Hoje celebra-se o Dia Internacional do Farmacêutico, data que pretende dar voz à valorização destes profissionais. Mais do que o familiar balcão de atendimento, a profissão farmacêutica estende-se hoje por uma teia complexa de inovação, ciência e saúde pública. Em entrevista ao ‘Correio dos Açores’, a directora do Mestrado Integrado em Ciências Farmacêuticas – Preparatórios da Universidade dos Açores, Daniela Ribeiro, analisa os desafios da classe, o impacto pós-pandemia e a urgência de valorizar uma carreira que, na linha da frente ou nos bastidores da investigação, é um pilar incontornável da sociedade.
Correio dos Açores – No âmbito do Dia Internacional do Farmacêutico, como tem visto a evolução da profissão nos últimos anos e qual é hoje o verdadeiro impacto deste profissional na saúde pública?
Daniela Ribeiro (Directora do Mestrado Integrado em Ciências Farmacêuticas – Preparatórios) – A nossa profissão tem passado por grandes desafios e tem evoluído muito ao longo dos últimos anos. Os obstáculos, muitos deles complicados de ultrapassar, são, na verdade, e sempre, transformadores. Essa transformação faz-se, preferencialmente, no sentido da evolução e do progresso. E é precisamente isto que considero que tem acontecido no caso da actividade farmacêutica.
A evolução tem-se feito não só ao nível regulamentar, científico, tecnológico, mas também ao nível do reconhecimento da importância crescente dos cuidados de proximidade e da necessidade de equidade a esse acesso, e no reconhecimento do valor e do papel do especialista neste contexto.
Estamos, portanto, e em toda a linha, a falar da salvaguarda da saúde e do bem-estar dos indivíduos e das comunidades e, por conseguinte, da saúde pública. Na minha opinião, e no contexto específico de farmácia, a pandemia de COVID-19 veio reforçar e destacar o impacto deste elemento humano. As farmácias e os colaboradores estiveram sempre na linha da frente mais acessível à população, contribuindo em grande medida para a diminuição da ansiedade pública, chegando a assegurar a primeira triagem e aconselhamento de saúde e garantindo o acesso a medicamentos, testes e vacinas. E, é claro, que não podemos esquecer todo o trabalho a montante, investigação e desenvolvimento, armazenamento, distribuição, preparação e manipulação das vacinas, por exemplo.
Muitas vezes, o público geral associa o profissional apenas ao balcão da farmácia comunitária. Como descreveria a diversidade e a importância dos restantes sectores?
O destaque que a farmácia comunitária tem e o reconhecimento pelos cidadãos advém da sua proximidade e capilaridade, que explica bem a sua relevância. Aliás, os números demonstram isso mesmo. Dados divulgados pela Ordem dos Farmacêuticos, respeitantes a 2025, revelam que mais de 60% dos inscritos desempenham a sua actividade profissional em estabelecimentos comunitários. Segue-se a farmácia hospitalar, com cerca de 10%.
No entanto, e como bem afirma, exercem funções em ramos como a indústria, análises clínicas e de saúde pública, vertente regulamentar, distribuição, ensino, genética humana, investigação e desenvolvimento, entre outras. Claro que estas últimas, como muitas vezes não implicam o contacto directo com o público geral, acabam por não ser tão faladas, mas são fundamentais para o balcão, sendo todas estas vertentes perfeitamente complementares e interdependentes.
Quais considera serem os maiores obstáculos ou desafios que a carreira ainda enfrenta actualmente? Sente que ainda persiste algum estigma ou desvalorização?
Começando por esta última questão, e remetendo à primeira desta conversa, penso que o papel do farmacêutico tem vindo a ser cada vez mais valorizado, que a carreira tem vindo a ganhar um novo fôlego, mas também considero que ainda há muito a fazer.
Se me permite, prefiro pensar e falar em desafios, continuando a olhar para o futuro numa perspectiva de evolução. Como compreenderá, pertencendo eu ao segmento do ensino, tendo a não estar completamente envolvida nas restantes vertentes da profissão. No entanto, penso que a especialização e a diferenciação, quer no que diz respeito às competências, quer no que diz respeito à actualização dos conhecimentos, estão e irão contribuir para o reconhecimento deste perito como alguém que demonstra um domínio avançado em cada especialidade, sendo garantia de prática científica e clínica eficaz, segura e de predicado superior. Sendo, claro, fundamental que isto seja devidamente reconhecido em cada plano de carreira.
