Susana Mira Leal toma posse como reitora da Universidade dos Açores

Susana Mira Leal tomou posse como VII Reitor da Universidade dos Açores, numa cerimónia de investidura que decorreu durante a manhã de ontem na Aula Magna da instituição, marcada também por momentos musicais proporcionados por professoras e alunos do Conservatório Regional de Ponta Delgada e pela atribuição de medalhas de reconhecimento a várias pessoas que, ao longo dos últimos anos, provaram a sua dedicação à academia açoriana.
No seu primeiro discurso enquanto “Magnífica Reitora” da Universidade dos Açores, Susana Mira Leal começou por se dirigir ao seu antecessor, João Luís Gaspar, cujos caminhos se cruzaram em Março de 2014 de forma “inesperada”, sendo esta uma ocasião que marcaria o início de uma “caminhada de oito anos” com um percurso “tão pleno de desafios e exigências como de crescimento e aprendizagem”.
A todos os presentes, a reitora endereçou uma palavra de reconhecimento e incentivo, renovando o “compromisso solene de honrar a missão e os valores da nossa instituição, e de agir sempre no interesse colectivo em ordem do desenvolvimento da nossa Universidade”. Assim, afirma que todos os passos dados por intermédio da acção da reitoria irão “ecoar a universidade” que, adianta ainda, tem sido para si “uma casa de projectos e de possibilidades”.
No que diz respeito aos desafios que a Universidade irá continuar a enfrentar no futuro, Susana Mira Leal começou por salientar que se vive hoje um tempo de transições, tendo em conta que este seu mandato sucede ao arranque de outros, “desde logo a tomada de posse do XXIII Governo Constitucional e da nova tutela do Ministério da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior”, sem esquecer “a recente remodelação do Governo Regional dos Açores, e os novos protagonistas na área da Educação e da Cultura, da Ciência e da Juventude, Qualificação Profissional e Emprego” num nível mais local.
Ainda assim, a espera contar com o “contributo empenhado e diligente na consecução dos objectivos nacionais para a Ciência e Ensino Superior” numa “participação franca e construtiva na procura de caminhos e de soluções” que podem ser alcançadas em conjunto com o Ministério da Ciência, a Direcção-Geral do Ensino Superior, a Agência de Avaliação e Acreditação do Ensino Superior, o Conselho de Reitores das Universidades Portuguesas ou o Conselho Coordenador dos Institutos Superiores Politécnicos, conforme referiu.
“Do Governo da República e da tutela, a Universidade dos Açores espera que o objectivo político de reforço do ensino superior de proximidade e a prioridade de promoção da coesão territorial, e cito, ‘pela adopção de políticas públicas sectoriais dirigidas à correcção de assimetrias regionais’, sejam sensíveis à diversidade de instituições de ensino superior nacionais, e às especificidades, relevância e estratégia de uma universidade que se encontra sedeada numa região ultraperiférica insular, de elevada dispersão territorial, reduzida densidade populacional, baixo índice de desenvolvimento sócio-económico e cultural, elevados níveis de insucesso e abandono escolar e baixos índices de frequência do ensino superior”, adiantou ainda.
Porém, salientou Susana Mira Leal, ao reconhecimento deverá também seguir-se a acção, para que a Universidade dos Açores, tal como a Universidade da Madeira, veja assegurado “um financiamento que permita compensar os sobrecustos da sua insularidade e ultraperiferia que nos arredam do trilho de desenvolvimento que merecidamente almejamos, e que as condições financeiras actuais retardam”, mencionando também os compromissos assumidos pelo Governo da República que, desde 2020, “continuam por honrar”.
“Impõe-se a assinatura do contrato para a legislatura então acordado e a transferência anual de 1,2 milhões de euros durante quatro anos. A isto, acresce a insólita e injusta situação em que a Universidade dos Açores, como a da Madeira, se têm encontrado no acesso aos fundos europeus. Estando, embora, sob tutela nacional, a Universidade dos Açores não tem podido aceder aos financiamentos disponíveis no território continental por estar sedeada numa Região Autónoma.
Não tendo tutela regional, não se apresenta amiúde elegível para aceder às linhas de financiamento da Região, e as mesmas nem sempre apresentam oportunidades de financiamento equivalentes às que as congéneres nacionais podem aceder”, acrescentou ainda no seu discurso de tomada de posse, no qual adicionou que embora “a equidade nesta matéria pareça estar em vias de ser reposta”, o será “apenas parcialmente”.
A cerimónia de investidura foi também marcada pela tomada de posse dos restantes membros da equipa reitoral. Assim sendo, como vice-reitora para o Ensino e a Gestão Académica, tomou posse a professora Suzana Nunes Caldeira, seguindo-se o professor Francisco Cipriano da Cunha Martins para o lugar de vice-reitor para a Administração, Planeamento e Infra-estruturas.
Tomou também posse, enquanto vice-reitor para os Estudantes, Alumni, Cultura e Bem-estar, o professor Adolfo Fernando da Fonte Fialho, seguindo-se o investigador José Freire Gil, que tomou posse como vice-reitor para a Ciência, Inovação e Transferência de Conhecimento.
Na mesma ocasião, tomou também posse, enquanto pró-reitor para a Comunicação, Qualidade e Imagem, o professor Emanuel da Cunha Teixeira, bem como o professor João Manuel dos Anjos Gonçalves enquanto pró-reitor para o Campus da Horta. Seguiu-se a professora Maria Amélia Oliveira Gonçalves da Fonseca, pró-reitora para a Cooperação, Internacionalização e Ensino à Distância, e o professor Luís Carlos do Rego Furtado, que tomou posse enquanto pró-reitor para o Campus de Angra do Heroísmo.

