O projecto desportivo do Clube Kairós tem um rosto que se destaca: João Pimentel. Degrau a degrau elevou o clube para patamares nacionais e internacionais, com destaque para as equipas femininas.
Tem animado os campeonatos e as taças. Esteve perto, em vários anos, de alcançar uma conquista de relevo porque o clube tem estado nas principais decisões.
Com gestões rigorosas, com os compromissos cumpridos, o Clube Kairós é um dos bons exemplos no desporto açoriano. O lema baseia-se no adágio popular de “não dar o passo maior do que a perna”.
Ao fim de 26 anos, João Pimentel achou ser altura de passar o testemunho. Deixou a presidência, mas mantém-se na direcção com a finalidade de passar todos os dossiês e os conhecimentos aos mais novos.
Está desgastado e desanimado com o rumo do desporto nestas ilhas, sem perspectivas de melhorias.
Ao fim de 26 anos deixou a presidência da área desportiva do Clube Kairós. Estava na hora de dar lugar a gente nova?
“São muitos anos como presidente do Clube Kairós. O clube foi criado em Agosto de 2000. É altura de podermos transmitir aos mais novos o que fizemos de bem e de mal ao longo de todos estes anos na gestão do clube”.
De qualquer forma ficou na vice-presidência. É uma forma de passar a experiência?
“Sim, é exactamente isso. Ainda estarei, possivelmente, mais quatro anos na Kairós e assim estarei mais próximo para apoiar a nova direcção nas suas dificuldades e transmitir a experiência que adquiri ao longos destes anos.”
“Somos referência nacional”
Sai do cargo principal com espírito de missão cumprida, mas, por outro lado, deixa-o com um misto agridoce por não ser campeão ou vencedor da Taça de Portugal, quando esteve muito perto?
“Penso que o clube ao longo destes anos foi criando uma estrutura forte, organizada e muito competitiva. Não tenho dúvidas de que hoje na modalidade de voleibol somos uma referência a nível regional e nacional. Neste sentido, considero que foi um trabalho difícil, com altos e baixos, mas com a satisfação de dever cumprido.
Acabámos a época a ser campeões regionais de todos os escalões de formação, a excepção foram os juniores masculinos. Fomos vice-campeões nacionais de minivoleibol masculino e de iniciados masculinos e conseguimos manter as duas equipas seniores na I Divisão nacional. Realmente, nunca conseguimos ganhar o título de campeão nacional da I Divisão nem a Taça de Portugal, mas estivemos muito perto por várias vezes com a equipa feminina. Nunca foi um objectivo definido no início de cada época mas estivemos muito perto por várias vezes.”
“O desporto não é visto como motor
de desenvolvimento”
Estou certo que sai da presidência desiludido com o frouxo processo evolutivo do desporto açoriano, sem ambição e sem os responsáveis políticos, independentemente da cor partidária, perceberem a valia promocional com equipas na I Divisão, com transmissões video e televisivas cada vez mais fáceis e acessíveis?
“É uma realidade difícil de perceber. Penso que nunca se olhou para o desporto como um motor de desenvolvimento de uma comunidade, de uma região. Actualmente, todos os nossos jogos das equipas seniores são transmitidos em livestreaming para Federação Portuguesa de Voleibol e são vistos, em directo, em qualquer parte do mundo. Os nossos jogos com SL Benfica, Sporting CP e FC Porto são transmitidos em directo nos seus canais de tv. São muitas e muitas pessoas, em qualquer parte do mundo, que podem assistir aos jogos e percebem que é o Clube Kairós de Ponta Delgada, dos Açores. Mas para nós açorianos parece que não se passa nada, que não é importante. Quando nos é atribuído o apoio da Palavra Açores parece que vamos pedir ou suplicar por este valor quando deveria ser exactamente ao contrário. Nós vamos levar o nome dos Açores a muitas pessoas e a muitos lugares do mundo. Ainda temos um longo caminho a percorrer nesta área.”
Durante tantos anos, o que lhe ficou de positivo no desejo de evolução do desporto e também o que destaca de negativo?
“De positivo, finalmente, ter sido possível equiparar os apoios às equipas femininas com os apoios das equipas masculinas. Algo que existiu durante muito tempo e que não fazia qualquer sentido. A criação de programa específico de apoio à contratação de treinadores qualificados para as equipas da I Divisão permite termos treinadores de qualidade e aproveitar para que melhorem o trabalho na formação.
De negativo, a falta de critério no faseamento do pagamento dos apoios o que dificulta e muito a gestão financeira dos clubes. O apoio atribuído aos escalões de formação que é igual para todos desde que cumpram os requisitos mínimos não havendo qualquer incentivo aos clubes que se tornam campeões regionais ou nacionais, não premiando dessa forma a qualidade do trabalho, mas sim a quantidade.
A manutenção o valor dos apoios complementares, há muitos e muitos anos, sem que seja feita qualquer actualização que acompanhe a inflação. A falta de instalações desportivas para as equipas treinarem com qualidade de treino, embora nesta época desportiva reconheça, que no que diz respeito ao nosso clube, irá melhorar.”
“Sem o apoio da promoção
é impossível”
O projecto do Clube Kairós no voleibol nacional das principais divisões pode estar em perigo com o decréscimo dos apoios, com maiores dispêndios dos clubes a todos os níveis?
“É uma realidade muito evidente e preocupante. Esta época se o apoio da “Palavra Açores” fosse retirado já não seria possível competir com as equipas seniores na I Divisão. Tudo aumenta em termos de custos menos os apoios que ou se mantêm ou reduzem.
A Federação Portuguesa de Voleibol, nos últimos anos, aumentou os custos aos clubes com as inscrições de atletas, seguros, inscrições nos campeonatos nacionais em cerca de 20% cada ano. As viagens atingem custos enormes. Os alojamentos, a alimentação, os transferes aumentam todos de acordo com a inflação. Os apoios alguns mantêm-se, outros diminuem. Não será nada fácil aguentar este desequilíbrio.”
José Silva
“Zona Açores não traz benefícios”
Não é a primeira vez que João Pimentel aborda a funcionalidade da zona Açores da II Divisão nacional de voleibol de ambos os géneros. É por demais evidente o fraco nível dos grupos competidores. Discorda e questiona se vale a pena manter os moldes, com gastos para a Direcção Regional do Desporto. Dois dos clubes de maior projecção dos Açores na modalidade resolveram retirar-se da prova masculina. É um sinal de que as vantagens desportivas e de fomento de jogadores são reduzidas.
– Antigos Alunos e CD Marienses desistiram de possuir equipas seniores, que estavam há longos anos na II Divisão, zona Açores. É o reflexo da crise de jogadores seniores e do afunilar da capacidade financeira dos clubes?
“Os clubes estão a passar por momentos muito difíceis. Há que assumir isso sem rodeios. A época passada tivemos clubes que desistiram da sua participação nos campeonatos nacionais e outros ameaçaram fazê-lo e só mesmo nos limites conseguiram participar. Este ano volta a acontecer o mesmo.
Mas também, para além das questões financeiras, penso que é necessário reflectir e pensar se realmente a Zona Açores de voleibol, nos moldes em que se desenvolve, é positiva para o desenvolvimento do voleibol na Região. Pessoalmente, há vários anos que não me revejo nesta competição nem vejo os benefícios para a modalidade. Os resultados desportivos são bem claros. Salvo raras excepções, a equipa campeã regional apenas consegue jogar de igual para igual com a equipa da Madeira o que mostra que a qualidade competitiva desta divisão é muito baixa.”
