Conversa ao Domingo com Rita Costa Medeiros

“É num palco que sei que me entrego e dispo a alma e onde me vou conhecendo”

 Correio dos Açores: Quem é a Rita Costa Medeiros, em termos musicais?
Rita Costa Medeiros - Diria que a Rita Costa Medeiros é muito próxima daquilo que é a Rita fora do meio musical. Embora que seja na música que consigo encontrar uma libertação de todas as convenções que nos incutem, deixando-me simplesmente ser e permitindo-me sentir na totalidade aquilo que estou a dar voz, ou a dar vida. Sendo que a minha missão é essencialmente fazer chegar a todos esta dimensão que para mim, é tremendamente necessária numa relação entre o público e o artista: sentir o que se canta e o que se toca.

Como correu o concerto no Museu Vivo do Franciscanismo?
Costumo dizer que tenho pena de não ter feito parte do público que foi ver todo o evento. Porque muitas vezes fazer parte destes projectos significa isso mesmo, ter de estar a produzi-lo e, por isso, ficar nesse lado e não no do público. Mas ao mesmo tempo, ter este sentimento só significa o quanto gostei de fazer parte dele e o quão gratificante foram aquelas horas. Foi um momento mágico, que recordarei para sempre! A sala estava cheia e as pessoas estavam todas receptivas à arte. É sem dúvida uma experiência a repetir, ainda para mais quando juntou duas das minhas coisas favoritas, a literatura e a música.

Qual tem sido o eco da sua música com o João Moniz?
Bonita pergunta. É um prazer fazer parte do novo álbum do João, é um artista que admiro muito! O “Tempo” ficou-me no ouvido desde a primeira vez que o ouvi, não só pela sua sonoridade, mas pelo sentimento da música. Ainda para mais para nós, açorianos, que convivemos com as 4 estações diariamente e estamos sempre deambulantes e sem uma noção do tempo a passar, de tanta natureza bonita à nossa volta. Portanto, diria que o eco desta música é isso tudo, o estar muito feliz por fazer parte dela, ao mesmo tempo que a sinto na sua plenitude.

Que emoções experimentou com o resultado do programa da RTP The Voice Portugal?
O The Voice foi um abanão total, em todos os sentidos. Tirou-me totalmente da minha zona de conforto e foi isso mesmo que também o tornou tão especial. Foram muitas as emoções sentidas, estava em constante estado de adrenalina com tudo o que acontecia e com a velocidade das coisas. Mas fiquei muito feliz com o meu percurso, porque pude dar-me a conhecer a muitas pessoas que nunca me tinham ouvido a cantar, para além de ter feito chegar a muita gente uma das minhas actuações favoritas, que foi a minha versão da “Pedra Filosofal”. Foi muito marcante do início ao fim.

Qual o impulso que sentiu para sse inscrever no The Voice Portugal?
Tudo começou com uma amiga minha, que me mandou as datas dos castings do programa. E não sei bem explicar o porquê, foi mesmo um sentimento de “vou tentar”. Não fui com nenhuma expectativa, deixei-me só ir e ver no que dava. E fico feliz por assim o ter feito! Não me arrependo de nada, porque sinto que foi lá que defini muitas coisas que nem sabia que queria e às vezes nos percursos menos esperados, é que nos vamos conhecendo ainda melhor. Provou-me que sair do nosso conforto é sempre necessário e que nunca custa tentar, quando queremos muito algo.

Porquê uma cover de “Zorro”?
Foi a minha forma de “concluir” esta etapa do The Voice. Senti que fez sentido ser desta maneira, homenageando uma música que sempre gostei muito, de um artista que sempre admirei e que acabou por ser o meu mentor.

Qual a maior paixão: voz ou guitarra?
Poderia ser uma questão difícil, mas a voz é sem dúvida a minha maior paixão. É o instrumento que mais me define e que é tão meu, talvez por ser também o mesmo instrumento com que comunico diariamente. É uma relação difícil de pôr em palavras! Embora que a guitarra seja logo a seguir o instrumento mais especial, juntamente com o ukulele, porque foram eles que me abriram as portas para o mundo da composição.

