O Hospital do Divino Espírito Santo (HDES) acolheu ontem a sessão de abertura do Módulo II das Sessões Formativas do Programa Regional para o Acompanhamento e Melhoria da Mortalidade Infantil (PRAMMI), sob o tema “Do Recém-Nascido ao Adolescente: Intervir para Melhorar”.
Esta iniciativa, que está integrada no Plano Regional de Saúde 2030, reuniu profissionais das Unidades Hospitalares e Unidades de Saúde de Ilha de todo o arquipélago com o objectivo de promover a reflexão e reforçar as estratégias de prevenção da mortalidade infantil e juvenil e a melhoria dos cuidados prestados na Região Autónoma dos Açores.
Joana Rosa, Pediatra no Hospital Divino Espírito Santo e actualmente gestora do Programa de Acompanhamento e Melhoria da Mortalidade Infantil ao abrigo do Plano Regional de Saúde 2030 questionada se os dados que foram apresentados são preocupantes, começou por deixar um alerta. “Nós temos de ter muito cuidado quando falamos das taxas de mortalidade, principalmente em regiões tão pequenas. Os valores de óbitos que nós possamos ter podem apresentar variações pequenas que vão levar a que hajam oscilações significativas na taxa de mortalidade. Relativamente, e falando por cada tipo de mortalidade, quando nós falamos na taxa de mortalidade infantil, e eu comentei isso em 2023, nós éramos a terceira região, com um valor mais elevado. Este valor foi diminuindo, felizmente, mas, em 2024 tivemos aumento que foi comum a várias zonas quer do país, quer da Europa”.
Mas em 2025, prosseguiu a Pediatra, “nós tivemos uma descida. E, neste momento, já não estamos no terceiro lugar em termos de taxa de mortalidade, o que é um aspecto bastante positivo. Estamos no quinto, ou seja, é bastante positivo relativamente às outras áreas de Portugal continental”.
“Quando nós falamos na mortalidade perinatal, e sabemos que esta mortalidade é uma mortalidade que tem sempre valores mais elevados, e que é muito derivado dos óbitos fetais e também à parte da prematuridade extrema. E o nós reparamos foi que nós tivemos um valor muito elevado em 2024 e isto foi associado ao que eu já referi, à parte das alterações perinatais e à prematuridade extrema, mas também a todas as alterações que nós tivemos de sofrer a níveis estruturais na nossa unidade e que puderam também levar a alterações neste valor”, disse
Segundo Joana Rosa, “o que nós observamos foi que este valor desceu em 2025 para a ordem dos 3,5 por nados vivos; um valor inferior à média de Portugal continental. Ou seja, é um valor que é muito bom. Relativamente à parte da taxa mortalidade neonatal, e nós continuamos a ter um valor mais elevado a nível de Portugal. No entanto nós não podemos esquecer que nós somos uma Região Autónoma com nove ilhas, com uma dispersão geográfica, com uma insularidade e que às vezes basta termos mais dois ou três prematuros para haver esta alteração nesta taxa de mortalidade. E por isso acho que, neste momento, não é motivo de preocupação. É um motivo de nós estarmos atentos, de vermos qual é a nossa tendência e de mantermos esta tendência que vimos em 2025, que é uma tendência de crescente e de melhoria dos resultados em relação a 2024.
As oscilações e o que se pode
melhorar no futuro
Não se conseguindo saber com exactidão o que vai acontecer no futuro, pode-se tentar prever o que irá acontecer nos Açores. Segundo a Pediatra, prevêem-se algumas oscilações que também irão ocorrer um pouco por toda a Europa.
“No futuro podemos ter sempre algumas oscilações nos valores e isto também acontece a nível europeu e nos outros sítios. Ou seja, nós evidentemente cada vez mais nós vamos ter maior número de prematuridade. Porquê? Temos melhores cuidados de saúde, temos uma melhoria das técnicas associadas o que permite extremos prematuros poderem sobreviver. Para além disso, vamos ter também maior número de malformações congénitas que antes eram impossíveis e não tinham viabilidade e que agora conseguem ter viabilidade. E com isso nós podemos, evidentemente, ter um maior número de óbitos. Mas isso não significa que vai haver um aumento da taxa de mortalidade. Pode haver, sim, oscilações”.
Joana Rosa abordou, de seguida, os número da pediatria. “Relativamente à pediatra o que vamos ter é cada vez mais um maior número de doentes crónicos que antes não tínhamos na pediatria e que agora, felizmente graças à parte tecnológica à medicação que nós temos, nós conseguimos ter maiores taxas de sobrevida e como tal, evidentemente, nós vamos ter um maior número de crónicos e como tal uma maior taxa de mortalidade em idade pediátrica em idades mais avançadas. Mas isso não significa que vamos ter um aumento da taxa de mortalidade. O que nós vamos ter é oscilações anuais. E o que eu espero, como gestora de programa e também como pediatra da região, é que estas oscilações sejam decrescentes e com valores que nós queiramos e próximos da média nacional”
De acordo com a Pediatra, a solução para isso acontecer passa por uma interoperacionalidade entre instituições. “Para isso, primeiro de tudo, trabalho em equipa primeiro de tudo. Ou seja, nós somos um grupo de trabalho que pertencente ao Plano Regional de Saúde, mas nós sozinhos não podemos actuar. Têm de ser todos os profissionais de saúde associados à parte dos Cuidados de Saúde, de materno ou infantis. E nós devemos tentar achar quais os determinantes da mortalidade e tentar actuar. Nós sabemos que há dois que nós não vamos conseguir actuar em grande escala, que é a dispersão geográfica e a insularidade.
Contudo, há atenuantes onde é possível intervir. “Nós podemos conseguir melhorar alguma coisa em relação ao acesso dos Cuidados de Saúde e à equidade entre as diversas ilhas, mas há coisas que nós não vamos conseguir melhorar. Agora há outras que são fatores que podem ser preveníveis, que nós podemos actuar. Podemos actuar nos fatores associados, por exemplo, à parte da mortalidade fetal em que nós temos muitos hábitos tabágicos associados. Também podemos actuar na parte neonatal a nível dos hábitos, das vigilâncias, da detecção rapida e precocemente das intercorrências durante a gravidez e depois também outras determinadas acções, nomeadamente como já referi, através da implementação de protocolos. Protocolos que já temos de morte fetal para conseguirmos determinar com uma maior acurácia as causas de mortalidade fetal. Temos protocolos entre as instituições de forma a todos possamos falar a mesma língua e haver interoperacionalidade de sistemas para que nós possamos ter acesso a toda a informação de forma igual. E para além disso, temos de fazer o que estamos a fazer hoje: acções de formação para os profissionais de saúde e também para a comunidade. Porque é importante todos estarmos a falar a mesma língua.
A importância de todos
comunicarem da mesma forma
Segundo Joana Rosa essa interoperacionalidade é algo que faz falta ao serviço regional e que não foi colmada com o PRR. “Faz imensa falta ao nosso Serviço Regional e ao nosso Serviço Nacional, que isto não é só um problema da nossa Região. E faz falta porque se nós tivermos conhecimento de uma forma uniforme de tudo o que se passa, não só nos cuidados de saúde materno e infantis, nós vamos conseguir prestar os melhores cuidados e não vai falhar nada que possamos ter detectado atempadamente. E isso é importante. É importante nós comunicarmos e termos acesso à informação da mesma forma.
Frederico Figueiredo
