Quase 900 mil toneladas de combustível de aviação provenientes da Ásia deverão chegar à Europa nos próximos meses, numa tentativa de reduzir o risco de rupturas no abastecimento, embora os preços devam continuar elevados, segundo uma análise da Kpler citada pela “Euronews”.
George Shaw, analista sénior de mercados de destilados da Kpler, afirmou à “Euronews” que os novos carregamentos deverão contribuir para aliviar as dificuldades de abastecimento, mas não deverão ser suficientes para inverter a pressão sobre os preços.
“O combustível de aviação deverá ficar sujeito a preços mais elevados, sobretudo por estar estreitamente ligado ao mercado do gasóleo, que está ainda mais apertado e tem registado máximos recentes”, disse Shaw à “Euronews”.
Na semana passada, o preço médio do combustível de aviação na Europa subiu para 207,56 dólares (176 euros) por barril, o valor mais elevado entre todas as regiões e 27,8% acima da média europeia do mês anterior, segundo o monitor de preços de combustível da Associação Internacional de Transporte Aéreo (IATA), refere a “Euronews”.
Este valor corresponde a uma estimativa regional do preço à saída da refinaria e não representa necessariamente o montante pago individualmente por cada companhia aérea.
Segundo a “Euronews”, o aumento do preço do combustível de aviação resulta da subida do preço do petróleo bruto e do aumento das margens de refinação, ou seja, da diferença entre o custo do crude e o preço do produto acabado.
A Europa ficou particularmente exposta por depender fortemente das importações de combustível de aviação provenientes do Médio Oriente antes da perturbação da produção e das rotas marítimas. Desde então, tem recorrido cada vez mais à Coreia do Sul, à Nigéria e aos Estados Unidos.
Estas importações adicionais permitiram evitar, até agora, uma escassez física generalizada e deverão ajudar a Europa a atravessar o último trimestre do ano, segundo Shaw.
“O quarto trimestre deverá ser menos apertado do que o início do ano”, afirmou o analista à Euronews, lembrando que a procura de transporte aéreo na Europa começa normalmente a diminuir de forma significativa em Novembro.
A descida sazonal da procura reduz a probabilidade de companhias aéreas ou aeroportos não conseguirem garantir combustível suficiente, mas não elimina a pressão sobre os preços.
A IATA recusou comentar à “Euronews” de que forma o último aumento poderá afectar as companhias aéreas europeias e os passageiros.
Os dados mensais mais recentes da Kpler mostram que, em Setembro, as importações europeias de combustível de aviação atingiram uma média de cerca de 672 mil barris por dia, incluindo movimentos entre mercados europeus.
Segundo os dados mencionados pela “Euronews”, a Coreia do Sul, a Nigéria e os Estados Unidos representaram, em conjunto, cerca de 60% do total.
A Kpler estima também que cerca de 1,31 milhões de toneladas de combustível de aviação foram enviadas da região Ásia-Pacífico para a Europa entre Julho e Setembro. A Coreia do Sul foi responsável por cerca de 1,14 milhões de toneladas, quase 87% do total.
Estão previstas mais 900 mil toneladas provenientes da Coreia do Sul e de outros países asiáticos para chegarem à Europa nos próximos meses, adiantou Shaw à Euronews.
Aeroportos mais pequenos
continuam vulneráveis
A Kpler identificou o Reino Unido e a França como os mercados europeus mais vulneráveis a novas perturbações, por serem grandes consumidores e importadores de combustível de aviação.
Os dados de Setembro apontam para importações médias de cerca de 177 mil barris por dia no Reino Unido, tornando-o o maior destino analisado. A França recebeu cerca de 73 mil barris por dia.
Os Países Baixos receberam cerca de 118 mil barris por dia, embora parte desse combustível possa ter sido posteriormente redistribuída para outros mercados através do principal centro de armazenamento e comércio do país.
A “Euronews” salienta, contudo, que garantir combustível suficiente para um país não significa que este chegue a todos os aeroportos.
A empresa de dados e análise da aviação Cirium considera que os aeroportos mais pequenos seriam os primeiros a enfrentar dificuldades se as entregas voltassem a ser perturbadas.
De acordo com a “Euronews”, os aeroportos de menor dimensão tendem a ter menos fornecedores, menor capacidade de armazenamento e menos alternativas de entrega, deixando as companhias regionais e de curta distância com menor margem de adaptação.
Europa compensou
redução das importações
A Cirium estima que as importações europeias de combustível de aviação provenientes de fora da região tenham sido 22% inferiores entre Março e Maio, face aos mesmos três meses de 2025. Os números da Kpler confirmam em grande medida esta tendência, segundo a “Euronews”.
Apesar disso, o consumo conjunto no Reino Unido, Alemanha, França, Espanha e Itália caiu apenas 0,2% no mesmo período.
A Europa compensou a diferença através de três mecanismos: as refinarias aumentaram a proporção de crude transformado em combustível de aviação, os negociantes garantiram cargas adicionais provenientes dos Estados Unidos e da Nigéria e os fornecedores recorreram às reservas armazenadas.
O responsável alertou que estas salvaguardas se tornaram mais frágeis. As refinarias não podem aumentar indefinidamente a produção de combustível de aviação e a utilização das reservas deixa menos produto disponível para enfrentar uma nova perturbação.
Pressão poderá manter-se
O relatório de Setembro da Agência Internacional da Energia sobre o mercado petrolífero refere que as perturbações persistentes no Golfo e na zona do Estreito de Bab el-Mandeb estão a impedir o regresso à normalidade dos fluxos de petróleo.
A IEA prevê que a recuperação total das exportações dos produtores do Médio Oriente só ocorra em 2027, segundo a Euronews.
Para George Shaw, será necessário que mais capacidade de refinação volte a operar e que maiores volumes de combustível de aviação voltem a atravessar o Estreito de Ormuz para que a pressão sobre os mercados de combustível de aviação e de gasóleo possa diminuir de forma significativa.
Para as companhias aéreas europeias, o risco mais imediato é, por isso, o aumento dos custos operacionais, mais do que uma escassez generalizada de combustível ou a impossibilidade de os aviões efectuarem voos.
Segundo a análise da “Euronews”, o impacto nos passageiros dependerá, em parte, da duração do período de preços elevados e da quantidade de combustível que cada companhia aérea tenha comprado antecipadamente a preços previamente acordados.
A associação Airlines for Europe, que representa grandes grupos de companhias aéreas europeias, não tinha respondido ao pedido de comentário da “Euronews” à hora da publicação.