Como descreve o entusiasmo nos palcos?
A primeira vez que subi a um palco para cantar a solo, percebi que algo se tinha activado. E quanto mais piso palcos, mais vezes confirmo esta energia. É num palco que sei que me entrego e dispo a alma. E é num palco que me vou conhecendo. Ainda há dias, no Museu Vivo do Franciscanismo, isso aconteceu. Quem me conhece sabe disso, parece que encarno outra pessoa. Uma pessoa mais confiante, mais livre e é muito especial poder sentir que num palco se pode simplesmente ser, sem medos ou convenções. Claro que há também espaço para os nervos, no dia em que não os tiver, algo estará errado. Mas lá está, eles fazem parte do processo e não há problema nenhum nisso.

Quando se apercebeste do gosto pela música?
Eu não me lembro da minha vida sem uma ligação com a música e vou a álbuns de fotografias antigos e confirmo isso mesmo. Desde pequenina que me expresso através desta arte sonora, nunca foi algo que apareceu por ter entrado em contacto com, mas sim uma coisa que naturalmente já existia em mim. Não sei bem explicar mais que isso, porque realmente quando penso em mim e no meu histórico, a música nunca se ausentou.

Referências musicais?
Provavelmente uma das perguntas mais difíceis e ao mesmo tempo mais fáceis que me podem fazer. Isto porque são muitos os nomes e os estilos que oiço e é sempre difícil seleccionar apenas alguns! Mas num panorama geral, não pode faltar a Elis Regina, Amy Whinehouse, Maro, Patrick Watson, Luísa Sobral, Keith Jarrett, Jacob Collier, Sting, Caetano Veloso, Chico Buarque e muitos muitos mais.

Caracterize-nos as emoções do single “Tentei”.
É engraçado porque o “Tentei” nasceu enquanto o sentimento que ele transmite, que é o da revolta e a aceitação dessa revolta, ainda estava a ser sentido e a ser digerido. Fala sobre o parar de tentar mudar o que não muda. Sobre ir mais além do acto de perceber, passando mesmo a aceitar que não temos de nos dar todos bem, que é importante não ter medo de deixar as coisas irem, quando têm de ir, especialmente quando já tentámos tudo.

Jazz, soul ou fado?
Uiiii. MUITO difícil! A minha alma portuguesa é completamente rendida ao fado. E depois temos todo o universo do jazz e do soul que também fala muito alto. É-me muito complicado escolher entre os três, até porque a base do que escrevo é precisamente a junção destes. No entanto, sei que o fado é um forte candidato, porque quando o oiço, entra com uma força muito única, provavelmente por ser tão nosso, tão português. Mas é engraçado, porque nunca cantei fado num concerto meu, talvez por respeitar muito a tradição e não me considerar fadista. Pode ser que um dia ainda venha a explorar mais este mundo, porque é sem dúvida muito especial. Por outro lado, o jazz permite-me contactar com um lado tão fluido e livre da música que eu busco incessantemente. A dimensão do improviso é-me fascinante e poucas coisas me dão mais prazer que estar numa jam session ou simplesmente a assistir a uma. Resumindo, não me consigo decidir, mas sei que o soul será talvez ligeiramente mais secundário nesta escolha, apesar de ser igualmente necessário e até o estilo a que muitas vezes recorro. É mesmo difícil escolher apenas um, mas é sempre interessante pensar nestas questões.

Qual a actuação musical que mais satisfação deu?
É engraçado, porque não consigo escolher só uma. Mas posso destacar a “Pedra Filosofal”, no The Voice Portugal, porque senti que estava tudo certo. Foi uma energia muito grande, com uma música muito especial e com a qual tenho imensas memórias associadas. Para além disso, recebi mensagens de imensas pessoas e ainda hoje recebo, acerca da forma como as fez viajar no tempo e até houve quem me pedisse ajuda para fazer a minha versão no seu casamento. Portanto, mais do que a actuação, foi também tudo o que ela trouxe consigo. Outra, seria neste último evento, no Museu Vivo do Franciscanismo, quando cantei as” Ilhas de Bruma”. Porque estava perante um público que sentiu comigo todas as palavras da música. Num sítio que faz parte dessas palavras. Sem dúvida que foi muito marcante, ainda para mais quando a música significa isso mesmo. Nunca me esquecerei destas duas!     
        
