Nuno Gomes, no Dia Mundial do Dador de Sangue

Em 2020 realizaram-se no Hospital do Divino 1.750 dádivas de sangue apesar da pandemia


Qual a importância da existência do Dia Mundial do Dador de Sangue?
Nuno Gomes - O Dia Mundial do Dador de Sangue, instituído pela Organização Mundial de Saúde, visa sobretudo assinalar e agradecer aos milhões de dadores de sangue no mundo inteiro, o seu gesto de altruísmo e de grande generosidade. Portanto, celebrar este dia é reconhecer o gesto de cidadania dos dadores de sangue.

Qual o número de dadores de sangue em São Miguel e nos Açores? 
A Associação de Dadores de Sangue considera que seria muito relevante serem publicados, anualmente, os dados, a nível do Hospital do Divino Espírito Santo, referentes às dádivas de sangue efectuadas ao longo do ano.
Eu, enquanto Presidente da Direcção da Associação de Dadores de Sangue de São Miguel, não conheço esta informação. Certamente, é produzida.
De facto, o único documento que conheço é o Relatório de Actividade Transfusional e Sistema Português de Hemovigilância, datado de 2020, publicado pelo Instituto Português do Sangue e da Transplantação. Este relatório mostra-nos que, em 2020, ocorreu uma redução de cerca de 7% no total das dádivas realizadas em Portugal, relativamente a 2019. Para termos maior noção da gravidade da situação, a nível nacional, podemos reter este dado: desde 2011 que o número de dadores e de dádivas tem vindo a diminuir. 
Em 2011, tínhamos cerca de 271 mil dadores, os quais efectuaram cerca de 411 mil dádivas e, em 2020, passámos para cerca de 178 mil dadores, que efectuaram cerca de 288 mil dádivas. Em 2020, as dádivas efectuadas por 31 mil jovens, dos 18 aos 25 anos, representaram apenas 14% do total de dádivas realizadas em Portugal. 
Isto significa que é cada vez mais importante serem realizadas acções de sensibilização, direccionadas para os jovens dadores de sangue, pois com isto asseguraremos a existência permanente de stocks na dádiva de sangue, nos hospitais portugueses, garantindo que os dadores habituais de sangue se vão renovando, de modo a evitar que tenhamos uma geração mais envelhecida de dadores de sangue. 

Qual a razão desta acentuada diminuição do número de dadores de sangue?
Esta diminuição tem múltiplos motivos associados. O primeiro é a pandemia. Com o advento da pandemia, houve em Portugal um conjunto de restrições muito fortes na nossa vida pública. Os próprios hospitais, como modo de defesa e protecção dos seus doentes, criaram muitas medidas de segurança, relacionadas com a própria dádiva de sangue. Perante esta situação, alguns dadores, uns por receio, outros por precaução ou porque sentiam que não estava criado um ambiente favorável à dádiva de sangue, retraíram-se. 
Temos que recordar que durante a pandemia o ensino foi, essencialmente, realizado à distância, assim como muitos trabalhadores, quer da administração pública, quer de empresas privadas, trabalharam igualmente à distância, pelo que estavam criadas as condições para afastar as pessoas dos hospitais e das dádivas de sangue. 
Neste contexto de pós-pandemia, é importante retomar a sensibilização dos dadores de sangue, assim como assinalar sobretudo neste Dia Mundial dos Dadores de Sangue, o trabalho que estes fazem e incentivá-los a retomar a dádiva de sangue. 

Por que razão os dados do Hospital do Divino Espírito Santo não são públicos?
De acordo com o relatório do Instituto Português do Sangue e da Transplantação, em 2020, no Hospital do Divino Espírito Santo realizaram-se cerca de 1750 dádivas. Ainda não tive acesso, nem disponho dos dados de 2021. 
No entanto, gostaria de aproveitar a ocasião para assinalar que os dadores de sangue nos Açores, em particular, na ilha de São Miguel, são generosos. Nós temos diversas instituições, associações e movimentos em São Miguel, e nos Açores em geral, que se mobilizam, congregam e organizam para promover a dádiva de sangue. Daria como exemplo, os romeiros, os motards, os Lions, associações de colaboradores de determinadas instituições bancárias, entre outros, que se mobilizam e que têm vontade de serem dadores de sangue. 
Este movimento de solidariedade é de facto notável. Considero que a sociedade açoriana deve ser reconhecida a todos esses movimentos, a todas essas associações ou instituições que se mobilizam e organizam para promover a recolha de sangue. Por isso, felizmente, mercê de uma gestão adequada dos bancos de sangue no Hospital do Divino Espírito Santo, não existe falta de sangue. 
Diria até que a generosidade, assinalável na ilha de São Miguel, permitiria que houvesse uma partilha do sangue recolhido no Serviço de Hematologia do Hospital do Divino Espírito Santo pelas outras instituições hospitalares na Região. Em determinados casos, a Região ou os seus hospitais, nomeadamente no Faial ou na Terceira, pontualmente, poderão ter que recorrer à compra de sangue ao Instituto Português do Sangue e da Transplantação. 
Isto leva a uma questão que considero fundamental. Há vários anos que se tem falado na importância da criação de uma rede regional de sangue nos Açores. Este é um objectivo relevante, meritório e essencial. 
Quando me refiro a rede regional, refiro-me também à ligação da gestão do sangue, ao nível das outras ilhas, que não têm serviço de hematologia e, sobretudo, à importância de haver uma estratégia regional de campanha promocional para a dádiva de sangue e de medula óssea. 
A Associação de Dadores de Sangue de São Miguel tem feito um esforço enorme em realizar campanhas públicas de sensibilização para a dádiva de sangue e teríamos toda a disponibilidade para colaborar, enquanto parceiro do Serviço Regional de Saúde, na realização de uma campanha regional, no sentido de promover a dádiva e a recolha de sangue. 

