Tatuar para caminhar, caminhar para descobrir, é este o lema da aventura que levou o tatuador Fábio Barros a cruzar a Europa sem destino fixo. Enfrentando dias de extremo calor, solidão e incerteza, o viajante natural da Terceira encontrou na estrada desconhecidos marcantes e uma nova liberdade criativa, provando que o maior risco é nunca tentar. Ao ‘Correio dos Açores’, o jovem açoriano revela que a iniciativa nasceu da necessidade de procurar novas oportunidades e descobrir até onde conseguia evoluir, tendo como principal objectivo “desafiar-me e viver uma aventura deveras diferente”.
Correio dos Açores – Como é que surgiu a ideia de fazeres essa viagem em volta da Europa?
Fábio Barros (Viajante e tatuador açoriano) – Sempre gostei de viajar e de conhecer pessoas e culturas diferentes, mas sentia que precisava de sair da rotina e desafiar-me verdadeiramente. Nos Açores, percebi que tinha chegado a um ponto em que precisava de procurar novas oportunidades e descobrir até onde conseguia evoluir, tanto como pessoa como artista.
Vendi praticamente tudo o que tinha e decidi partir sem um destino final. Como queria prolongar a viagem, juntei-lhe aquilo que melhor sei fazer: tatuar. Levei o meu material na mochila e transformei a Europa num caminho onde cada tatuagem podia pagar mais alguns quilómetros, mas também criar uma ligação e deixar uma história em cada lugar por onde passasse.
Saíste do arquipélago com uma mochila, equipamento de tatuar e sem uma decisão final. Qual é que seria a principal missão desta tua aventura?
O principal objectivo era desafiar-me e viver uma aventura deveras diferente. Viajar praticamente sem dinheiro não era propriamente a meta, mas acabou por abrir portas que talvez, de outra forma, nunca se abrissem. Obrigou-me a aproximar-me mais das pessoas, a pedir ajuda, a ouvir e a partilhar histórias. Fez-me também dar muito mais valor a cada gesto, por mais pequeno que fosse, e perceber que, muitas vezes, não valorizamos verdadeiramente aquilo que já temos. Mais do que apenas passar por vários países, queria conhecer a realidade de cada lugar e vivê-la junto dos locais.
Quais são os principais desafios que enfrentaste ou enfrentas nesta aventura? Houve algum momento em que pensaste em desistir e apanhar o avião de volta a casa? Como é que ultrapassaste essa fase?
Curiosamente, os meus maiores medos antes de partir eram apanhar boleias com desconhecidos, ser assaltado ou envolver-me em alguma situação complicada. No entanto, as maiores dificuldades acabaram por ser interiores. Nas primeiras semanas, senti bastante a solidão, o choque da mudança e o desapego de tudo aquilo que conhecia. Por mais preparado que achemos que estamos, só quando chegamos à estrada é que percebemos realmente a dimensão daquilo que estamos a fazer.
Houve dias em que conseguir boleia também foi difícil e dois ou três momentos em que pensei seriamente em desistir e apanhar um avião de regresso. Ultrapassei essa fase vivendo um dia de cada vez, lembrando-me do motivo que me levou a começar e continuando, mesmo quando tudo parecia estar a correr mal. Esta viagem ensinou-me que, muitas vezes, aquilo que naquele momento parece não fazer sentido acaba por se encaixar mais à frente e que somos muito mais fortes do que imaginamos.
Pretendes conhecer pessoas, criar histórias e tatuar ao mesmo tempo. Existe alguma história que te marcou até agora?
Não consigo escolher apenas uma história, porque conheci muita malta marcante e todos os dias foram completamente diferentes. Mas uma das primeiras pessoas que tatuei durante o trajecto marcou-me bastante. Talvez inspirado por todas as outras que também já me tinham ajudado, ofereci comida a um rapaz que encontrei pelo caminho. Começámos a conversar e acabei por tatuá-lo.
Durante a tatuagem, contou-me que já vivia há dois anos de mochila às costas, a viajar pelo mundo à boleia e sem destino definido. Na altura, eu estava na estrada há apenas três semanas, por isso conhecer alguém que levava aquela vida há tanto tempo deu-me muita força para continuar.
Esse encontro aconteceu num dos dias mais difíceis: estavam cerca de 48 graus, caminhei mais quilómetros do que nunca com a mochila e, pela primeira vez, não consegui apanhar nenhuma boleia. No final, percebi que, se tudo tivesse corrido como planeado, nunca teria conhecido aquele aventureiro nem ouvido a sua história. Às vezes, aquilo que parece estar a correr mal está apenas a levar-nos até algo que precisávamos de encontrar.
Qual tem sido a reacção dos residentes em relação a esta tua aventura?
A reacção foi, na maioria das vezes, de curiosidade e surpresa. Como viajava com uma mochila muito grande, onde levava o material de campismo e de tatuagem, era normal perguntarem-me o que estava a fazer. E quanto mais longe chegava, maior era o espanto quando percebiam de onde tinha vindo e a forma como o estava a fazer.
Nem sempre era fácil conseguir boleia, claro, mas sinto que todos com quem falei directamente ou a quem pedi ajuda tentaram contribuir de alguma forma. Muitas ofereciam-me água, fruta, pão ou simplesmente alguns minutos de conversa e incentivo. Mesmo os gestos mais pequenos acabaram por fazer uma grande diferença e mostraram-me que existe muito mais bondade do que, por vezes, imaginamos.
