Carmen Raposo reencontra o seu amor pela música através de vários temas originais

Carmen Raposo é natural de Ponta Delgada e, aos 36 anos de idade, na passada Segunda-feira, apresentou pela primeira vez ao público três dos seus quatro temas originais, resultado do seu grande amor pela música, na cerimónia realizada em Ponta Delgada para celebrar o 100.º aniversário da Caixa de Crédito Agrícola dos Açores.
Neste apontamento musical que preparou para a sua estreia, cantou os temas “Abalo”, “A Espera” e “O Ensaio sobre o tempo”, aos quais juntou também uma música do seu produtor e compositor, Mário Raposo, e temas dos três cantautores açorianos: Luís Alberto Bettencourt, Zeca Medeiros e Aníbal Raposo – seu pai –, fazendo assim escolhas que “mostrassem um bocadinho da nossa música”.
Contudo, apesar da paixão que nutre pela área da música, Carmen Raposo é actualmente professora de Economia no ensino secundário, e é por gostar muito da profissão que escolheu que espera continuar a conciliar a música e o ensino “enquanto for possível”, preparando-se para ainda esta semana lançar um novo tema, intitulado “Na tua paz”, que define como “uma celebração do amor” e “uma música muito feliz”.
Sendo filha de Aníbal Raposo, cantautor açoriano, Carmen Raposo recorda o facto de ter crescido rodeada pela música do pai, mas também por outros músicos com quem este colaborava, como é o caso de Zeca Medeiros, de Luís Alberto Bettencourt “e de muitos outros”. Relembra também os muitos concertos privados do pai, dados especialmente para amigos e familiares, e os concertos de outros artistas, não tão privados, que assistiu na companhia do pai.
Assim, acabaria por se sentir “influenciada por todos estes músicos e cantautores da velha guarda, conhecidos nos nossos Açores”, com os quais sente ainda hoje uma ligação muito forte “com eles e com a música deles”, afirma.
Este contacto permanente com vários artistas açorianos fez também com que os pais de Carmen Raposo optassem por, desde cedo, a inscreverem no Conservatório Regional de Ponta Delgada, onde acabaria por completar o 5.º grau de formação musical, com quatro anos dedicados ao piano e um ano dedicado ao canto lírico.
Porém, de acordo com a artista, o facto de ter “uma formação muito básica em piano”, faz com que não se sinta pianista, embora este seja o instrumento que hoje utiliza para poder criar e “exteriorizar” as suas músicas, como aconteceu na Primavera de 2021, altura em que deu por terminado o afastamento que mantinha em relação a este instrumento musical desde o momento em que terminou os seus estudos no Conservatório.
“Com o regresso aos Açores tive que me voltar a encaixar e fazer uma mudança a nível profissional que, felizmente, correu bem. Foi essa estabilidade emocional que me fez, naturalmente, querer dedicar-me à minha paixão, sem intenção nenhuma de vir a gravar. Foi mesmo muito natural, porque o meu piano do conservatório estava ainda na casa do meu pai e, quando comprei a minha casa, o piano veio e estava todo o dia a olhar para mim, e então foi na Primavera que comecei a fazer músicas”, adianta Carmen Raposo.
Este processo natural ocorreu também porque a professora, cantora e compositora “sempre teve músicas na cabeça”, ou seja, pedaços de músicas que não tinha como exteriorizar ou como gravar, e como resultado deste processo criativo e desse regresso ao piano nasceria a sua primeira música, intitulada “A Espera”, o seu segundo tema a ser lançado. Embora tenha surgido a partir de uma situação particular da sua vida, considera que, “de alguma forma, toda a gente se pode rever na letra desta música, na espera de alguma coisa, seja um amor, um ente querido, um familiar ou o que for”.
De uma forma geral, todas as músicas que lançou digitalmente até ao momento (“Abalo”, “A espera”, “Ensaio sobre o tempo” e “Ode à libertação”) estão ligadas à sua história de vida, àquilo que é e àquilo que pensa, o que faz com que todos estes temas sejam, de alguma forma, auto-biográficos.
Quanto ao estilo musical, salienta que tem muita dificuldade em “definir” um estilo para as músicas que compõe e canta, embora adiante que, da parte do público que tem recebido a sua música, seja feita a associação “à musica portuguesa e açoriana em particular, e por vezes também a ligam ao fado”. Porém, considera, alguma da sua inspiração alimenta-se também na música africana, já que esta também faz parte da sua história de vida e daquilo que ouve.
Para além do impacto que tem o seu pai na sua ainda curta carreira, tendo já colaborado numa das suas músicas, e do “papel essencial” de Mário Raposo na orquestração das suas músicas, Carmen Raposo tem também contado com várias colaborações, como é o caso de Ana Cláudia e Raúl Damásio que fazem coros das suas músicas, Álvaro Pimentel que participou também com um solo de saxofone e com Paulo Andrade com o adufe e percussão.