Já se está a criar a rede regional de sangue?
A criação de uma rede regional tem que ser uma iniciativa institucional, partindo da vontade política do Governo Regional, com a tutela na área da saúde. 
 
Quando surgiu a Associação de Dadores de São Miguel?
A Associação de Dadores de Sangue de São Miguel tem cerca de 115 associados e foi criada em 2018. Fizemos acções de sensibilização para a dádiva de sangue em quase todas as escolas básicas e secundárias da ilha, com dadores de sangue e técnicos de saúde do Hospital do Divino Espírito Santo. Promovemos, em articulação com o Hospital do Divino Espírito Santo, recolhas de sangue fora do hospital. Portanto, fizemos o que estava ao nosso alcance. 
Gostaria de acrescentar que o Decreto Legislativo Regional nº 20/2015/A de 17de Agosto, que aprovou o Estatuto do Dador de Sangue no Serviço Regional de Saúde, diz o seguinte no seu artigo 19: “a Região reconhece a importância das associações de dadores de sangue como entidades privilegiadas na defesa dos dadores, na dinamização da dádiva de sangue, e no esclarecimento das questões com ela relacionados, pelo que o departamento do Governo Regional competente em matéria de saúde incentiva a sua criação e apoio o seu funcionamento”. Considero que seria importante sermos apoiados. Não me refiro apenas ao sentido material, embora isso seja importante, mas no sentido de reconhecimento institucional do papel que as associações de dadores de sangue nos Açores têm. 
Na verdade, consideramos que seria importante que o Governo olhasse para as associações como parceiros, que fosse ao encontro das associações de dadores de sangue e ouvisse o que têm a dizer, percebesse o seu trabalho, como as associações podem colaborar na definição e na concretização desta estratégia regional de sangue nos Açores. 
Um dos desafios que deve ficar assinalado neste Dia Mundial do Dador de Sangue é as associações de dadores de sangue serem olhadas como parceiros do Sistema de Saúde Regional, ajudando a promover e a sensibilizar a dádiva de sangue. 

Em que condições se pode ser dador?
A primeira condição para ser dador de sangue é ter vontade. Em primeiro lugar, surge este impulso do coração de querer ajudar a salvar a vida de alguém e fazê-lo de uma maneira abnegada, sem esperar nada em troca. 
Gostaria de sublinhar que o sangue não se produz artificialmente e não se comercializa, isto é, não se compra nem se vende. Portanto, salvar uma vida depende unicamente da vontade do cidadão, deste impulso de cidadania. 
Em segundo lugar, tem de reunir um conjunto de critérios de condições de saúde, que estão estabelecidos, nomeadamente não ter determinadas doenças, ter pelo menos 50 quilos de peso, entre outras. Enfim, ser saudável. 
 
Qual o tipo de sangue mais comum?
Diria que o menos comum é, realmente, o sangue tipo O negativo. Os restantes grupos são os mais comuns.
 
Qual a necessidade de sangue para que não haja uma situação de ruptura?
Creio que, nos Açores, não se verifica essa situação. Não creio que haja falta. O Hospital tem os registos dos dadores de sangue, sabe os grupos sanguíneos deles e se houvesse necessidade, contactavam as pessoas directamente, para assegurar uma dádiva urgente.
Os Açores têm estado, ao longo dos séculos, sempre sujeitos a catástrofes, ou seja, a situações que a mão humana não controla. A natureza tem uma palavra final quanto ao futuro das nossas ilhas. Creio que deveria existir uma espécie de plano de contingência, em situação de catástrofe e de grandes necessidades de sangue.
Se este plano de prevenção existe, sinceramente, não conheço, em termos de protecção civil ou de hospitais. Considero que deve haver essa preocupação.
  
