Estilista micaelense lança nova colecção em homenagem aos oceanos e à sustentabilidade

(Correio dos Açores) Lançou a marca LUS há mais de dois anos. O que fez desde então?
(Carolina Moreira, estilista e criadora da marca LUS) Na altura em que lancei a marca ainda não tinha lojas parceiras, tinha apenas a loja e a página no Facebook e fazia showrooms por marcação no espaço da Holístika, onde inaugurei a marca. Meses mais tarde, em Fevereiro, consegui fazer uma parceria com a Sara França, que me convidou para ser uma marca parceira d’O Estúdio, e foi assim que tive o meu primeiro ponto de venda físico.
Depois disso comecei a trabalhar no website da marca, que demorou cerca de oito meses até ser lançado, em Julho do ano passado. Comecei a ganhar outra expansão ao nível das redes sociais e do online da marca, porque assim já tinha o meu ponto de venda principal e central, que é online.
Depois disso consegui arranjar outra loja parceira em Lisboa, porque um dos meus objectivos passa por nacionalizar e internacionalizar a marca para outros mercados, e não ficar cingida aqui apenas na Região… Em Setembro do ano passado tive outro convite de uma loja parceira em Lisboa, a Mesque, que fica em Belém, e que, à semelhança d’O Estúdio é uma concept store que recebe várias marcas de designers locais, que não vende apenas vestuário mas que tem também outros produtos, relacionados, por exemplo com artesanato e com decoração de interiores.
Tentei alcançar alguém com influência no digital para que me pudesse ajudar a expandir mais a marca, e assim fiz uma parceria com uma influenciadora digital, a Sara Diniz, que é uma pessoa extremamente alinhada com os princípios da marca, com os princípios da sustentabilidade e com uma vida slow.
Através das redes sociais ela promove as minhas peças de forma a podermos alcançar mais público, nomeadamente o meu público-alvo, que está relacionado com a sustentabilidade e com a ecologia.
Entretanto, muito recentemente, há cerca de dois meses, fui contactada por uma loja online que está prestes a estrear, que é da Bélgica, para ser uma marca parceira deste projecto que é incrível e pelo qual estou completamente apaixonada, chama-se bōM. Por isso já estou na Bélgica oficialmente. Já enviei peças para lá e brevemente será estreado o projecto.
Tenho também contactado várias lojas europeias, em países como a Alemanha e a Espanha, como a França e a Itália e todas elas manifestaram o seu grande interesse na marca, adoram o conceito, adoram o design, mas – infelizmente –, devido à situação do coronavírus, não lhes é possível investir em novas marcas.
No futuro, quando as coisas estiverem melhor, dizem que me voltarão a contactar, porque esta é uma altura bastante difícil para investir e para arranjar novas parcerias, mas estou a tentar alargar o leque e internacionalizar a marca não só para a Bélgica mas para outros países da Europa, porque o meu objectivo é chegar a mais pessoas e a mais público.

Apesar de o seu objectivo passar pela internacionalização da marca, a verdade é que faz todo este trabalho a partir de São Miguel. Sente vontade de sair da ilha ou sente-se limitada na ilha?
De facto, viver na ilha é muito limitador no que diz respeito aos materiais, ao contacto com pessoas e com fornecedores, porque aqui não temos oferta praticamente nenhuma e tudo o que eu compro é ao nível de Portugal continental. Todos os meus contactos são feitos através de e-mails, de telefonemas, e é tudo feito à distância, o que acaba por ser muito difícil, mas não troco isto por nada.
Não é isto que me faz querer sair daqui. Aliás, nada me faz querer sair daqui porque adoro a minha terra, sou apaixonada por São Miguel e temos uma qualidade de vida que não se encontra em mais lugar nenhum. Tudo se consegue com esforço e com dedicação e eu já tive a prova disso. No espaço de dois anos consegui fazer muita coisa sozinha e à distância, portanto é tudo uma questão de vontade e de trabalho árduo.
Hoje em dia conseguimos alcançar qualquer pessoa através de uma rede social ou através de um e-mail ou de um telefonema, por isso não acho que este seja um factor que me impossibilite de chegar onde quero chegar. Mas claro que é mais trabalhoso e mais difícil, mas tudo se consegue com vontade e trabalho.