Oito anos “fugazes e intensos”
enquanto Reitor

Emocionado, João Luís Gaspar despediu-se do cargo de reitor da Universidade dos Açores que exerceu durante um total de oito anos, tempo este que lhe pareceu “fugaz”, marcado pelo desaparecimento de pessoas como António Machado Pires, reitor da Academia entre os anos de 1982 e 1995, falecido no início deste mês de Junho.
Apesar de “fugazes e intensos”, o ex-reitor salientou que ao longo dos últimos oito anos vários foram os passos dados em prol da Universidade dos Açores: “Ao longo deste período recuperou-se a situação financeira da universidade, e equilibraram-se as contas. Reformulou-se a estrutura orgânica da instituição que, entre outros aspectos, passou de uma lógica departamental muito fragmentada para um modelo assente em faculdades, escolas e institutos, todos dotados de maior autonomia administrativa, científica e pedagógica”, exemplifica.
Criaram-se ainda “novos serviços que passaram a depender directamente da reitoria, reabilitaram-se instalações e espaços exteriores em todos os pólos universitários e modernizaram-se infra-estruturas ao nível da informática, da energia, entre outras. Apostou-se na valorização e requalificação profissional dos trabalhadores não docentes e não investigadores. Adequaram-se as suas carreiras e categorias às funções que desempenhavam, e promoveu-se a contratação de novos quadros, em especial, de técnicos superiores.
A renovação do corpo docente da instituição acompanhou o regime das aposentações e de necessidades especiais, e reuniram-se condições para se garantir a progressão na carreira dos docentes da academia num processo sem precedentes. Reformou-se o quadro regulamentar nas áreas do ensino, da investigação e demais actividades, e introduziram-se procedimentos que em muito melhoraram a tomada de decisões, a eficiência e a eficácia da academia”, acrescentou ainda, perante a densa plateia presente.
Na sua longa enumeração, João Luís Gaspar salientou ainda que foi feita uma adequação aos cursos existentes na universidade e aos respectivos planos de estudo e instrumentos legais que os regulam, fazendo com que fossem acreditadas novas ofertas de ensino para responder às necessidades e às tendências de procura.
“Adoptou-se um modelo híbrido e próprio para a gestão dos projectos e serviços de natureza científica e criaram-se novas condições para a investigação, o desenvolvimento tecnológico, a inovação e o empreendedorismo”, adiantou, salientando ainda que “a Universidade dos Açores esteve sempre mais aberta à sociedade” através de variadas formas.
Na sua despedida do cargo de reitor da Universidade dos Açores, João Luís Gaspar fez ainda várias homenagens públicas, no sentido de reconhecer os serviços prestados à academia por vários colaboradores da mesma. Distinguiu assim dirigentes da universidade que cessaram funções ao longo do presente mandato, atribuindo uma medalha de reconhecimento individual por serviços prestados à academia a Marta Decq Mota e a Maria Beatriz Cogumbreiro Estrela Rego, bem como a Ana Paula Carvalho Homem de Gouveia e a Nuno Henrique Oliveira Pimentel.
Distinguiu também com medalhas de reconhecimento todos os membros do Conselho Geral da Universidade dos Açores que cessaram funções em 2021, nomeadamente Carlos Manuel da Silva Arruda, César Faria Malheiro, José António Tavares Resendes e Maria José Martins Gil.
Distinguiu também a RTP-Açores “por exercer a sua missão num contexto idêntico ao da Universidade dos Açores, por força da descontinuidade territorial e da natureza do serviço público que lhes incumbe cumprir”, pela forma ímpar como tem difundido as actividades que academia em questão desenvolve, sendo esta uma forma de, através de Rui Goulart, Director do canal televisivo em questão, “prestar igual homenagem aos restantes órgãos de comunicação social”.