Quais os espaços onde se pode doar sangue na ilha?
Contrariamente ao que sucede no Continente, em que existem veículos do Instituto Português do Sangue e da Transplantação, por exemplo, que são unidades móveis de recolha de sangue, que permitem promover recolhas de sangue em diferentes sítios, nos Açores, pelo menos em São Miguel, o Hospital do Divino Espírito Santo é o único ponto de recolha de sangue. 
Uma das preocupações da Associação de Dadores de Sangue de São Miguel foi de incentivar o Hospital do Divino Espírito Santo, através do seu Serviço de Hematologia, a promover recolhas de sangue fora do hospital. Tivemos, desde sempre, a intenção de que pudessem ser efectuadas recolhas de sangue em diferentes concelhos da ilha de São Miguel. Conseguimos fazer isso uma vez ou outra vez, contudo as limitações em termos técnicos e humanos no Hospital do Divino Espírito Santo, por vezes, impedem que se possam efectuar recolhas de sangue fora do hospital, de forma mais regular. Gostaríamos de efectuar mais recolhas de sangue, mas compreendemos que o Hospital faz as recolhas na medida das suas necessidades.  

Que campanhas de sensibilização são feitas em São Miguel?
Desde 2018, a Associação de Dadores de Sangue de São Miguel tem trabalhado em duas a três áreas, que considero muito relevantes. 
 Acreditamos que é essencial informar e sensibilizar os jovens, que apesar de ainda não terem idade para serem dadores de sangue, devem ser esclarecidos quanto aos mitos associados à dádiva de sangue. Muitos pensam que, por terem uma tatuagem, um piercing, ou terem feito uma intervenção cirúrgica, por exemplo, não podem dar sangue.Tudo isso são questões em relação às quais os jovens têm pouca informação. 
Além dessas acções de sensibilização, temos a outra vertente de promover recolhas de sangue, quer no Hospital, com determinados grupos de cidadãos que querem ser dadores de sangue, facilitando junto do Serviço de Hematologia a organização de grupos de pessoas que querem dar sangue, quer articulando com o Serviço de Hematologia recolhas de sangue fora do hospital, em diferentes concelhos da ilha de São Miguel. 
 Nos últimos dois anos, temos tido a preocupação de fazer campanhas de sensibilização de uma maneira diferente, recorrendo a outdoors. Estas campanhas, dirigidas aos jovens, consistiram na colocação de outdoors em todos os concelhos da ilha de São Miguel, sensibilizando os jovens para a dádiva de sangue.  

Que incentivos existem para se ser dador de sangue?
 O Estatuto de Dador de Sangue nos Açores prevê alguns direitos para o dador de sangue, nomeadamente prevê-se que haja um reconhecimento público, mediante o número de dádivas, através da atribuição e medalhas de reconhecimento; prevê o direito de o dador de sangue poder ausentar-se do seu serviço, de forma justificada para realizar a sua dádiva de sangue; ter dispensa de medicamentos gratuita pelos hospitais do Serviço Regional de Saúde, a partir da décima doação de sangue. 
 Importa assinalar que este estatuto regional do dador de sangue prevê a assistência de um seguro do dador de sangue. Até hoje, apesar do diploma ser de 2015, este seguro nunca foi concretizado. Seria importante perceber, através do diálogo do Governo Regional com as associações de dadores de sangue, se faz sentido e em que moldes este seguro poderia ser criado.  

Quais são os planos para o futuro?
Começamos no dia 28 de Junho, com a acção de sensibilização para a dádiva de sangue, na Escola Profissional do Nordeste. Ao longo deste ano, gostávamos de poder realizar outras actividades. Uma das actividades seria promover o que seria o primeiro encontro regional de associações de dadores de sangue dos Açores.  
Um projecto que queremos desenvolver, ainda este ano, é editar um livro infanto-juvenil sobre a dádiva de sangue. Convidámos uma escritora micaelense e desafiámo-la a escrever uma história relacionada com a dádiva de sangue. Temos esta intenção de tocar o coração das pessoas, porque só a partir do coração pode nascer o sentimento e a vontade de perceber a importância do sangue para a nossa vida. 
Nas verbenas de São Pedro, que se irão realizar no Relvão no final deste mês, promovidas pela Junta de Freguesia de São Pedro, gostávamos de ter uma barraquinha da Associação de Dadores de Sangue de São Miguel, à semelhança do que aconteceu em 2019.

Que mensagem quer deixar?
Neste dia, quero dirigir a todos os dadores de sangue dos Açores um profundo agradecimento, em nome da Associação de Dadores de Sangue de São Miguel, pela generosidade da dádiva de sangue, sabendo que estão a ajudar a salvar vidas.  
                                     Carlota Pimentel

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Autor: CA

Categorias: Regional

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