Quando a encontrei tinha dezoito anos. Foi sob uma forte emoção, que consegui esconder, para que ela não percebesse. Estava elegantíssima, sorriu-me, estendendo-me a mão direita. Os seus dedos longos e finos fizeram-me recordar os dedos dos grandes pianistas.
Disse-lhe: é um privilégio conhecê-la pessoalmente. Sonhei que um dia encontrá-la-ia. Hoje quase não acredito que estou à sua frente.
Com a irreverência dos meus 18 anos:
“Amália é a minha deusa!”.
Ela soltou uma gargalhada.
Pensei: esta deusa que conquista o mundo com a sua voz sempre inexplicável, irradia luz quando entra em palco e leva a língua portuguesa a milhares de cidadãos: do Japão à América; das Filipinas à China. Todos arrepiados, tantas vezes com as lágrimas nos olhos, aplaudem-na entusiasticamente e exaltam o país.
Ela era Portugal.
Fez-se um curto silêncio, gentilmente, diz-me: vamos à entrevista. Iniciei a minha missão e quando acabei ela perguntou-me: está satisfeito? Respondi-lhe: feliz e emocionado.
Cresci numa zona da cidade do Funchal – desta urbe que tanto representa para mim – onde se cantava o fado, não como profissão, mas como algo que se instalava na saudade das gentes. Essa saudade, que se sente e nem sempre se explica; a saudade que provoca, às vezes, a melancolia e, outras vezes, desafia aos sonhos.
Era frequente homens e mulheres trautearem nas ruas o refrão dos fados de Hermínia Silva, Lucília do Carmo, Argentina Santos, Alfredo 2
Marceneiro, Fernando Farinha, Tristão da Silva, Max, Maria Teresa de Noronha e de tantos outros fadistas.
Mas era a voz da divina Amália que mais se ouvia. Ela realmente com a sua voz inconfundível e as letras dos seus fados, conquistava os moradores da zona. Todos sabiam de cor as suas letras que eram entoadas com sentimento.
Cresci ouvindo-as na minha casa. A minha mãe gostava também de cantar o fado, conhecia muitas das letras, e por isso estive sempre familiarizado com este tipo de canção que considero que faz parte da alma do povo.
Mas o nome da Amália era falado na minha casa, porque o tio Augusto da minha mãe, muito antes dela ser fadista e da sua irmã Celeste, foi patrão das duas irmãs, e delas falava com muito carinho e admiração, sobretudo porque sendo duas jovens muito humildes, irradiavam simpatia e eram extremamente honestas. Excelentes empregadas.
Influenciado pela minha mãe, que sentia pela Amália uma simpatia especial, comecei a admirá-la.
A sua voz enchia-me a alma e atirava-me para um universo de sentimentos felizes, empurrando-me para o sonho de que um dia a encontraria pessoalmente, e dir-lhe-ia que a sua voz fazia-me companhia, nos meus momentos de solidão.
Tinha nessa época catorze anos. A contrapor este meu desejo, logo vinha a realidade de um pensamento que me dizia que isso jamais aconteceria! Porém, como a esperança é o sonho do homem acordado, deixei que o tempo corresse e nesse embrulhei o meu sonho.
Um dia a minha vida dá um salto inesperado, tinha dezoito anos, e entro para a redação do “Jornal da Madeira”, para ocupar o lugar de repórter.
Jamais tinha pensado ser jornalista, apesar do meu pai ser redator- principal do referido jornal. Nem nunca sequer ele me aludiu essa possibilidade. Aliás, não entrei pela sua mão, mas sim por decisão do Pe. Jardim Gonçalves, Chefe de Redação.
O meu pai era muito profissional e não admitia que eu e os meus irmãos não o fossemos. Ele, nas suas diferentes profissões: oficial de investigação; professor de educação física e jornalista, procurava ser um exemplo para nós e daí as suas exigências.
