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As três mulheres que conquistaram a prestigiada Medalha Fields

É frequente usarmos expressões que relacCaros leitores, terminadas as férias, retomamos as rotinas. Para este recomeço, ou rentrée como é habitual ouvir nesta altura do ano, escolhi falar-vos de três mulheres que fizeram história na matemática ao receberem a Medalha Fields, considerada o equivalente a um “prémio Nobel.”
Na verdade, quando Alfred Nobel (1833–1896) instituiu os famosos prémios, que hoje levam o seu nome, não incluiu a matemática nas áreas distinguidas, vá-se lá saber por quê. A primeira cerimónia realizou-se em 1901.
A Medalha Fields apenas surgiu em 1936 e é atribuída de quatro em quatro anos a matemáticos com menos de 40 anos por contributos excecionais. Até ao momento foram distinguidas 68 pessoas. Só em 2014 uma mulher subiu pela primeira vez ao palco para receber esta distinção: Maryam Mirzakhani. Oito anos depois, seria a vez de Maryna Viazovska e, em 2026, Hong Wang tornou-se a terceira mulher a conquistar a Medalha Fields. Vamos conhecê-las.
Comecemos por Maryam Mirzakhani. Nascida em Teerão, no Irão, em maio de 1977, sonhava, em criança, ser escritora. A matemática surgiu mais tarde, durante o ensino secundário, quando começou a participar em competições matemáticas. O seu talento revelou-se extraordinário: conquistou duas medalhas de ouro nas Olimpíadas Internacionais de Matemática, tendo alcançado a pontuação máxima na segunda participação.
Após concluir a licenciatura na Universidade Tecnológica de Sharif, rumou à Universidade de Harvard nos EUA, onde realizou o doutoramento sob orientação do medalhista Fields Curtis McMullen. Mudou-se para Stanford, onde viveu com o marido e a filha, sendo professora e investigadora na Universidade de Stanford.
A sua investigação incidiu sobre áreas altamente abstratas da matemática, como a geometria hiperbólica, a teoria de Teichmüller e os sistemas dinâmicos. Embora estes temas estejam longe do quotidiano, permitem compreender propriedades profundas dos espaços geométricos e estabelecer ligações entre diferentes áreas da matemática e da física.
A cerimónia de entrega realizou-se a 12 de agosto de 2014, em Seul, sendo Maryam agraciada com a referida medalha e com um prémio monetário de cerca de 10 mil euros. Os outros vencedores foram o austríaco Martin Hairer, o brasileiro Artur Ávila e o canadiano Manjul Bhargava. A fotografia de Maryam, sorridente, com a medalha, tornou-se uma inspiração para milhares de jovens estudantes.
A sua autoconfiança inabalável era fruto de uma combinação de humildade, persistência e muito trabalho. Numa entrevista, afirmou que tinha a esperança de ver mais mulheres vencerem este prémio, uma vez que “há grandes matemáticas que estão a desenvolver grandes projetos.”
Infelizmente, a sua carreira foi interrompida demasiado cedo. Maryam faleceu a 14 de julho de 2017, aos 40 anos, vítima de cancro da mama.
A segunda galardoada, Maryna Viazovska, nasceu em Kiev, na Ucrânia, a 2 de dezembro de 1984.
Durante o seu percurso escolar, Maryna sempre se destacou em matemática. Aos 14 anos, foi admitida no Natural Science Lyceum, uma escola especializada em matemática, física e ciência da computação. Em 2001, ingressou na Universidade Nacional Taras Shevchenko, em Kiev, e formou-se em matemática. Desde cedo revelou uma aptidão para a matemática, tendo competido (e ganhado em 2002 e 2005) o Concurso Internacional de Matemática para Estudantes Universitários. Concluiu o mestrado em 2010 e um doutoramento em 2013, na Alemanha.
Foi em Berlim que estudou o problema das esferas de Kepler, formulado em 1611. Durante dois anos, Maryna concentrou-se no referido problema, até que chegou o momento da revelação e encontrou a solução que tantos haviam tentado. Alega que “acabou por ser mais fácil do que pensava.” O seu nome ficou ligado à resolução de um problema que intrigava matemáticos há décadas: determinar a forma mais eficiente de empacotar esferas num espaço de oito dimensões. Simplificando, o problema que Maryna resolveu pode ser traduzido por uma pergunta: “quantas bolas são possíveis colocar numa caixa muito grande?” Parece simples, todavia, a matemática usada para chegar à resposta é muito complexa.
