26 de junho de 2022

Opinião - Dos Ginetes

Filarmónica Minerva

Quanto mais avançamos na idade a consciência nos transporta muitas vezes ao passado sobre o que fizemos de bom e menos bom na vida, sem esquecer igualmente o que voluntariamente demos a favor da Comunidade que o destino escolheu para vivermos. Tudo é realizado ao mais fino pormenor sabendo que o Criador está presente em todas as obras da vida, sobretudo a mais importante para nós como a própria criação de que fazemos parte como humanos. Não somos iguais, não somos humanamente perfeitos porque cada qual tem o seu próprio temperamento, não sentimos todos a mesma vocação, pois cada qual na realidade é dono e senhor de um talento e liberdade que utiliza como lhe dita a consciência. Ninguém, pelo menos no sistema em que ainda vivemos, é obrigado a fazer algo que não gosta ou mesmo não quer. No presente é bem notório um incompreensível desinteresse que se tem prolongado nos últimos anos e tem levado a crises difíceis de ultrapassar que culminam no desaparecimento de algumas das nossas mais ricas tradições.  
É bem notório que o tema da minha crónica esta semana é sobre a Filarmónica Minerva de Ginetes, uma Instituição de prestígio que durante mais de cem anos, talvez até cento e vinte porque a documentação sobre tal é praticamente inexistente ou confusa.
Sei que neste Domingo da Festa de S. João nos Ginetes vamos viver um dia “muito triste”, de consciência pesada que ficará na memória de todos os verdadeiros filhos desta terra como sendo “mais um para esquecer”.
Sei que a Filarmónica Minerva de Ginetes é uma Instituição difícil de gerir tal como todas as outras. Por lá passei como Presidente da Direcção durante dois anos, num mandato que supostamente deveria alongar-se por quatro, mas que não conseguindo ultrapassar problemas “ridículos” que por tal nem mereciam importância, conseguiram atingir a desmotivação dos poucos músicos existentes acabando por fechar portas. Considero sempre, mesmo se fiz tudo para ultrapassar, uma nódoa pessoal na minha colaboração com esta grande Instituição. Felizmente alguns anos depois a chama do orgulho regressou e a Minerva ressuscitou, o que me encheu de alegria porque sempre desejei o melhor para a minha terra.
A nossa freguesia de Ginetes sem a Filarmónica Minerva é uma “terra silenciosa”.
As nossas festas nunca mais serão iguais e as procissões nem sei a que comparar.
Não vale a pena encontrar desculpas quando estas não têm a mínima razão de existir.
Sei que grande parte das pessoas, talvez mesmo a maioria, não conhece toda a orgânica que envolve o funcionamento de uma Filarmónica, os sacrifícios que músicos e famílias têm muitas vezes de fazer para o bom equilíbrio da vida pessoal. Os ensaios, as saídas para que consigam manter financeiramente a Banda em condições de funcionar, pois mesmo que os governos eventualmente concedam alguns apoios nada é dado sem retorno. Existem obrigações que as Filarmónicas são obrigadas a respeitar segundo os protocolos devidamente assinados com as respectivas Direcções e que têm de ser cumpridos.
Não estou aqui em representação de quem quer que seja e os meus amigos, sobretudo dos Ginetes que me conhecem, sabem que não sou “moço de recados”. Sou uma pessoa completamente livre ao defender as minhas ideias e faço-o sempre com o máximo respeito pelas pessoas, pois afinal estamos todos neste mundo “de passagem”, de onde um dia iremos naturalmente partir, mas as Instituições restam para testemunhar no tempo o que fizemos “por ou contra” esses pedaços de ricas tradições que tanto contribuíram para a boa imagem da nossa terra.
Compreendo a ansiedade, ou até angústia, do Sr. António Costa que se tem mantido a “dar a face” como Presidente da Direcção da Minerva com a colaboração de alguns fiéis amigos a seu lado apesar de uma motivação difícil de guardar.
São horas desta terra “acordar” para a vida pois somos uma plena de valores culturais que só morrem se quisermos.
Tantos e tantos músicos que existem nos Ginetes, muitos ainda com capacidade de oferecer um pouco do seu tempo para a continuidade desta mais que Centenária Instituição. Acabemos com comentários desmotivadores que só destroem. Não existem no mundo “Instituições perfeitas” porque todas elas são formadas de homens e mulheres imperfeitos, mas que serão melhores quando lealmente apoiados.
Na Filarmónica os nossos jovens estão seguros.
É tempo de reconstruir e não desmotivar os mais novos.
É tempo de colaborar, em muitos casos com o silêncio, que se transforma num bem precioso.
Espero que esta gente dos Ginetes tenha “garra” e que ponham mãos à obra.
Como acima referi este é o “meu grito de alarme” que certamente pouco ou nada vale, mas que é sincero e parte do coração.
Resta-me desejar ao António Costa, Presidente da Minerva, muita força e motivação para com os seus colaboradores ultrapassar este momento difícil.
Se conseguir cá estarei como sempre disponível para dar conta por escrito ou em imagens da vida da nossa Minerva, outrora o orgulho mais valioso das gentes dos Ginetes.
Como dizia uma antiga figura política dos Açores “é tempo de por mãos à obra”.
 

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Categorias: Opinião

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