Olhando para o futuro, quais são as grandes inovações, tendências tecnológicas ou científicas na área da saúde que vão transformar o dia a dia destes profissionais nos próximos anos?
Quando falamos de futuro, e mesmo de presente, não podemos fugir do óbvio, do mais comentado e falado, a inteligência artificial. É inegável a utilidade desta ferramenta na medicina, desde a investigação e desenvolvimento de novos medicamentos, passando pelo processamento de dados, diagnóstico, prescrição, até chegar à sua dispensa.
No entanto, é fundamental assegurar o controlo primordial e monitorização por peritos humanos. E, acima de tudo, é necessário relembrar que os processos de diagnóstico, mas também de tratamento e de cura são eminentemente humanos, necessitam de empatia, de contacto e de proximidade pessoal e especializada. Depois, vivemos hoje dias de uma verdadeira revolução terapêutica, falamos de terapia biológica, de terapia avançada, de medicina personalizada e de precisão, entre outros. E muitos destes tratamentos estão já a ser aplicados e os medicamentos estão a ser comercializados. Por isso a transformação está no futuro, mas está já no quotidiano da equipa.
Considera importante assinalar datas como esta para dar a conhecer a importância destas pessoas à sociedade?
Sim, na realidade, assinalamos dois momentos muito importantes para a classe, o Dia Mundial ou Internacional (dia 25 de Setembro), instituído pela Federação Internacional (FIP), e o Dia Nacional, dia 26 de Setembro, dia dos seus padroeiros, São Cosme e São Damião, instituído pela Ordem dos Farmacêuticos.
Assinalar estas datas é sempre importante, porque são dias em que naturalmente se dá mais voz à valorização do papel destes profissionais de saúde na sociedade. A propósito, no próximo dia 30 de Setembro, e também na sequência desta comemoração, terá lugar no auditório do Campus de Angra do Heroísmo uma conferência, com palestra seguida de mesa-redonda, subordinada ao tema “One Health e Resistência aos Antimicrobianos”, promovida pela Secção Regional do Sul e Regiões Autónomas da Ordem em parceria com a Faculdade de Ciências Agrárias e do Ambiente da Universidade dos Açores (FCAA, UAc).
Este evento pretende precisamente salientar a importância deste sector, mas também aproximar profissionais da saúde e da agricultura, independentemente do seu ramo de actuação, bem como estudantes das vertentes referidas, nesta temática tão importante aos dias de hoje. Demonstrando assim a complementaridade dos diversos saberes, que nos torna sempre mais fortes e mais úteis a todos os que estamos ao serviço das populações.
Tendo em conta a exigência da carreira, que competências humanas e científicas são hoje indispensáveis para quem quer singrar neste percurso?
Como disse anteriormente, podem actuar nos mais variados ramos profissionais e têm por isso uma formação e conhecimentos científicos abrangentes. Não obstante, considero que as aptidões que se revelam fundamentais passam pelo bom cumprimento dos quadros éticos e deontológicos, pelo conhecimento aprofundado do que é o acto farmacêutico específico, pelo rigor científico, e conhecimento actualizado.
Sem dúvida que o farmacêutico é um profundo conhecedor do medicamento, mas este é um saber que não se encerra em si mesmo, que vai mais além, que existe em prol do outro, dos cidadãos, da sociedade. Assim, cabe a cada um de nós fomentar as faculdades emocionais, sociais e cognitivas que também são fundamentais no nosso sucesso profissional.
Que mensagem ou conselho gostaria de deixar, não só aos estudantes que estão a entrar na área, mas também a todos os especialistas que celebram este dia?
Aos estudantes que estão a entrar, em especial aos que ingressaram no Mestrado Integrado em Ciências Farmacêuticas-Preparatórios, na FCAA, na UAc, e que ficarão connosco durante 2 anos, concluindo depois os seus estudos na Faculdade de Farmácia da Universidade do Porto, gostaria de agradecer a sua escolha e a confiança depositada na nossa instituição, dizer-lhes que se avizinham tempos de grandes desafios, mas também de muita aprendizagem, que serão alicerces sólidos para o desempenho de uma profissão de amplo espectro e de cada vez mais reconhecido impacto na sociedade.
A todos os profissionais que celebram este dia deixo uma palavra de agradecimento por cada um, em cada uma das suas vertentes específicas de actuação, contribuir dia a dia para prestigiar o bom nome e a dignidade desta nobre carreira.
Diogo Simões Pires
