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O regresso da espalamaca

Esbocei um sorriso que ainda permanece viçoso na minha alma, ao ler a notícia supra-citada. Sinto e creio que desta vez é para valer.
A esperança pode finalmente chegar a bom porto.
Há esperanças que, como os barcos, passam demasiado tempo amarradas. Ficam ali, quietas, expostas ao tempo e à maresia, enquanto à sua volta a vida continua. Há também esperanças que resistem. E a da Espalamaca foi, durante demasiado tempo, uma dessas. Mantive sempre a expectativa de que este Governo seria sensível ao apelo de uma comunidade que se revê na Espalamaca, por esta ser parte integrante da sua própria história. Não se trata apenas da história de uma embarcação, mas da história de homens e mulheres, de famílias, de trabalho, de travessias e de um tempo em que o mar era caminho, sustento, presente e destino. A ESPALAMACA não é tão só madeira, motores, mastros e ferragens. É MEMÓRIA.
Agora, essa esperança ganha finalmente uma razão concreta para sorrir.
A notícia do Ilha Maior de 18 deste mês de que se abre uma nova perspectiva, para a recuperação da nossa Espalamaca – com a intervenção da Atlânticoline e da Secretaria Regional das Finanças e a previsão de avanço do processo até final deste Setembro – é daquelas notícias que sabem particularmente bem (a néctar dos deuses, verdelho do Czar) numa ilha habituada a esperar, fruto da resistência natural do basalto negro e rijo, cepa genética da sua gente. ”Levantam uma pedra, atiram um punhado de terra para o buraco e a videira deita raízes como pode, abrigada no curral pelos muros e estendida no chão sobre calhaus…/…/…Os picarotos são os mais destemidos homens do mar do Arquipélago, tisnados, secos, graves e leais…/…/…(Raul Brandão in As Ilhas Desconhecidas). Assim foi e assim ainda é.
Já houve trabalho feito. A carpintaria foi restaurada pelo Mestre João Alberto, em Santo Amaro, por iniciativa do Governo Regional. A Associação dos Amigos do Canal reparou e restaurou os motores e outros elementos essenciais num esforço que ultrapassou largamente os 200 mil euros. Houve dedicação, dinheiro, saber e, sobretudo, uma vontade persistente de não deixar desaparecer aquilo que representa tanto para o Canal, como para o Pico e restantes ilhas do Triângulo. Depois vieram as demoras. E sabemos como as demoras são perigosas e prejudiciais quando se trata de Património: aquilo que hoje parece parado poderá amanhã estar irremediavelmente perdido. Por isso, esta nova etapa significa ir muito além da simples intervenção num barco; significa que a espera não foi em vão. A Espalamaca esteve parada muito tempo, sim. Mas não ficou esquecida. Permaneceu como uma memória flutuante, mesmo estando em terra num estaleiro. Eis a sua maior força: continuou a contar vidas mesmo sem navegar. Há barcos que regressam ao mar, que merecem continuar a navegar e a existir para que uma comunidade se reconheça neles. É exactamente isso que está presentemente em causa. Permitam-me o gáudio. Permitam-me a satisfação de ver finalmente uma luz ao fundo de um caminho que parecia interminável. Tal como eu escrevera, jamais perdi a esperança.
Que venham então as intervenções definitivas. Que a madeira volte a ganhar vida, que os motores voltem a ser movimento e que a nossa Espalamaca volte o ocupar o lugar da sua comunidade geracional que aprendeu, geração após geração, a olhar para o mar e a navegar sem medo.
Recuperar esta embarcação **É recuperar uma parte de nós**. O meu Pico merece. Somos afinal, a “Terra dos Barcos” em bom rigor. Uma mais valia para a união do nosso Arquipélago dos Açores, nos tempos em que o mar constituía a única estrada inter ilhas.
Por: Raquel André Machado

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