Hoje assinala-se o Dia Mundial da Saúde Sexual, uma data que foi criada para lembrar que a saúde sexual vai muito além da ausência de doenças: é um pilar fundamental do bem-estar físico, emocional e social. Ao ‘Correio dos Açores’, Natália Bautista, terapeuta sexual na PsiClinicAcores, fala sobre a importância deste dia, quais os mitos que ainda existem associados à sexualidade, que importância têm os limites e diz: “a vergonha está, em grande medida, relacionada com o facto de a sexualidade continuar a ser tratada como um tabu.”
Correio dos Açores – O que significa, na prática, falar de saúde sexual?
Falar de saúde sexual significa muito mais do que falar da ausência de doenças ou dificuldades sexuais. Envolve poder viver a sexualidade com liberdade, segurança, consentimento, prazer, respeito e autonomia, sem violência, coerção ou discriminação.
Porque é importante existir um Dia Mundial da Saúde Sexual?
É importante porque a sexualidade continua a ser rodeada de tabus, vergonha, desinformação e desigualdades. Ter um dia dedicado a este tema ajuda a criar espaço para falar de saúde sexual de forma informada, aberta e sem julgamentos.
Permite também chamar a atenção para questões fundamentais como os direitos sexuais e reprodutivos, o consentimento, a violência sexual, a educação sexual, o acesso aos cuidados de saúde, a igualdade de género e o respeito pela diversidade sexual. Não deve ser apenas um dia de sensibilização, mas uma oportunidade para questionarmos aquilo que socialmente aprendemos sobre a sexualidade e para reflectirmos sobre aquilo que ainda precisamos de mudar.
E o facto de ser um Dia Mundial é particularmente importante porque nos permite olhar para além da nossa própria realidade. Os direitos sexuais e reprodutivos não estão igualmente garantidos em todos os países. Há direitos que hoje consideramos fundamentais e que foram conquistados através de décadas de luta e transformação social, mas que continuam a não ser reconhecidos, respeitados ou acessíveis a muitas pessoas noutras partes do mundo.
Por isso, este dia também nos deve lembrar que os direitos não são iguais para todas as pessoas e que ainda existem enormes desigualdades no acesso à informação, à educação, à saúde, à liberdade e à possibilidade de viver a sexualidade de forma segura, autónoma e livre de violência. Celebrar a saúde sexual é, também, reconhecer os direitos que conquistámos, defender os que estão ameaçados e continuar a trabalhar para que esses direitos sejam universais.
Que relação existe entre saúde sexual e saúde mental?
A saúde sexual faz parte do bem-estar e da saúde mental como a OMS nos alerta na sua definição de sexualidade. Uma vida sexual satisfatória, segura e vivida de forma livre e consentida pode contribuir positivamente para o bem-estar psicológico e físico, promovendo sentimentos de prazer, autoestima, confiança, intimidade e conexão com o outro.
Uma sexualidade saudável pode também proporcionar momentos de relaxamento, satisfação e expressão emocional, ajudando a pessoa a sentir-se mais confortável com o seu corpo e com os seus desejos. Quando existe liberdade para comunicar necessidades, estabelecer limites e viver a sexualidade sem culpa ou pressão, isso pode fortalecer a autonomia e a autoestima.
Por outro lado, a saúde mental também influencia a forma como vivemos a nossa sexualidade. Stress, ansiedade, tristeza ou baixa autoestima podem afectar o desejo e a satisfação sexual. Por isso, cuidar da saúde sexual pode ser também uma forma de cuidar da saúde mental, tal como cuidar do bem-estar psicológico pode favorecer uma experiência sexual mais positiva.
Assim, falar de saúde sexual não é apenas falar da ausência de dificuldades, mas também da possibilidade de viver uma sexualidade positiva, segura e satisfatória, que contribua para uma vida com maior bem-estar.
Quais são os principais mitos sobre sexualidade que ainda afectam as pessoas?
Existem muitos. Por exemplo: que os homens têm sempre mais desejo sexual do que as mulheres; que uma mulher que demonstra muito desejo é “fácil”, enquanto um homem que o demonstra é “viril”; que o homem deve tomar sempre a iniciativa; que as mulheres têm menos interesse em sexo; que existe uma frequência “normal” de relações sexuais; que sexo sem penetração não é sexo “a sério”; que o orgasmo deve acontecer sempre através da penetração; que o consentimento é algo que se obtém apenas uma vez; que o corpo deve corresponder a determinados padrões para ser desejável; que numa relação amorosa existe uma obrigação de ter relações sexuais; e que existe uma orientação e identidade de género normativa e o resto são minorias.
Estes mitos criam expectativas irrealistas e podem produzir culpa, vergonha e pressão, sobretudo quando as pessoas sentem que não correspondem ao papel social que lhes foi atribuído.