Habituou-nos a conviver com outros, sem distinções de classes. Relacionado com atores e atrizes de teatro, sempre que estes chegavam à Madeira, convidava-os a casa.
Desta maneira conheci muitos atores dessa época, e todos se referiam à Amália como uma voz especial do mundo artístico, alguém que com a sua voz misteriosa tinha conquistado todos os públicos para os quais atuava, sempre com sentido de responsabilidade, pelo que representavam na sua vida.
Num dos meus encontros perguntei-lhe o porquê dela, antes de entrar em palco, ficar tão nervosa. Disse-me: quanto mais atuo, maior é o meu sentido de responsabilidade perante o público.
Um dia, a bordo do navio “Vera Cruz”, estava de passagem pela Madeira, em viagem para o Brasil, a “grande fadista” Amália Rodrigues! O Pe. Jardim Gonçalves pediu-me que fosse a bordo entrevistá-la. Não queria acreditar que o meu sonho, de há muitos anos, iria tornar-se realidade!
Na lancha que me conduziu ao “Vera Cruz”, comecei a pensar como seria o meu encontro e se a Amália acolher-me-ia, se estaria disposta a dar-me uma entrevista!
Curiosamente, as mulheres das principais entidades oficiais da Madeira, dirigiram-se a bordo para cumprimentar a artista.
Penso que a Amália atendendo à minha juventude e apercebendo-se da minha inexperiência, como entrevistador, deu-me toda a atenção e ajudou-me a que a entrevista corresse da melhor maneira.
A partir daí estabeleceu-se uma relação de simpatia entre mim e ela que, com o tempo, fortaleceu-se.
Muitas vezes mandei-lhe flores. Ela adorava flores, sobretudo flores silvestres. De uma cultura invulgar e invejável, dominando à perfeição os idiomas, com uma conversação versátil, abordando os assuntos com inteligência brilhante, Amália levou Portugal ao mundo.
Estou certo que muitos dos leitores recordam as polémicas ridículas quando ela começou a cantar Camões; as críticas de muitos puristas da língua. Para mim ela cantar Camões, levando com a sua voz ao mundo, o maior poeta português, foi um grande serviço que prestou ao país; dar a milhões de portugueses Camões, que desconheciam os poemas do Poeta, foi um gesto de grandeza de uma portuguesa que amava o seu país; só uma Mulher inteligentíssima, e sensível, como ela, poderia fazê-lo.
Tive o privilégio de algumas vezes encontrar-me e conviver com Amália na Madeira e em Lisboa. Na Madeira foi sempre foi recebida com grande carinho e registou, em todas as suas atuações, sucessos estrondosos. A ilha tinha um lugar especial no seu coração.
Recordo de quando ela foi convidada para cantar aos 600 congressistas do PEN-CLUB, reunidos na Madeira, e o que isso representou para todos os escritores: a oportunidade de assistir ao vivo a um espetáculo da Amália.
Era então o Dr. Seabra o Presidente da UNESCO e Membro do PEN. O encontro da Amália com o Dr. Seabra registou-se, no momento da partida, para Lisboa, dos dois, na sala VIP do Aeroporto da Madeira.
Como testemunha da conversa estabelecida entre ambos, estava eu, e foi qualquer coisa de extraordinário que jamais esquecerei.
O Dr. Seabra foi um dos maiores divulgadores de Pessoa em França. Ele era um Pessoano fervoroso. A determinada altura da conversa, animadíssima, o Dr. Seabra virou-se para a Amália e perguntou-lhe porque ela não cantava tanto Pessoa como cantava Camões?
Amália respondeu-lhe que admirava Pessoa, que o considerava um génio, como poeta e até como filósofo, porém ela achava que Pessoa estava tocado pela língua inglesa, enquanto em Camões a língua era pura; Camões vinha do povo e sempre que o cantava, sentia-o com muita força.
A conversa depois divergiu para a importância da língua portuguesa, e a sua projeção no mundo. Amália afirmou que para ela a língua era a sua Pátria.
