Na aviação, os diferentes modelos de aeronave ditam um tipo de voo distinto. Uma viagem que para um comum passageiro leva cerca de duas horas, demorou mais de sete. Jiří Pruša, da República Checa, já voou em 5 continentes e conquistou vários recordes, mas promete não ficar por aqui. Ao Correio dos Açores, o piloto admitiu que a aviação lhe ensinou virtudes que leva para o seu dia-a-dia.
Jiří Pruša é um piloto experiente da República Checa, habituado a passar longas horas dentro de um avião.
O piloto de 73 anos completou recentemente um dos voos directos mais longos alguma vez realizados num avião ultraleve.
Jiří Pruša partiu de Benavente, no continente, e chegou ao Aeroporto da Horta, na ilha do Faial, mais de 7 horas e 30 minutos depois, percorrendo mais de 1.400 quilómetros.
A aeronave utilizada por Jiří Pruša é o ultraleve Shark 600, desenvolvido pela Shark Aero e que é conhecido como “Know no limits”. O monomotor destaca-se pela sua aerodinâmica e pela eficiência de combustível.
O piloto esteve à conversa com o Correio dos Açores, onde explicou como aguenta mais de sete horas dentro do avião.
“Como eu adoro voar, eu apenas aproveito. Olho para o mar, olho para o clima, mas sempre a verificar a meteorologia. Tenho internet de satélite no avião, então vou vendo as mudanças no estado do tempo e tento perceber o que está a acontecer. Num voo tão longo, o clima é o principal problema, porque tu sabes que tens combustível suficiente, mas o clima está sempre a mudar.
O piloto Checo referiu ainda que no voo em direcção à horta apanhou “muito vento frontal que me fez voar mais uma hora do que o previsto”.
No dia seguinte à travessia, Jiří Pruša saiu da Horta com o seu Shark 600 com destino à ilha Graciosa. No trajecto, o piloto passou pela ilha de São Jorge, onde fez um “Touch and Go” (aproximação à pista sem uma paragem total) e seguiu para as Flores, onde sobrevoou a Vila de Santa Cruz. Passou ainda pela ilha do Corvo antes de se direccionar novamente ao Grupo Central.
À chegada à ilha Graciosa, o piloto foi recebido por Lara Sousa, Vereadora da Câmara Municipal de Santa Cruz da Graciosa, que lhe ofereceu uma pequena lembrança.
Segundo um comunicado publicado pelo Município de Santa Cruz da Graciosa, este é “um momento que merece registo público, pela singularidade do voo e pelo contributo que traz para a afirmação da Graciosa”.
“A Câmara Municipal sublinha que acolher protagonistas e projectos desta natureza reforça a visibilidade da ilha, dignifica o trabalho desenvolvido localmente e evidencia a capacidade da Graciosa em integrar rotas e desafios de alcance internacional”, pode ler-se.
Ainda no comunicado, a Autarquia admite que “a presença de Jiří Pruša representa não apenas um marco pessoal e tecnológico, mas também uma oportunidade de valorização externa da Graciosa, aproximando a ilha de redes e comunidades ligadas à aviação, ao turismo e às viagens de exploração”.
Jiří admitiu que, em todas as ilhas por onde passou, sentiu uma amizade e simpatia diferente dos outros locais por onde passou.
“É a minha primeira vez cá nos Açores. Estou a gostar muito porque consigo ver que há uma mentalidade muito diferente do que a de Portugal Continental e mesmo da Europa, mais amigável. As pessoas que conheci cá foram muito simpáticas e ajudaram-me, por exemplo, a abastecer o avião. Tanto aqui em Ponta Delgada, como na Horta e na Graciosa, ajudaram-me sempre”.
Apesar da excelente recessão, o entusiasta por aviação refere que os Açores não são atractivos para este tipo de voo devido aos problemas de comunicação e ao uso de um fato insuflável obrigatório neste tipo de travessias.
“Há problemas com a comunicação. Precisas de ter um receptor de ondas curtas, mas nós não temos isso em aviões pequenos. Eu tenho um satélite, mas é um equipamento bastante caro. Além disso, tens que voar com uma roupa insuflável durante as 7 horas e, então, não há muita gente que queira fazer isso. Eu estou habituado a vesti-lo porque eu voo muito no Hemisfério Norte, perto do Polo Norte, Gronelândia ou Alasca, então tenho mesmo que o vestir, porque se cairmos no oceano, como a água está a 0 graus, morres em 3 minuto. É uma coisa mesmo necessária.
O piloto Checo já aterrou em mais de 2000 aeródromos por todo o mundo e é detentor de vários recordes que envolvem o mundo da aviação. Apesar disso, garante que a motivação para estes voos nasce naturalmente. a minha mente diz-me para o fazer”.
“A minha mente diz-me para o fazer. Por exemplo, decidi voar para os Açores enquanto estava a voltar do Polo Norte. Ainda estava no ar e estava a pensar ‘E agora, o que vou fazer a seguir?’”, referiu.
Jiří foi o primeiro piloto a alcançar os 90º Norte a bordo de um ultraleve de 600kg, completando o feito em Julho do presente ano. Dois anos antes, percorreu 3.189km sem escalas entre a Noruega e a Croácia, num voo contínuo de 13h24 num avião ultraleve.
O piloto bateu outro recorde em Agosto de 2023, onde juntamente com Eliška Kudějovà, percorreu 1912,2km no Shark 600 e estabeleceu o recorde mundial na categoria de ultraleves, partindo da República Chega e passando por Alemanha, Polónia e Eslovénia.
Depois de percorrer grande parte do grupo Central e Ocidental, Jiří Pruša saiu da Graciosa, sobrevoou o Aeroporto das Lajes, na Terceira e seguiu para Ponta Delgada, onde chegou ao início da tarde de segunda-feira.
Em relação aos ensinamentos que retirou da aviação, o piloto admite que ficou mais paciente e organizado depois de começar a fazer este tipo de voos.
“A aviação ensinou-me a ser mais paciente. Às vezes, quando o tempo está mau, temos que ficar em terra. Antes tinha aquela pressa e vontade de voar. Além disso, ensinou-me a ser mais preciso e cuidadoso. Eu voava apenas em planadores, era muito desorganizado e não sabia onde estavam as coisas. Hoje sou muito mais organizado”.
Sobre os próximos desafios, Jiří Pruša admitiu que a América do Sul é o próximo destino pretendido, mas que não conseguirá chegar até lá com o seu avião, num trajecto que “demoraria cerca de 3 meses”.
“Estamos a pensar em enviar o avião de barco e depois voar lá. Eu já percorri a maior parte do mundo, incluindo Austrália, Nova Zelândia… tudo”, admite o experiente piloto.
Vasco Blayer
