Com a criação da sua primeira equipa sénior de futsal, a Associação Desportiva e Cultural de Santa Cruz (ADCSC) consolida o crescimento do clube, reforça a ligação à comunidade da Lagoa e garante aos jovens da formação um horizonte desportivo completo até chegarem ao patamar máximo da modalidade.
Fundada em 2023, a ADCSC continua a dar passos firmes no panorama desportivo regional. Centrada prioritariamente na modalidade de futsal e num forte compromisso com a formação de jovens, a instituição deu agora um novo salto qualitativo na sua estrutura: a criação, pela primeira vez na sua curta, mas dinâmica história, de uma equipa sénior.
Esta aposta representa um marco importante para o clube sediado na Lagoa, permitindo estender o percurso desportivo dos atletas e consolidar o projecto a todos os níveis competitivos. Os encontros na condição de “casa” da nova formação decorrerão no Pavilhão Professor Jorge Amaral, situado nos Remédios, consolidando o espaço como o verdadeiro palco do clube.
Escalão sénior surgiu de uma
oportunidade identificada por ex-atletas
Ao ‘Correio dos Açores’, o Presidente da Direcção, Mário Pereira, explicou que esta evolução não estava nos planos e que o objectivo inicial passava sempre por “trabalhar primeiramente com os escalões de formação”. A ideia inicial passava por ir inaugurando novas camadas à medida que os mais novos fossem crescendo, uma estratégia seguida ao longo destes três anos de existência, período em que começaram com benjamins, progrediram para infantis e alcançaram o escalão de iniciados.
O responsável revelou também que a criação do escalão sénior partiu da iniciativa dos próprios atletas, incluindo ex-jogadores que se tinham afastado da modalidade devido aos estudos ou ao trabalho: “Eles quiseram-se reunir connosco. Como não tinham um clube, viram que nós tínhamos uma estrutura formada, que era boa e sólida, com os escalões de formação e vieram apresentar o seu projecto”.
“Quando abrimos a ADCSC, a missão era mantermos todos os escalões em aberto, tendo o foco nos seniores, por serem o patamar máximo que se pode alcançar e por servirem de exemplo para todos os outros que vêm de baixo”, sublinhou Mário Pereira, acrescentando que os mais novos olham para estes atletas como “ídolos e como aquilo que podem vir a tornar-se” dentro do clube.
Contudo, o presidente não esconde os obstáculos, afirmando que, actualmente, é muito difícil formar um grupo experiente, uma vez que a maior parte dos jogadores exige remuneração, um factor que alimenta a instabilidade e o fecho constante de vários clubes espalhados pela ilha.
Relativamente aos apoios, o dirigente revelou que estes são muito reduzidos. O Governo dos Açores não financia a vertente sénior, limitando o apoio às camadas jovens, pelo que toda essa verba é canalizada exclusivamente para a formação. Em contrapartida, a Câmara Municipal da Lagoa deverá integrar o lote de novos parceiros, tendo o projecto já sido submetido para análise municipal.
“Enquanto Direcção, estamos sempre a trabalhar e a criar eventos para angariar fundos, não só para os seniores, mas para toda a estrutura. Os apoios não são suficientes e o próprio material tem um custo muito elevado”, salientou o entrevistado.
Sobre os objectivos competitivos, o Presidente aponta à busca pelos melhores resultados possíveis, assumindo as dificuldades e os obstáculos naturais, mas demonstrando confiança numa boa classificação. A nível comunitário, destaca o forte apoio local da Câmara Municipal e da Junta de Freguesia, fundamentais tanto pelo apoio financeiro como logístico. Por fim, olhando para o futuro, sublinha a meta de manter todos os escalões abertos, desde os petizes, para assegurar que os jovens possam prolongar o seu percurso desportivo no clube sem precisarem de mudar de emblema ao chegar aos catorze anos.
O responsável destaca ainda o papel determinante dos pais e amigos na vida do clube, sublinhando que a estrutura de recursos humanos assenta no voluntariado e na entreajuda da comunidade.
Após uma selecção liderada pelo treinador, o plantel ficou composto por 17 elementos (três guarda-redes e 14 jogadores de campo). Um dos pontos fortes destacados é o facto de nenhum atleta sénior receber remuneração, jogando inteiramente por puro gosto e amor a Santa Cruz.
A nível de apoios, o clube orgulha-se de contar maioritariamente com patrocinadores locais e de ver as bancadas cada vez mais cheias, alimentando o lema que define a instituição: “Juntos somos um só”. Com a nova equipa sénior, o clube alcança um total de 65 atletas divididos por seis escalões (petizes, traquinas, benjamins, infantis, iniciados e seniores), preenchendo a lacuna de não existirem outras equipas na localidade e deixando um legado para que os mais novos saibam que houve quem lutasse por eles.
“Queremos dignificar
a freguesia de Santa Cruz”
O nosso jornal também esteve à conversa com Milton Braga, atleta e um dos jogadores que, juntamente com Marco Cordeiro, levou esta ideia para a frente.
“Começou tudo na brincadeira, entre conversas de ex-jogadores que queriam matar o bichinho da modalidade”, contou o lagoense, recordando que, ao verem clubes vizinhos da Lagoa a fechar os escalões seniores e o campeonato com poucas equipas, decidiram agir. “Reparámos que o Santa Cruz já tinha uma estrutura de formação sólida e pensámos: porque não abrir os seniores? Fomos falando de boca a boca com amigos e pessoas da freguesia, e a verdade é que foi para a frente”, explicou.
A escolha recaiu naturalmente sobre a ADCSC, não só por a maioria ser da zona, mas também por acomodar a realidade profissional do grupo. “Já não temos 16 ou 17 anos, trabalhamos todos e temos as nossas vidas. A questão dos treinos exige flexibilidade de horários, mas a disponibilidade e o compromisso estão lá”, salienta, sublinhando que a equipa conjuga a experiência de “veteranos” com a energia de atletas vindos do futebol de 11.
Para a primeira época de sempre do clube no escalão, o foco está bem definido: “Queremos dignificar a freguesia de Santa Cruz e dar uma boa imagem em cada jogo. Entramos sempre para vencer, mas conscientes de que o projecto está numa fase inicial e temos muito para aprender e trabalhar”, revelou o jogador.
Além da vertente competitiva, Milton Braga destaca a responsabilidade de servir de espelho para os mais novos. “Nos treinos já percebemos que a intensidade nos seniores é outra. Queremos ser uma referência e deixar uma boa imagem para os miúdos”, afirmou, deixando um apelo final: “Gostava que a comunidade aparecesse em massa para nos apoiar, especialmente no nosso pavilhão, nos Remédios da Lagoa, para fazermos uma bela campanha”.
Diogo Simões Pires