Nas minhas viagens pelo mundo ouvi sempre referências a Amália, para muitos ela era Portugal.
Uma ocasião encontrei-a em Macau, num teatro a abarrotar de público, quando ela entrou em palco irradiou tanta luz. Nem ainda tinha começado a cantar já os chineses, em pé, aplaudiam-na. Ela era uma verdadeira deusa que com o seu carisma enfeitiçou os chineses, mesmo não entendendo as palavras, sentiam-nas e expressavam, com gritos e fortes aplausos, os seus sentimentos, tocados pela sua voz calorosa e enigmática.
Nessa noite ao entrar em palco, o alfinete de brilhantes que trazia na cintura caíu ao chão. O guitarrista Fontes Rocha afastou-o com o pé. No intervalo fui ter com ela ao Camarim.
A Estrela disse-me que a Dª. Amália não queria receber ninguém. Entretanto a Estrela entrou e logo a seguir chamou-me: a Dª Amália vai recebê-lo. Quando a cumprimentei, perguntou-me: Acha que cantei bem?
Respondi-lhe: naturalmente: a Amália canta sempre bem!
Quando acabou o espetáculo fomos cear. Aí ela estava mais relaxada. Muitos anos mais tarde, já Amália tinha morrido, perguntei à Estrela porque estava tão nervosa a Amália naquela noite?
A Estrela explicou-me que a presença na sala dos empresários que vieram de Taiwan para ouvi-la, a fim de contratá-la para uma série de espetáculos, naquele país, fora a causa de tanto nervoso. Foi de tal ordem o fascínio que Amália provocou, nos referidos empresários, que ela partiu dali, já diretamente para Taiwan, não regressando sequer a Portugal.
Falando com o meu amigo Filipe La Féria numa das suas visitas à Madeira, e quando lhe propus fazermos um musical sobre Churchill, ele respondeu-me, pondo-me uma sugestão: porquê não fazermos o musical Amália?
Aceitei logo a sua sugestão e, sendo eu um Amaliano, foi para mim uma felicidade a ideia do musical.
Falei à Amália sobre a realização do seu musical. Quando ia a Lisboa a fim de convidá-la a estar presente na estreia, na Madeira, recebi a notícia da sua morte inesperada, o que foi para mim muito doloroso.
O espetáculo fez-se e lá estava, todas as noites a sua cadeira, coberta com o xaile preto em seda, e sobre este uma rosa vermelha.
Este espetáculo esteve seis anos em cena.
Em Paris, na estreia estavam 50 mil espetadores, e muitas centenas de pessoas na Suíça assistiram a este inesquecível musical.
Um sucesso nunca visto na história do teatro português.
Nos diferentes países onde Amália atuou, conseguiu em todos eles arrebatar os públicos, não era só a sua voz que os fascinava, era também a sua figura: os parisienses denominaram-na: o Cisne Negro de Paris.
Na Roménia “assaltaram” o seu hotel e trouxeram-na aos ombros para a rua; na Rússia, no Japão, na América, milhares de espetadores rendidos com a sua voz e carisma consideraram-na divina.
As suas inúmeras atuações de sul a norte de Itália, onde era sempre proclamada a “mítica Regina del fado”.
“A Rainha voltou ao Teatro Sistina. Amália fascina sempre, é como se fosse a primeira vez. A sua majestosa figura, dominada por um rosto doce e, ao mesmo tempo, severo, projeta no público qualquer coisa de mágico.”
“Nenhuma artista teve o condão de registar tão estrondosos sucessos na Itália como Amália.”
“Ela é a Rainha; ela é Portugal”
No decurso da minha vida, ter conhecido Amália e com ela ter convivido; ter desfrutado da sua simpatia; ter usufruído da sua sabedoria, foi uma dádiva que ajudou a tornar mais preenchidos os anos do meu percurso.
Recordo-a sempre com imensa saudade.
Por: João Carlos Abreu