De que forma é que a cultura e as paisagens dos sítios por onde passas influenciam o teu estilo de tatuagem?
Acredito que um artista precisa de tempo para observar, pensar e experimentar. Antes, levava uma rotina de trabalho tão intensa que raramente conseguia parar para olhar para a natureza com outros olhos, reparar em novas cores ou explorar diferentes formas de arte. A viagem deu-me esse espaço e ajudou-me a alargar os meus horizontes criativos.
Também encontrei realidades muito diferentes dentro do que faço. Venho de uma ilha onde esta arte tem vindo a crescer, mas, ao caminhar, descobri uma diversidade muito maior de estilos. Em Espanha, sobretudo nas zonas turísticas, encontrei muito linha fine (fine line) e tatuagens pré-concebidas (flash tattoo). Já na Alemanha, percebi ainda mais a dimensão deste mundo: existem dezenas de estúdios relativamente próximos, cada um com artistas, técnicas e identidades distintas. Esse contacto com outros trabalhos, culturas e formas de pensar tem-me levado a observar mais, a experimentar novas ideias e a evoluir enquanto artista.
Fazer uma jornada com material de tatuagem exige cuidados redobrados com a segurança e a higiene. Como é que geres a logística de montar um ‘estúdio portátil’ em diferentes países?
Andar com um estúdio portátil exige cuidados redobrados, sobretudo no Verão e nos países mais quentes, devido à conservação das tintas e dos restantes materiais. Durante a caminhada, tatuei muitas vezes em troca de alimentação e estadia, ou por valores simbólicos que ajudavam a suportar algumas despesas.
A logística acabava por ser dispendiosa, porque não conseguia transportar grandes quantidades. Em vez de frascos grandes de tinta, tinha de comprar os mais pequenos, de uma caixa de luvas ou de vários rolos de papel, levava apenas aquilo que cabia na mochila. Já as agulhas tinham de ser compradas em caixas completas, mesmo quando precisava de poucas.
Ao início foi complicado, mas acabou por fazer parte da rotina. Fui repondo o material em lojas especializadas pelo caminho ou fazendo encomendas online para os locais onde sabia que permaneceria mais tempo, garantindo sempre as condições de higiene e segurança necessárias.
Depois de tanta estrada e de absorver tantas culturas diferentes, o que sentes que mudou em ti enquanto açoriano e enquanto artista?
Enquanto açoriano, esta viagem fez-me sentir ainda mais orgulho nas minhas raízes. Quando vivemos sempre no mesmo lugar, há coisas que tomamos como garantidas. Só quando estamos longe é que sentimos verdadeiramente saudades do cheiro do mar, das tradições, das pessoas e daquela sensação de estar num lugar onde todos nos conhecem. Percebi que sair dos Açores não me afastou da minha identidade, fez-me valorizá-la ainda mais.
Ao mesmo tempo, conhecer outras culturas obrigou-me a alargar os horizontes e a questionar algumas ideias. Quando vivemos numa ilha, é fácil ficarmos limitados à realidade que conhecemos. Ao chegar a outros países, encontrei formas de pensar muito diferentes e senti que, em poucos meses, amadureci vários anos. Trouxe comigo um olhar mais aberto sobre o mundo, sem deixar de ter orgulho no lugar de onde venho.
Enquanto artista, aconteceu algo semelhante. Encontrei sociedades onde a tatuagem, os piercings e outras formas de expressão fazem parte do quotidiano, independentemente da profissão ou da posição de cada pessoa. Ver essa liberdade e diversidade mostrou-me que existem muito mais possibilidades para a minha arte. Hoje sinto-me mais aberto, mais inspirado e com menos medo de experimentar, tanto enquanto artista como enquanto pessoa.
Que mensagem gostarias de deixar à comunidade?
Se há uma mensagem que gostava realmente de deixar, é que não devemos passar a vida com medo do que os outros vão pensar de nós. Durante muito tempo, também deixei que a vergonha, o julgamento e as expectativas dos outros condicionassem algumas das minhas escolhas. Nesta aventura, senti a liberdade de ser eu próprio, de fazer aquilo que me faz feliz e de viver à minha maneira, desde que respeite sempre a liberdade de quem está à minha volta.
Quando chegamos a um lugar onde ninguém nos conhece, percebemos que muitos dos medos que carregamos existem apenas dentro de nós. Temos medo de falhar, de parecer ridículos ou de escolher um caminho diferente. Mas, no dia seguinte, quase ninguém se lembrará do que fizemos, enquanto nós podemos passar anos arrependidos daquilo que não tivemos coragem de viver.
Não tenham medo de sair, de conhecer pessoas, de mudar de ideias ou de descobrir outras formas de viver. O mundo é enorme e haverá sempre um voo de regresso a casa. Eu parti sem saber exactamente o que procurava e acabei por encontrar partes de mim que nem sabia que me faltavam.
O medo provavelmente nunca desaparece por completo. É preciso apenas avançar apesar dele. No fim, o tempo passa na mesma e eu prefiro viver com as histórias daquilo que tentei do que com o peso de tudo aquilo que não tive coragem de viver.
Diogo Simões Pires