Que festival infanto-juvenil mais a marcou?
Eu diria o primeiro de todos, quando tinha 7 anos. Estava meia sem saber o que estava a acontecer, no sentido em que só no dia da actuação é que me apercebi mesmo da quantidade de pessoas que ia assistir. É engraçado recordar a minha inocência nessa altura, porque não me lembro de sentir nervos, os meus pais é que os sentiram por mim. E digo este porque para além de ter este lado de ser especial, por ser o primeiro, foi ao mesmo tempo com ele que percebi o que era pisar um palco a solo e o quanto gostava de o fazer. Marcou uma transição e foi onde me mentalizei que a música não era apenas um hóbi, mas sim uma paixão e um sonho a concretizar. Para além disso, sempre fui uma pessoa tímida e naquela altura então ainda era mais e lembro-me do choque da minha família a ver-me a soltar da maneira que me soltei num palco, quando minutos antes tinha vergonha de dizer um mero “olá” às pessoas. Este fenómeno de me soltar em palco, está presente em mim desde esse dia.

Qual a profissão que sonhava em criança?
Tal como quase todas as crianças, eu mudava de profissão e de sonhos todos os dias. Mas sei que nunca mudava dois: ser cantora e ser atriz. Entretanto fui percebendo com os anos que o sonho de ser atriz talvez não fosse para mim, porque nunca me consegui soltar no teatro, como me solto com a música. Mas, dos inúmeros sonhos que já tive e ainda vou tendo, o sonho de ser cantora foi o que se manteve. Hoje, diria que para além desse, o principal é o de poder viver da música.

Que tipo de música mais a identifica?
Uma vez o Salvador Sobral disse na Eurovisão que “A música não é fogo de artifício” e eu não podia concordar mais. Todos sabemos que a música tem várias faces e que muitas vezes enquanto está a ser produzida, já se está a pensar em como facturar com ela. E apesar de compreender esse motivo de ser (porque muitas vezes é o único sustento de muitos artistas), quando esse motivo supera o do intuito da canção e da sua essência, para mim, já não faz parte da música pela qual luto. Tento combater este tipo de produção massificada ao máximo, por mais vezes que estas músicas fiquem na nossa cabeça, que é precisamente esse o seu único propósito. À parte disso, consumo praticamente todos os estilos musicais, do clássico ao pop, ao soul, jazz, etc. Não vejo nenhum estilo acima do outro, porque lá está, é o conteúdo da música que me interessa sempre. Aliás, há imensa música que é desvalorizada por se afiliar a estilos mais populares e muitas vezes têm letras muito superiores a outras que não param de passar nas rádios, por exemplo. É sobre o conteúdo e não sobre o número de vendas.

Quais os aspectos mais desafiantes da  profissão?
Estranhamente, mas não tão estranho assim, ser Mulher e o que isso ainda significa. Sei que pesa sempre, quer pelo público que alcançamos, quer pela forma como nos levam ou não a sério, quer pelos padrões que enquanto mulheres pensam que temos que seguir e cumprir e, pelas constantes desvalorizações e associações a uma dimensão frágil ou mais incapaz. Ainda há imenso trabalho pela frente neste sentido. E digo isto, por ser algo com que todas as mulheres convivem diariamente e que ainda está altamente presente na nossa sociedade em todas as profissões. Portanto, por mais que pense em tantos outros desafios, comparando com este, passam a ser secundários. Há toda uma sociedade que precisa urgentemente de se re-educar. Começando simplesmente por questões como esta. Como o equilibrar as coisas e estar aberto à evolução. Não é preciso ter medo de um mundo equilibrado.
 
É fácil viver da música nos Açores?
Penso que viver da música em qualquer lugar é actualmente muito desafiante. Por imensos motivos, mas essencialmente pela excessiva oferta que há diariamente, num mercado que não consegue responder a todos da mesma forma. No entanto, isso não significa que não é possível. Se é o que realmente queremos e se lutarmos por isso, há sempre espaço para mais alguém. Até porque da mesma maneira que há essa multidão de ofertas, há do outro lado uma multidão à procura de algo novo para ouvir. Se o talento se aliar a algo único e a uma identidade honesta, creio que há sempre espaço!

Fale-nos das expectativas quanto ao futuro?
Neste momento estou focada nas imensas músicas compostas por mim e que ainda estão na gaveta. Agora mais do que nunca, sei que estão prontas para começar a sair para o mundo e estou muito feliz por me encontrar na zona onde me encontro. Felizmente tenho um núcleo de pessoas que sei que estão cá para mim e que me fazem renovar sempre as forças, porque todas as vezes que canto para elas, sei que as movo e sei que as faço sentir. E não há nada mais belo e necessário que isso. Não tenho medo de ter todo o tempo do mundo para a música!   
 

 

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