Por isso, é importante “arejar as nossas crenças aprendidas” sobre a sexualidade: parar, questionar e perceber de onde vêm as ideias que fomos aprendendo sobre o que devemos desejar, sentir, ser ou fazer. Muitas dessas crenças não são verdades universais, mas sim normas sociais construidas e que fomos interiorizando.
Quando conseguimos questioná-las, abrimos espaço para viver a nossa sexualidade com mais liberdade, autonomia e autenticidade. Podemos descobrir que não existe uma única forma “certa” de viver o desejo, o prazer, o corpo ou as relações. Arejar estas crenças é, no fundo, dar-nos permissão para escolher como queremos viver a nossa sexualidade; com menos culpa e pressão e com mais liberdade, prazer e bem-estar.
Problemas na vida sexual podem também afectar a autoestima e o bem-estar psicológico?
Sim. A sexualidade está ligada à forma como nos percebemos enquanto pessoas; o nosso corpo, o nosso valor e a nossa capacidade de estabelecer relações.
Por exemplo, uma pessoa que vive uma dificuldade sexual pode começar a pensar que “há alguma coisa errada comigo” ou que “não sou suficientemente desejável”. Isto pode afectar significativamente a autoestima.
Contudo, é importante não transformar todas as dificuldades sexuais numa falha individual. Nem tudo aquilo que parece ser um “problema sexual” é um problema da pessoa. Pode estar relacionado com stress, desigualdade na relação, falta de comunicação, violência, expectativas sociais ou ausência de espaço para o prazer.
Em que situações é aconselhável procurar ajuda de um terapeuta sexual ou sexólogo/a relativamente à sexualidade?
Quando existe sofrimento, preocupação ou impacto significativo na qualidade de vida ou na relação é importante pedir ajuda. Pode ser, por exemplo, perante dificuldades persistentes de desejo, excitação, orgasmo ou dor; ansiedade relacionada com a sexualidade; insegurança corporal; dificuldades de comunicação; diferenças de desejo no casal ou dúvidas relacionadas com identidade e orientação sexual.
A terapia sexual não deve ter como objetivo tornar a pessoa “mais sexual” ou fazê-la adaptar-se a uma determinada norma. O objectivo é ajudá-la a compreender o que está a acontecer e a construir uma relação com a sexualidade que seja mais livre, segura e coerente com os seus próprios desejos e limites.
Qual é a importância da comunicação entre parceiros para uma vida sexual saudável?
Para ter uma vida sexual satisfatória em relação com outras pessoas, é fundamental conseguir falar sobre desejos, limites, consentimento, prazer, desconfortos, fantasias e necessidades.
É particularmente importante questionar a ideia de que a outra pessoa “deveria saber” aquilo de que gostamos. No caso dos casais heterosexuais surgem muitas dificuldades porque muitas mulheres foram socializadas para agradar, cuidar e não dizer “não”, enquanto muitos homens foram ensinados a ter de tomar a iniciativa e a não demonstrar vulnerabilidade.
Uma boa comunicação permite substituir estas expectativas por uma relação mais igualitária, onde ambas as pessoas podem desejar, recusar, negociar e mudar de ideias.
Como podemos aprender a estabelecer e respeitar limites?
Começa por reconhecer que ter limites é um direito e não uma rejeição da outra pessoa e que os limites são uma forma de respeito próprio e vitais numa relação saudável, seja esta do tipo que seja; sexual, familiar, laboral…
Aprender a identificar aquilo que queremos e aquilo que não queremos e comunicar isso de forma clara, assim como respeitar quando a outra pessoa estabelece um limite é uma das bases das relações saudáveis. Frases simples como “não quero”, “prefiro isto”, “preciso de parar” ou “quero continuar” são formas legítimas e necessárias de comunicação das quais não devemos ter medo nem sentimentos de culpa pelas exprimir. Se estamos numa relação saudável a outra pessoa aceitará os meus limites com respeito e sem cobranças.
Ainda existe vergonha ou tabu em torno da sexualidade? Se sim, porquê?
Embora exista atualmente uma maior abertura em Portugal para falar sobre sexualidade, continuam a existir muitos tabus e alguma vergonha em torno deste tema.
A falta de uma aposta política consistente na educação sexual contribui para perpetuar estes tabus. Continuamos, muitas vezes, a não encarar a sexualidade como uma dimensão natural e integrante do ser humano, que deve ser compreendida para além da reprodução. Quando não existe espaço para uma educação sexual adequada, baseada no conhecimento, no respeito e no consentimento, deixamos que a pornografia assuma, muitas vezes, um papel de educador — não apenas junto de crianças e jovens, mas também de adultos. E isso pode transmitir expectativas e modelos pouco realistas sobre o corpo, o prazer, as relações e a forma como nos relacionamos uns com os outros.