Falando do seu mais recente trabalho, como se chama a sua nova colecção e em que consiste?
A nova colecção chama-se “Maresia”. Escolhi este nome porque ela foi inspirada nos oceanos, nas zonas costeiras e nos elementos naturais que aí se encontram, por isso é que a paleta de cores vai corresponder aos tons que normalmente se encontram nestas zonas geográficas, como o verde-esmeralda, o azul claro, o verde menta das águas mais cristalinas, o bege e o camel, uma espécie de champanhe bronze que nos remete para aquelas areias douradas, e também o castanho que se encontra nas rochas das zonas costeiras.

Que mensagem pretende passar com esta colecção?
Esta colecção tem uma mensagem muito forte. É, no fundo, uma homenagem aos oceanos, que mais do que nunca precisam da nossa ajuda. Estamos a ficar sem peixes nos mares, os oceanos estão cada vez mais poluídos e a realidade é que se não actuarmos já vamos ficar sem peixe e sem vida nos oceanos.
Sem isso, nós também perdemos vida porque não estamos nem acima nem separados do planeta, nós somos parte integrante do planeta, e da mesma maneira que os oceanos não vivem sem nós, nós não vivemos sem os oceanos. Ao protegermos o nosso planeta e os nossos oceanos estamos a proteger-nos a nós próprios e às futuras gerações.
Normalmente as minhas campanhas são muito emocionais, gosto sempre de trazer a mensagem para os vídeos, e esta campanha será muito especial porque vai ter a participação da minha irmã que escreveu um poema, com o oceano a falar na primeira pessoa e que vai ser a voz de fundo do vídeo da colecção.

Que tipo de peças podem ser encontradas na “Maresia”?
Vamos ter alguns vestidos fluidos e longos. O meu design é conhecido por ser um design leve e fluido, feminino, e gosto sempre de trazer peças que correspondam a isso porque acabam por representar o meu gosto e o meu estilo, acabam por me representar a mim mesma. Vou trazer alguns tops, calças e saias, e um macacão também. São oito modelos diferentes em cinco cores diferentes. Ao nível dos materiais que utilizei nesta colecção foram o linho, o linho reciclado, o Cupro e a Viscose EcoVero.
As peças podem ser encomendadas no website, normalmente produzo os protótipos, fico com um stock bastante pequeno das peças que utilizo na campanha e o restante fica disponível por encomenda, porque assim evito o desperdício e a produção de peças que ficam em stock parado.

Tendo em conta que as peças são feitas pela sua costureira em Lisboa, é complicado para si não poder acompanhar o processo na totalidade?
A Margarida Sousa é minha costureira há algum tempo e já conheço o trabalho dela, por isso estou muito à vontade com ela. Confio plenamente naquilo que ela faz, por isso acabo por me tranquilizar e acaba por ser fácil de trabalhar à distância neste sentido.
É difícil estar longe quando fazemos os protótipos ou quando quero experimentar as peças e não posso, então ela tem que experimentar em si e fazemos videochamada ou ela manda-me fotografias e vídeos, e assim vou vendo e dando a minha opinião.

Para quem estão pensadas as peças que desenha e que compõe?
Em primeiro lugar, a marca tem uma mensagem muito clara. A mensagem da marca está na simplicidade, ou seja, naquilo que é realmente importante na vida, naquilo que nos preenche enquanto seres humanos, e é esta a mensagem, é aproveitar o simples da vida porque estamos cá por isso mesmo, para aproveitar as coisas mais simples e para partilhar amor connosco próprios e com os outros. Isto abrange qualquer pessoa.
Tenho sempre a vertente da sustentabilidade associada à marca, que é uma marca ecológica, é amiga do ambiente e faz funil para um nicho de mercado que está alinhado com estes princípios, com pessoas que se preocupam com os problemas ambientais, com a natureza, que gostam de estar rodeados pela natureza, que têm essas preocupações e que querem contribuir para um mundo melhor.
Estamos numa era que é extremamente preocupante com as alterações climáticas e com tudo o que se está a passar no nosso planeta, e a marca acaba por ser uma solução para um dos grandes problemas que existe numa das indústrias mais poluentes do planeta, que é a indústria da moda, infelizmente.
A marca acaba por ser uma solução para este problema uma vez que contribui para a diminuição da poluição. Eu reutilizo materiais que já existem, opto por utilizar fibras naturais e não sintéticas, o que acaba por proteger os oceanos.
A nível social não há exploração infantil nem exploração de mão-de-obra, porque as minhas peças são feitas pela Margarida Sousa através de um circuito fechado onde há controlo de tudo o que se passa no processo, e acaba por responder à urgência da ajuda que o planeta precisa. Por isso, as pessoas que estão alinhadas com estes princípios e que querem contribuir para um mundo melhor são as pessoas que optam pela minha marca, embora qualquer pessoa possa gostar das peças e comprá-las.

