Segundo grupo de trabalho da Universidade dos Açores

Exploração mineral do mar profundo dos Açores afectará a sua biodiversidade e recursos pesqueiros

A publicação científica do Grupo de Investigação do Mar Profundo da Universidade dos Açores conclui que os sedimentos libertados durante a exploração mineral poderão dispersar por uma área equivalente a 10.000 campos de futebol e afectar ecossistemas marinhos vulneráveis e a pesca comercial
Publicado na revista Frontiers of  Marine Science, o trabalho de investigação, quantificou a dispersão de plumas provenientes de diferentes fases das operações de exploração mineral do mar profundo e avaliou a escala espacial dos potenciais impactos na biodiversidade e nas actividades pesqueiras. O estudo conclui que a exploração mineral do mar profundo produzirá plumas de sedimentos que poderão cobrir uma área até 150 km2 e dispersar por mais de 800 m na coluna de água. O estudo conclui ainda que as plumas podem dispersar para fora das áreas para mineração e atingir montanhas submarinas próximas, afectando assim quer os ambientes do mar profundo, quer os ambientes perto da superfície. Estas plumas, com elevado potencial tóxico, porão em risco os corais de água fria e as actividades de pesca existentes. Estes impactos são particularmente preocupantes em regiões como os Açores, onde as populações locais são altamente dependentes do mar profundo e dos seus recursos para a sua economia e subsistência. As descobertas deste estudo são um importante passo para a compreensão da magnitude dos impactos da mineração do mar profundo.
Telmo Morato, do Instituto Okeanos da Universidade dos Açores, co-líder do grupo de investigação e responsável pela publicação, comenta: “É cada vez mais reconhecido que a exploração mineral de sulfuretos polimetálicos do mar profundo poderá tornar-se uma realidade num futuro próximo. A Dorsal Meso-Atlântica na região dos Açores alberga várias fontes hidrotermais activas e inactivas que podem representar potenciais fontes de depósitos destes tipos de sulfuretos polimetálicos. A sua exploração, caso aconteça, irá remover os minerais e os organismos associados mas também produzir plumas de mineração altamente tóxicas. Neste estudo, onde utilizamos modelos hidrodinâmicos tridimensionais da região dos Açores juntamente com uma operação teórica de mineração de sulfuretos maciços polimetálicos para simular a dispersão de plumas, concluímos que estas plumas tem um potencial de dispersão muito grande e irão afectar biodiversidade local e as actividades pesqueiras existentes.”
O mar profundo dos Açores esconde uma diversidade de comunidades biológicas única no Oceano Atlântico, incluindo extensos jardins de corais de águas frias e campos de esponjas. Muitas destas áreas constituem ecossistemas marinhos vulneráveis devido à grande diversidade de espécies, algumas com longevidades de centenas ou milhares de anos e crescimento muito lento, e à presença de comunidades vulneráveis às plumas de mineração.
Marina Carreiro Silva, co-líder do grupo de investigação e especialista em corais de águas frias, também do Instituto Okeanos da Universidade dos Açores, refere: “É importante realçar que as plumas tóxicas de sedimentos poderão afectar organismos que se alimentam de partículas na coluna de água, entupindo as suas estruturas alimentares e causando asfixia. Por outro lado, os sedimentos e a toxicidade dos metais associados às partículas afectam as funções fisiológicas de corais e peixes podendo levar à sua morte.”
Na semana em que se realiza a Conferência dos Oceanos das Nações Unidas, em Lisboa, onde foi discutida a possibilidade dos Estados-membros acordarem uma moratória sobre a exploração mineral do mar profundo, os resultados deste trabalho reforçam a necessidade de continuar a avaliar os potenciais impactos da exploração mineral do mar profundo antes de se começar a equacionar a sua regulamentação.
Os investigadores do Okeanos da Universidade dos Açores esperam que estas descobertas sejam consideradas em futuras políticas de conservação e gestão do mar profundo, nomeadamente no que diz respeito à conservação de ecossistemas marinhos vulneráveis, conforme a nota enviada às redacções.

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Autor: CA

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