As consequências fazem-se sentir a nível individual e também enquanto sociedade, contribuindo para uma maior insatisfação sexual, para a reprodução de relações de poder e de comportamentos violentos e para situações como gravidezes não planeadas.
A vergonha está, em grande medida, relacionada com o facto de a sexualidade continuar a ser tratada como um tabu. Se falássemos dela de forma mais natural, informada e aberta — incluindo as suas dimensões afetiva, relacional e de prazer, e não apenas a reprodutiva — seria possível reduzir muitos desses sentimentos de vergonha e promover uma vivência mais saudável da sexualidade.
Por isso, falar de sexualidade de forma aberta não significa expor a nossa intimidade. Significa criar condições para que possamos falar sobre este tema sem julgamento, com conhecimento e respeito, contribuindo para uma melhor saúde sexual, mental e física.
Como podemos falar de sexualidade de forma mais aberta sem ultrapassar os limites da privacidade?
Podemos falar de sexualidade de forma aberta sem exigir que ninguém revele experiências pessoais, e procurando fazê-lo com base científica e não a partir dos nossos valores ou preconceitos individuais.
É possível abordar temas como o prazer, o consentimento, a contraceção, o desejo ou as relações de poder de uma forma educativa e geral, respeitando sempre os limites de cada pessoa e perguntando, quando necessário, se se sente confortável em continuar determinada conversa. Falar de sexualidade não implica invadir a intimidade de ninguém.
Uma distinção importante é precisamente essa: intimidade não é o mesmo que educação. Não precisamos de conhecer os detalhes da vida sexual de uma pessoa para podermos falar sobre saúde sexual. Da mesma forma, é essencial respeitar a autonomia de cada um: ninguém deve ser pressionado a contar, explicar ou justificar a sua vida sexual.
Mas proteger a privacidade não pode significar silenciar a sexualidade. Quando nos refugiamos constantemente na ideia de que “é íntimo” e, por isso, não se fala sobre o assunto, contribuímos para manter tabus e para perpetuar a falta de educação sexual. A ideia de que “faz-se, mas não se fala” nunca foi uma boa política de saúde sexual.
A educação sexual é um dos pilares da nossa formação enquanto pessoas. Precisamos de espaços onde possamos adquirir conhecimento, questionar ideias preconcebidas e falar sobre sexualidade de forma natural, informada e sem julgamentos.
É, por isso, importantíssimo existirem dias e espaços como este, que nos permitem parar para refletir sobre a sexualidade humana, compreendê-la melhor e criar uma sociedade onde seja possível falar sobre ela com maior liberdade, responsabilidade e respeito pela privacidade de cada pessoa.
Como abordar diferenças de desejo sexual dentro de um casal?
Em primeiro lugar, evitando transformar a diferença numa competição entre quem está “certo” e quem está “errado”.
É muito comum existirem momentos diferentes de desejo numa relação. O importante é compreender o que está por detrás dessa diferença: stress, cansaço, medicação, problemas relacionais, alterações hormonais, experiências negativas, falta de privacidade, pressão, distribuição desigual das tarefas domésticas ou simplesmente diferentes formas de viver o desejo.
Numa perspectiva de género, é especialmente importante observar se existe uma divisão desigual do trabalho emocional e doméstico. É difícil falar de desejo num contexto em que uma pessoa carrega quase todo o trabalho de cuidar da casa, dos filhos e da relação.
A solução não deve ser pressionar quem tem menos desejo a ter relações sexuais. Deve passar por diálogo, negociação, consentimento e procura de formas de intimidade que sejam satisfatórias para ambas as pessoas.
O que gostaria que as pessoas soubessem sobre saúde sexual, mas que ainda é pouco discutido?
Gostaria que se falasse mais sobre o facto de que sexualidade não é uma prova de desempenho.
Não existe uma quantidade “certa” de sexo, um corpo “certo”, uma idade “certa” para desejar, nem uma forma universal de sentir prazer. O desejo também muda ao longo da vida e é profundamente influenciado pelo contexto.
Gostaria ainda que se falasse mais sobre prazer feminino, consentimento, dor sexual, peri- e menopausa, sexualidade depois da maternidade, envelhecimento, diversidade corporal e sexualidades diversas.
E, sobretudo, que deixássemos de perguntar apenas “qual é o problema sexual desta pessoa?” e começássemos também a perguntar: “Que contexto, expectativas e relações estão a influenciar a forma como esta pessoa vive a sua sexualidade?”. No fundo responsabilizar-nos enquanto sociedade de muitas das disfunções sexuais que aparecem por contexto, não sendo problemáticas individuais.
Para mim no meu trabalho na terapia sexual é central passar de uma visão da sexualidade centrada no desempenho para uma visão centrada no prazer, autonomia, consentimento, igualdade e bem-estar.
Frederico Figueiredo