A importância de intensificar o papel
do associativismo estudantil

Daniela Faria, Presidente da Associação Académica da Universidade dos Açores, foi também uma das oradoras nesta cerimónia, referindo-se a este momento como o “fecho de mais um capítulo da história desta mui nobre casa”, na qual se assinala uma “passagem de testemunho”.
A João Luís Gaspar, a estudante adiantou que este é o “culminar de muito trabalho desenvolvido com empenho e dedicação”, registando nesta cerimónia pública “toda a sua disponibilidade, prontidão e eficácia”, sobretudo em tempo de pandemia, onde a postura e actuação do reitor cessante “foram determinantes para que a Universidade dos Açores lidasse tão bem com este contratempo”. Nesta ocasião, a presidente da associação académica salientou a necessidade de existir uma valorização do trabalho associativo, uma vez que “quando comparada com qualquer outra zona do país, os Açores ficam muito aquém” neste domínio, cabendo assim aos jovens “motivar a mudança de mentalidades”, em parceria com a nova reitora, conforme apontou Daniela Faria.
“A união faz a força, e o papel que cada uma de nós desempenha só faz sentido se, juntas, nos compreendermos e se lutarmos lado a lado por uma Região que entenda melhor o ensino superior, uma região que valorize o conhecimento, uma cidade que valorize a presença dos estudantes e a alegria com que estes contagiam as artérias da nossa doce Ponta Delgada”, disse a representante dos estudantes da universidade açoriana.
No que diz respeito aos problemas que marcam a instituição, a Presidente da Associação Académica da Universidade dos Açores registou que embora a insularidade seja “uma limitação” que exige “a necessidade de actuar de forma a compensar esta mesma característica insular”, a “preocupação não pode ser a de empurrar a responsabilidade para o Governo da República”.

Aposta urgente na internacionalização

A terminar a cerimónia de tomada de posse de Susana Mira Leal, discursou Luís Paulo Elias Pereira, enquanto Presidente do Conselho Geral da Universidade dos Açores, salientando que este está “disponível para cooperar no necessário para o sucesso da universidade”.
Tendo em conta as exigências da globalização – que fazem com que Portugal seja “o segundo país com maior escassez de talento”, a seguir ao Taiwan – o interveniente considera “inaceitável que as propostas apresentadas pela reitoria ao anterior Governo Regional no âmbito do PO regional nunca tenham tido resposta, nem sim, nem não”.
Neste sentido, considera que é “desejável e absolutamente necessário que este Governo Regional recupere o tempo perdido” naquele que gerou “um divórcio entre a Autonomia e a universidade”, adiantando também que “não é aceitável também a redução de verbas afectas à ciência, sobretudo neste contexto de revolução digital”.
“A Universidade dos Açores beneficiaria da contratação de talentos internacionais que concretizassem, aqui no meio do Atlântico, uma forma de excelência, não só para nós, mas para outros alunos que nos procurassem, da Europa ou de outras partes do mundo nesta matéria tão relevante para a economia, para o Mar ou para a Saúde”, exemplificou o Presidente do Conselho Geral, salientando a importância de a Universidade dos Açores encontrar “um parceiro estratégico” que a auxilie nesta “caminhada”, tal como acontece com a Fundação Calouste Gulbenkian e a Universidade do Algarve.
Elias Pereira deixou, através do seu discurso, a sugestão de “acentuar a visita de professores de excelência às universidades insulares com a garantia do seu prestígio e internacionalização”, ou a ministração de alguns cursos em inglês, como acontece noutras universidades do país, abrindo assim caminho à desejada internacionalização e aumentando o número de alunos da instituição, que “hoje é inferior a três mil”.
Apesar do grande desafio entre mãos, Elias Pereira apela a Susana Mira Leal que “o tempo é escasso” e que são “necessários resultados práticos, urgentes e com retorno para a sociedade açoriana”.
 

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