30 de março de 2022

Opinião - Associação Espírita de S. Miguel

Não vim trazer a paz, mas a divisão

Não penseis que vim trazer a paz à Terra, não vim trazer a paz, mas a espada; porque vimseparar o homem de seu pai, a filha de sua mãe e a nora da sogra; e o homem terá por inimigos aqueles da sua casa. (Mateus, X: 34 a 36)
Será que foi mesmo Jesus, a personificação da doçura e da bondade, Ele que não cessava de pregar o amor ao próximo quem disse: Não vim trazer a paz, mas a espada; vim separar o filho do pai, a esposa do esposo; vim lançar o fogo na Terra e quero que ele se acenda? Essas palavras não estão em contradição flagrante com o seu ensinamento?
Não é uma blasfémia atribuir-lhe a linguagem de um conquistador sanguinário e devastador?
Não, não há blasfêmia nem contradição nessas palavras porque foi ele mesmo quem as pronunciou, e elas testemunham a sua elevada sabedoria. Somente a forma, um tanto equívoca, não traduz exatamente o seu pensamento, o que fez com que se desprezasse o seu verdadeiro sentido; interpretadas literalmente, elas tendem a transformar sua missão, inteiramente pacífica, em missão de perturbações e de discórdias, consequência absurda que o bom senso não aceita, visto que Jesus não podia contradizer-se.
Toda a ideia nova forçosamente recebe oposição, não existe uma única que se tenha estabelecido sem lutas.
Nesses casos, a resistência contrária à ideia é sempre proporcional à importância dos resultados previstos, porque quanto maior ele for, mais interesses contraria. Se essa ideia for notoriamente falsa, se for considerada sem consequências, ninguém se preocupa com ela, e deixam-na passar, sabendo que não tem vitalidade. Mas se é verdadeira, se está assentada em bases sólidas, se para ela pode-se entrever um futuro, um secreto pressentimento adverte seus antagonistas de que tal ideia representa um perigo para eles e para a ordem das coisas em cuja realização estão interessados; eis por que se lançam contra ela e contra seus partidários.
A importância e os resultados de uma ideia nova são medidos pela emoção que ela causa ao aparecer, pela violência da oposição que provoca, e pelo grau e persistência da cólera dos seus adversários.
Como Jesus vinha proclamar uma doutrina que derrubaria, pela base, os abusos em que viviam os fariseus, os escribas e os sacerdotes do seu tempo fizeram com que ele morresse, por acreditarem que, ao matarem o homem, matavam a ideia; mas ela sobreviveu, porque era verdadeira; e cresceu, porque estava nos desígnios de Deus. Nascida em uma pequena e obscura povoação da Judeia, foi hastear sua bandeira na própria capital do mundo pagão, diante de seus inimigos mais sanguinários, daqueles que tinham o maior interesse em combatê-la, porque ela aniquilava crenças seculares às quais muitos se apegavam mais por interesse que por convicção. Lutas das mais terríveis ali esperavam seus apóstolos; as vítimas foram inumeráveis, mas a ideia cresceu sempre e saiu triunfante, porque, como verdade, superava as ideias que a precederam.
Deve-se observar que o Cristianismo chegou quando o Paganismo estava declinando e se debatia contra
as luzes da razão. Ainda era praticado por simples respeito aos costumes, mas a crença havia desaparecido, só o interesse pessoal o sustentava. Ora, o interesse é persistente, e nunca cede à evidência; e quanto mais claros e objetivos são os raciocínios que a ele se opõem, demonstrando de forma incisiva o seu erro, mais ele se estimula. Ele bem sabe que está errado, mas isso pouco lhe importa, porque a verdadeira fé não existe em sua alma, o que ele mais receia é a luz que abre os olhos dos cegos. O erro lhe é proveitoso, e por isso a ele se apega, e o defende.
Sócrates também não havia formulado uma doutrina, até certo ponto, análoga à do Cristo? Por que, então, ela não prevaleceu, naquela época, no espírito de um dos povos mais inteligentes da Terra? É que ainda não havia chegado o tempo certo. Sócrates semeou em solo não preparado; o Paganismo ainda estava em pleno vigor. Cristo recebeu sua missão providencial na época certa. A totalidade dos homens do seu tempo não estava à altura das ideias cristãs, mas havia uma aptidão mais geral para assimilá-las, porque já se começava a sentir o vazio que as crenças vulgares deixavam na alma. Sócrates e Platão abriram o caminho e prepararam os espíritos.
Allan Kardec
Livro: Evangelho Segundo o Espiritismo

 

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Autor: CA

Categorias: Opinião

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