Este quinto romance de Lobo Antunes, dado à estampa em 1983, introduzia uma mudança radical do processo da escrita de um médico psiquiatra que se lançara nas lides literárias e logo atraindo a atenção do público e da crítica pela sua frescura narrativa. Os seus primeiros quatro livros tinham o foco na consciência do escritor: as memórias da guerra, as mágoas dolorosas de uma separação afetiva, as vicissitudes da sua vida profissional, onde ele não esconde as pesadas críticas ao tratamento em meio hospitalar dos pacientes da saúde mental.
Fado Alexandrino tem outra propulsão: quatro antigos combatentes em Moçambique vão falar da história de Portugal entre o Estado Novo e o ambiente que se vive no início da década de 1980. Tudo começa num jantar, segue-se uma ida a uma boate manhosa, seguem para casa de um dos alferes (são quatro as personagens, um tenente-coronel, um oficial de transmissões, um alferes e um soldado, aparece esporadicamente o capitão, podemos tomar como a presença do leitor), aqui vive-se uma atmosfera de orgia e bacanal, alguém morre e quando é suposto assistir-se a um caso macabro o autor dá-nos uma água-forte de humor negro, assume-se o fado daqueles antigos combatentes que falam das suas vidas entre os últimos anos do Estado Novo e a crise sócio-económica patente no início da década de 1980, recordo o desabamento da Lisnave e a fome em Setúbal.
Em que consiste a originalidade, da trama desta obra que prontamente foi saudada e premiada pelos diferentes níveis de informação que encerra? O romance divide-se em três partes: Antes da Revolução, A Revolução e Depois da Revolução, cada uma delas com doze capítulos. Os quatro antigos combatentes fizeram parte de uma unidade militar que fez a sua comissão em Moçambique.
O haver doze capítulos remete para o verso de doze sílabas e não há dúvida que o romance procura transportar essa ideia de métrica para a construção da narrativa. Não há um narrador, há quatro consciências, os seus depoimentos atropelam-se, imiscuem-se uns nos outros, o que vai forçar o leitor a estar constantemente a interrogar-se: quem está a falar, a quem pertence esta memória, porque parece que estão os quatro a falar ao mesmo tempo? Não há tempo linear no romance, releva o presente narrativo, mas num ritmo vertiginoso andamos pela guerra de África, regressa-se a Portugal e refazem-se as vidas, o leitor fica a saber como cada um deles vivia antes do 25 de abril, há uma descrição muito ténue quanto aos acontecimentos desse dia, seguem-se as vicissitudes da Revolução e os anos posteriores até ao início da década de 1980, o passado intromete-se permanentemente no presente, se bem que a Revolução se apresenta como eixo de rotação da memória de investigação.
Mas há outros motivos que nos levam a ponderar o grau de originalidade neste romance de viragem: o autêntico quebra-cabeças narrativo, por vezes uma cacofonia ou uma polifonia em constante desequilíbrio. Como é evidente, Lobo Antunes não escusa a sua herança literária, está ali sempre presente o que ele por ele foi considerado nos quatro romances anteriores onde pesa uma linguagem metafórica, descontínua, uma sexualidade por vezes desbragada. Fiz perguntas ao Chat GPT e concordo com um comentário deste: “Fado Alexandrino não é apenas um romance sobre a guerra colonial e o 25 de abril. é um romance sobre a impossibilidade de organizar a memória portuguesa depois da guerra da Revolução – e, para representar essa impossibilidade, Lobo Antunes teve que destruir a arquitetura tradicional do romance.”
É um livro de arromba, quase 700 páginas, naquele jantar começam a desfiar as memórias no regresso a Moçambique, a vida pessoal e profissional de cada um, adaptações penosas, Lobo Antunes não poupa no olhar impiedoso sobre as pequenas organizações da esquerda revolucionária, o drama daquele tenente-coronel que enviuvou e aplacou a sua tremenda solidão com encontros espúrios com a porteira, aquele alferes que se embeiçou por uma menina de família ricaça e que fugirá para o Brasil nos tempos do PREC, há amores dúplices, também grotescos, o romancista porá em cena uma das figuras da sua galeria ficcional mais emblemática, a nuvem de perfume, uma senhora madura que se irá embeiçar pelo tenente-coronel, temos aqui um retrato fascinante de uma burguesa astuta que tudo faz para singrar no conforto e na ascensão estatutária; outra figura espantosa é o brigadeiro Ricardo, serviçal do Estado Novo, logo aderente ao 25 de abril, planeando intermináveis saneamentos, e bem adaptado à vida militar depois do 25 de novembro; temos igualmente a vida dos presos em Caxias; sucedem-se as descobertas dos segredos e mentiras da vida de cada um, é constante a linguagem de caserna, as infidelidades, até o romance culminar na deriva daqueles homens a seguir à bacanal que culminou numa morte, também aqui não falta o grotesco de uma furgoneta em correria para esconder um cadáver, há anões, uma deusa do strip-tease, as bebidas chaladas das boates, a Polícia Judiciária já está em campo, e a metáfora que ressalta nas convulsões do final desta obra inigualável é que a vida daqueles homens lembram o fado, genuinamente português. Não escondo o meu deslumbramento de ver um dos melhores romances da nossa literatura contemporânea, associado à vida de antigos combatentes, aqui apresentados como seres humanos, sujeitos a todos os dissabores de um Portugal constantemente à deriva.
Por: Mário Beja Santos