Em 2016, Maryna apresentou uma demonstração considerada simultaneamente elegante e revolucionária, ligando duas áreas distintas da matemática: teoria dos números e análise de Fourier. Pouco depois, em colaboração com outros investigadores, conseguiu estender o método ao caso de vinte e quatro dimensões.
Defende que, “a ciência é um esforço colaborativo e o progresso rápido é possível quando as pessoas partilham abertamente os seus conhecimentos e ideias.”
Desde 2017 é professora na prestigiada Escola Politécnica Federal de Lausana (EPFL), na Suíça. Durante a sua carreira, Maryna ganhou visibilidade, sendo convidada para proferir palestras em vários lugares do mundo.
Foi eleita pela BBC uma das “100 mulheres mais inspiradoras e influentes do mundo em 2022.” Recebeu a Medalha de Fields em Helsínquia, Finlândia. Os outros vencedores desse mesmo ano foram o francês Hugo Duminil-Copin, o americano June Huh e o britânico James Maynard.
Terminamos com a última laureada: Hong Wang. Nasceu no ano de 1991 em Guilin, na China. Excelente aluna, concluiu a licenciatura em matemática na Universidade de Pequim em 2011. Prosseguiu os seus estudos em França, primeiro na École Polytechnique e, posteriormente, na Université Paris-Saclay, onde obteve o grau de mestre em Matemática e Aplicações, em 2014.
Em 2019, defendeu a sua tese de doutoramento, orientada por Larry Guth, no Massachusetts Institute of Technology (MIT). Foi investigadora de pós-doutoramento no Institute for Advanced Study, em Princeton. Em 2021, ingressou na Universidade da Califórnia, Los Angeles (UCLA) como professora auxiliar, antes de ser nomeada professora associada no Courant Institute of Mathematical Sciences da New York University (NYU), em 2023. Desde setembro de 2025, exerce simultaneamente os cargos de professora permanente no Institut des Hautes Études Scientifiques (IHES) e de professora na NYU. Trabalha nas áreas da análise harmónica e teoria geométrica da medida.
Resolveu um problema colocado em 1917 pelo matemático japonês Soichi Kakeya e que desafiava cientistas há mais de um século. A pergunta original consistia em determinar qual é a menor área necessária para girar, num plano, uma agulha em 180 graus. Num trabalho conjunto com Joshua Zahl, Hong demonstrou limites estruturais para esses conjuntos na esfera tridimensional.
Recebeu a Medalha Fields em Filadélfia, nos EUA. Os métodos introduzidos por Hong tornaram-se centrais para a análise harmónica contemporânea. Na matemática, a análise harmónica é a ferramenta usada para decompor fenómenos complexos em partes mais simples.
Os outros vencedores da edição de 2026 foram o matemático chinês Yu Deng, o canadiano Jacob Tsimerman e o americano John Pardon.
Durante a cerimónia da entrega da medalha, Hong afirmou: “Recebo esta distinção com profunda emoção e gratidão. Sinto-me particularmente grata por ter tido a oportunidade de cruzar o caminho das pessoas certas no momento certo, de ter sido orientada para os problemas de investigação adequados e de ter trabalhado em ambientes que me permitiram dedicar-me plenamente à investigação. A matemática é uma disciplina exigente e, acima de tudo, foi a generosidade de todos aqueles que aceitaram trabalhar comigo e partilhar tanto as suas intuições como as suas dúvidas que me permitiu avançar. Esta medalha reconhece, por isso, um trabalho que é tanto deles como meu.”
É uma das matemáticas mais brilhantes da sua geração, tendo recebido uma série de prémios internacionais. Vencedora do Maryam Mirzakhani New Frontiers Prize em 2022, viria posteriormente a receber, por duas vezes, o Frontier of Science Award (em 2023 e 2025), um reconhecimento da elevada e consistente qualidade da sua investigação.
Em 2025 recebeu a Medalha Antonio Ambrosetti, o Prémio Ostrowski, o Prémio Salem e a Medalha de Ouro do Congresso Internacional de Matemáticos Chineses. A sucessão de distinções atribuídas a Hong prosseguiu em 2026, com vários prémios até à Medalha Fields. Até ao momento, são ainda apenas três mulheres entre 68 medalhistas. Mas cada conquista abre caminho a muitas outras e mostra que a matemática só tem a ganhar quando o mérito não conhece género.
Por: Maria do Carmo Martins

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