Um percurso profissional longe
da música mas próximo de África

Apesar de respirar música desde cedo, chegada a altura de escolher o percurso profissional a seguir, Carmen Raposo acabaria por escolher partir rumo a Lisboa para tirar o curso de Gestão no Instituto Universitário de Lisboa, tirando depois um mestrado em Economia Social e Solidária que lhe permitiria entrar no mundo das Organizações Não Governamentais em Lisboa, onde teve o seu primeiro contacto com a Fundação Fé e Cooperação (FEC), o que lhe permitiu também conhecer a realidade da Guiné-Bissau.
“O meu primeiro estágio foi numa Organização Não Governamental, a Fundação Fé e Cooperação, uma ONG com um trabalho bastante reconhecido a nível nacional, com projectos na Guiné-Bissau, em Moçambique e em Angola, incidindo sobretudo na área da Educação para o desenvolvimento e na área da Saúde. Eu era técnica financeira nesta ONG, comecei assim a minha vida profissional e depois fui convidada a ser técnica da Cooperação Portuguesa na Guiné, enquanto técnica financeira. Fui fazer as contas no terreno através desse programa de educação”, relembra.
Esta foi uma oportunidade que não hesitou aceitar, aos 26 anos de idade, uma vez que, durante dois anos, poderia viver noutro país e, em simultâneo, ter uma responsabilidade profissional acrescida, tendo para isso que ultrapassar o enorme choque cultural que sentiu nos primeiros dias.
“A forma de viver na Guiné-Bissau é totalmente diferente. Há muitas feiras ao ar livre com falta de condições, há pobreza e lixo pelas ruas, e estas foram situações que me chocaram inicialmente. Mas passados uns dias, comecei a ver a beleza de tudo e dos próprios guineenses. Depois passei a apreciar as coisas boas que eles têm”, relembra, tal como a música “que está por toda a parte”, com jambés e outros instrumentos de percussão, as paradisíacas paisagens das ilhas de Bijagós, a comida “picante e com sabores diferentes” dos açorianos associados ao “bom peixe”, sem esquecer a “simpatia e simplicidade dos guineenses que recebem muito bem, são muito humildes e dão o que têm e o que não têm”.
De uma forma geral, Carmen Raposo salienta que estes foram dois anos que lhe permitem hoje “olhar para o mundo de outra forma”, por ter vivenciado na pele a forma como outro país vive e por ter percebido que, embora diferente, essa é também uma boa forma de viver. Foi também uma oportunidade para “desenvolver a sua empatia para com o outro”, como relembra.
Depois desta experiência, regressou a Lisboa e, durante um ano, continuou a trabalhar para a FEC até ao final de 2014, ano em que decidiu regressar aos Açores. Depois de cerca de um ano e meio a perceber onde se encaixaria a nível profissional na ilha onde nascera, tendo em conta a experiência até então acumulada, percebeu que seria feliz no ensino e, assim, voltou a Lisboa, desta vez ao Instituto da Educação em Lisboa, para iniciar um Mestrado na área do Ensino, mas sempre com a ideia de regressar à ilha onde nasceu e onde hoje se sente completa.
 

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