Tem então entre mãos um mercado em expansão tendo em conta que há cada vez mais pessoas preocupadas com a sustentabilidade ambiental?
Sem dúvida. O futuro está na sustentabilidade, não há volta a dar. Não há “planeta b”, e se as indústrias continuarem a agir e a funcionar como têm feito, vamos chegar a um ponto de ruptura, o planeta não vai aguentar e temos que agir já. Cada vez mais pessoas estão consciencializadas para isto e estão consequentemente preocupadas e com vontade de melhorar os seus hábitos diários e de fazer escolhas mais sustentáveis.

A sua roupa é usada pela Maria Granel, uma das maiores influenciadoras portuguesas na área da sustentabilidade. Isto comprova que o seu objectivo está a ser cumprido?
Quero acreditar que sim. A Maria Granel foi uma surpresa gigante e fiquei eufórica quando recebi a encomenda dela. É um acontecimento muito importante porque a Maria Granel é uma influenciadora brutal nesta área, é um ser humano incrível e é tão simpática que fiquei muito feliz com a encomenda dela. Pensei para mim que se a Maria Granel, neste caso a Eunice, comprou uma peça à minha marca, é sinal que eu estou a fazer um bom trabalho e a passar a mensagem, que estou a chegar às pessoas certas.

O que garante hoje em dia a sustentabilidade da sua marca?
Para além da mensagem geral da marca, na parte da sustentabilidade tenho dois pilares. Um deles está relacionado com os materiais, com o embalamento ecológico e com as práticas zero desperdício. (…) Opto pelos materiais que sejam o mais sustentáveis possível e que sejam maioritariamente de Portugal. 80% dos meus materiais são provenientes de excedentes de fábricas portuguesas, que normalmente são excedentes de produções de grandes marcas, e que, por algum motivo, têm algum defeito no tecido e não são aceites, ficando em armazéns nos chamados dead stocks, ou stocks parados.
Quando estes stocks não são vendidos acabam em aterros sanitários como desperdício, e demoram anos e anos a decomporem-se. É uma extrema poluição para o planeta. Compro estes excedentes, que são materiais de alta qualidade e lindíssimos, em perfeitas condições, e reutilizo-os nas minhas colecções. Assim estou a contribuir para uma economia circular, a reutilizar aquilo que já existe e transformo em peças que estão perfeitas para utilização.
Para além disso, todas as minhas embalagens, etiquetas e cartões-de-visita são feitas em cartão 100% reciclado e 100% reciclável, e o meu cartão de agradecimento é um cartão plantável que tem uma mensagem da marca e que a pessoa pode plantar e transformar em flores que foram escolhidas a dedo, escolhi a flor Myosotis azorica, “Não me esqueças”, que é uma flor endémica dos Açores.

Em relação ao artesanato local tem também procurado estabelecer parcerias?
Trabalho com alguns parceiros de artesanato local, nomeadamente ao nível do macramé, da tecelagem, da cerâmica e também na madeira, porque os botões de madeira que já utilizei foram feitos por um senhor de cá.
Isto porque um dos objectivos da marca também passa por preservar e dar uma nova vida ao artesanato regional que é tão rico e tão bonito, e que com os anos tem-se vindo a perder um pouco. O meu objectivo é recuperá-lo e dar-lhe uma nova vida, modernizá-lo de alguma forma, aproveitar estas técnicas ancestrais que nós temos cá e incorporá-los nas minhas peças ou noutros produtos que estejam associados. O artesanato local está muito presente nas minhas colecções.
(…) Nesta colecção fiz uma parceria com duas artesãs dos Açores, uma de Santa Maria e outra de São Miguel, a Marina Mendoça, que é ceramista, e a Catarina Castelo que faz macramé. Nós fizemos uma parceria para vender os produtos que elas fizeram exclusivamente para esta colecção e vou vendê-los no meu site.
Vão desde brincos de cerâmica, com as cores da colecção, alguns acessórios para casa e um cinto com uma bolsa de cintura feito em macramé e que é linda, linda. Estas parcerias para mim fazem todo o sentido e são mágicas, porque nasce tudo de uma ideia e ver o produto final é lindo.

 

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