desenvolver-se a partir de territórios ultraperiféricos, mesmo numa área como a saúde, onde a capacidade de intervenção directa de uma autarquia é naturalmente mais limitada.
Esse apoio é particularmente importante quando se decide criar algo novo numa ilha pequena. As ideias podem nascer de duas pessoas, mas, para crescerem, precisam de uma comunidade, de instituições disponíveis para ouvir e, sobretudo, de pessoas que estejam dispostas a acreditar nelas e a ajudar a transformá-las em realidade.
Nesse sentido, gostaríamos de deixar um reconhecimento muito especial à Fabiana Costa, Técnica Superior de Gestão, que teve um papel importante na concretização da iniciativa “Dormir como um Bebé”. A Fabiana ajudou-nos na gestão e organização do evento e na mobilização dos recursos necessários para que a iniciativa pudesse acontecer. Muitas vezes vemos apenas aquilo que acontece no dia, mas existe todo um trabalho de preparação e coordenação nos bastidores que é essencial. Ter pessoas localmente que não se limitam a ouvir uma ideia, mas que ajudam a encontrar a forma de a tornar possível, faz toda a diferença.
Da mesma forma, a divulgação inicial no ‘Correio dos Açores’ foi muito importante para nós. Quando estamos a começar, ter alguém que nos dá voz, conta a nossa história e ajuda a explicar aquilo que pretendemos fazer é uma forma de abrir portas, criar credibilidade e aproximar o projecto das pessoas.
Queremos também deixar um agradecimento muito especial a todos os que estiveram presentes na iniciativa e a todas as pessoas que contribuíram para a sua organização e divulgação. A participação da comunidade deu sentido ao evento e mostrou-nos que existe interesse e espaço para continuar a trabalhar a literacia e a saúde do sono nas Flores.
Por isso, sentimos que este reconhecimento internacional não é exclusivamente nosso. Pertence também um pouco à comunidade que nos acolheu e às pessoas e instituições que acreditaram desde o início. É muito especial pensar que uma iniciativa organizada nas Flores, com o contributo de pessoas das Flores, conseguiu chegar à World Sleep Society e receber reconhecimento a nível mundial.
Esperamos agora que o prémio ajude a fazer o percurso inverso: se inicialmente foram as Flores e as suas pessoas que ajudaram a dar força, gostaríamos que esta visibilidade internacional pudesse agora ajudar a trazer novas oportunidades, conhecimento, parcerias e acções de volta às Flores e aos Açores.
Já estão a pensar na apresentação oficial e na recepção do prémio no congresso da World Sleep Society em Montreal, em 2027? Que mensagem pretendem levar a palco em representação dos Açores?
AP – Fico nervosa só de pensar na possibilidade de ter de discursar! Mas, sinceramente, sendo uma cerimónia de grandes dimensões e com tempo certamente muito limitado, nem sabemos se teremos essa oportunidade.
Há, no entanto, uma coisa que já pensei levar comigo: a bandeira dos Açores ou um símbolo da nossa ilha e da nossa freguesia. Gostava que, de alguma forma, aquelas nove ilhas estivessem representadas connosco naquele momento. Esta ideia nasceu nos Açores e muito daquilo em que acreditamos resulta precisamente da experiência de viver num arquipélago, onde a geografia ainda pode condicionar o acesso a determinados cuidados de saúde.
Nunca tive também a oportunidade de participar num congresso da World Sleep Society. Por isso, poder estar presente pela primeira vez e, simultaneamente, receber este reconhecimento pelo trabalho que começámos a desenvolver numa pequena ilha dos Açores terá para mim um significado muito especial. Será, sem dúvida, mais um sonho concretizado na minha carreira.
Mas, se nos derem alguns segundos naquele palco, gostava que a mensagem fosse maior do que nós e maior do que a Sleep HAIbeat. Gostava de dizer que somos dos Açores, um arquipélago de nove ilhas no meio do Atlântico, e que viver numa ilha pequena não deveria significar ter menos acesso à saúde, ao conhecimento ou à inovação.
Gostava também que aquele momento mostrasse algo em que acreditamos profundamente: não é necessário estar num grande centro para tentar fazer a diferença. A inovação também pode nascer na periferia, numa pequena comunidade, e chegar ao mundo.
Se conseguirmos levar um bocadinho dos Açores até Montreal e fazer com que alguém naquele congresso fique curioso sobre as nossas ilhas, sobre os desafios que enfrentamos e sobre aquilo que podemos construir aqui, então este prémio já terá criado uma nova oportunidade.
E talvez seja essa a mensagem que mais gostaria de levar daquele pequeno arquipélago para aquele grande palco: somos nove ilhas no meio do Atlântico, mas as boas ideias não têm de viver limitadas pela geografia.
Quais são os próximos passos a curto e médio prazo?
AP – A curto prazo, queremos continuar a consolidar aquilo que já começámos nas Flores, sobretudo na área da literacia em saúde e da saúde do sono, e transformar algumas das ideias que temos vindo a desenvolver em ideias cada vez mais concretas e úteis para a comunidade.
A médio prazo, a nossa ambição é maior. Queremos explorar modelos que permitam aproximar meios de diagnóstico e conhecimento especializado das ilhas mais pequenas, utilizando tecnologia, monitorização remota e colaboração entre profissionais e instituições dentro e fora dos Açores. Não queremos crescer simplesmente por crescer, queremos perceber onde existem verdadeiras necessidades e onde a nossa experiência pode acrescentar valor.
E aqui tenho de dar algum crédito ao Helder. Eu sou especialista em sono e neurofisiologia e ele passou grande parte da carreira dedicado ao coração, mas, ironicamente, o cérebro por detrás de muitas destas ideias é dele. É normalmente ele que aparece com o “e se fizéssemos isto?”, que vê uma oportunidade onde eu ainda estou a ver todas as razões pelas quais vai ser difícil e que depois começa imediatamente a tentar perceber como a podemos tornar possível.
Temos percursos profissionais diferentes, mas muito complementares. Eu trago uma experiência muito especializada na área do sono e da neurofisiologia, o Helder traz uma longa experiência na área cardiovascular, investigação, tecnologia e desenvolvimento de serviços de saúde. Mas talvez uma das suas maiores qualidades seja precisamente a capacidade de juntar mundos diferentes, criar relações e transformar uma ideia num projecto.
Naturalmente, temos os pés bem assentes na terra. Sabemos que trabalhar em saúde exige responsabilidade, evidência, recursos, parceiros e integração com as estruturas existentes. Não queremos substituir aquilo que existe, mas perceber onde podemos complementar, colaborar e ajudar a construir soluções.
O Sleep Equity Award dá-nos agora algo muito importante: visibilidade e uma oportunidade de alargar essa conversa. Queremos utilizá-la para criar novas pontes com investigadores, profissionais, instituições e entidades que partilhem desta visão, dentro e fora dos Açores.
Porque talvez o próximo passo da Sleep HAIbeat não seja simplesmente fazer mais coisas. É encontrar as pessoas certas para juntos, conseguirmos fazer coisas que a partir de uma pequena ilha pareciam impossíveis.
Diogo Simões Pires
