“Ao conservarmos o priolo estamos a conservar toda a biodiversidade e laurissilva dos Açores”, diz a cordenadora da SPEA na Região

Correio dos Açores – A contagem aos priolos realizou-se ao longo dos dias 27 de Junho e 1 de Julho.Que balanço faz este ano?
Azucena de La Cruz Martín (Coordenadora SPEA Açores) – A contagem, propriamente dita, foi realizada no dia 30 de Junho. Nos primeiros dias fizemos formação. Os primeiros dias são preparatórios. Muitas vezes, os voluntários são pessoas que nunca viram um priolo, pelo que têm que aprender a identificá-lo e a medir a distância a que a ave se encontra. Portanto, há três dias de treino e preparação dos voluntários, sendo que a contagem é efectuada ao quarto dia. 
Conseguimos cobrir os pontos todos que esperávamos na realização da contagem. Em termos de resultados, não conseguimos logo após a contagem ter uma estimativa. Os resultados têm que ser analisados posteriormente. O número de priolos que observamos nos pontos não é directamente proporcional à população estimada. Esta é uma análise que fazemos depois. Em termos daquilo que se pretendia, que era cobrir os pontos todos na área e ter voluntários capazes de identificar os priolos e medir as distâncias, consideramos que o balanço foi positivo. 

Qual a importância desta iniciativa?
A importância da iniciativa é que nos permite ter uma estimativa mais aproximada do tamanho da população de priolos. Todos os anos, a SPEA faz o censo da proliferação desta ave, para termos uma noção do estado da espécie, porém apenas o Atlas permite-nos fazer uma fotografia instantânea. Enquanto que, todos os anos, temos um técnico durante um mês a contar os priolos, ao longo da serra, com 50 voluntários conseguimos fazer esta contagem num dia só. No âmbito dos projectos que fomos tendo para conservação do priolo, sempre mantivemos a monitorização do priolo anual. Portanto, a contagem dos priolos não é só realizada de quatro em quatro anos. O Atlas é que é efectuado com esta periodicidade. 

Quantos voluntários participaram este ano  e qual a origem dos participantes? 
No total tivemos 55 pessoas, entre voluntários, estagiários e pessoal da SPEA.
Tivemos muitas pessoas de Portugal Continental e muitos espanhóis. Alguns destes estavam nos Açores e outros vieram de propósito. Nos outros anos, tivemos pessoas de outros países. Este ano foram, essencialmente, portugueses e espanhóis. Tivemos, igualmente, alguns participantes de cá. 
A média de participantes foi superior em relação ao Atlas realizado há quatro anos?
Temos que ter um mínimo de 50 participantes, de forma a conseguirmos cobrir os pontos todos. Portanto, temos sempre que ter entre 50 a 55 voluntários.

Como é realizada a contagem?
A contagem é feita por equipas. Temos uma série de monitores, que são pessoas especializadas e que trabalharam com o priolo. Cada monitor tem uma equipa e carrinha própria, e distribui a sua equipa, atribuindo a cada voluntário um conjunto de pontos para percorrer. Essa parte é feita a pé. 
O monitor deixa o voluntário no início do percurso e este faz o percurso, a pé, pelos vários pontos. Uma vez que encontra o ponto identificado, pára e faz uma contagem de oito minutos. Quando conclui a contagem, avança até ao próximo ponto para fazer nova contagem de oito minutos.

Faz uma ideia acerca do total de priolos existentes em São Miguel?  
De acordo com os censos anteriores, se a população se manteve, temos à volta de mil priolos. Relativamente a este ano, saberemos depois de fazer o tratamento dos dados. 

Onde se podem observar os priolos?
Nos municípios do Nordeste e da Povoação. Em geral, na Serra da Tronqueira. Recomendo, às pessoas interessadas em ver o priolo, que passem primeiro pelo Centro Ambiental do Priolo, pois existe um mapa com as últimas observações. 
Quais as ameaças existentes ao priolo? 
As ameaças ao priolo são, principalmente, as espécies exóticas invasoras. Hoje em dia, achamos muitas destas plantas comuns nos Açores. Mas, na realidade, vieram de fora e já estão muito estendidas, como o caso da conteira, da clethra, do gigante, do incenso. Ora, estas plantas crescem no meio da Laurissilva e reduzem a disponibilidade de alimento para o priolo. Outra ameaça são os ratos e os murganhos que podem predar os ninhos e os ovos. As ameaças são, basicamente, flora invasora e mamíferos invasores.   

Qual a importância do priolo no ecossistema de São Miguel?
O priolo é uma espécie bandeira e que simboliza a conservação de uma área de habitat muito maior. Para conservarmos o priolo, temos que conservar toda a Laurissilva e toda a biodiversidade associada à floresta. A floresta Laurissilva é a floresta original dos Açores, que havia nas ilhas antes de os primeiros povoadores cá chegarem. Ao conservarmos o priolo estamos a conservar toda a biodiversidade dos Açores. 
Esta é a importância que o priolo tem. É o símbolo da conservação de uma biodiversidade muito mais alargada, que fornece alguns serviços às pessoas, nomeadamente em termos de qualidade e disponibilidade de água doce, redução do risco de derrocadas, ou seja, a vegetação natural assegura o solo e reduz o risco de deslizamentos, entre outras.

Têm controlo sobre os ninhos?
Os ninhos de priolo são difíceis de encontrar. Já encontrámos alguns, mas muito poucos e verificamos que o ninho foi predado. Portanto, sabemos que existe este risco de o ninho ser predado por ratos e murganhos.                      
 
Com que apoios contaram para a realização da iniciativa?
O IV Atlas do Priolo é um projecto complementar do LIFE IP AZORES NATURA, financiado pela Direcção Regional da Ciência e Tecnologia, no âmbito dos projectos de ciência cidadã e tem o apoio da Direcção Regional do Turismo. O IV Atlas contou, ainda, com o apoio da Câmara Municipal de Nordeste, da Escola Básica e Secundária do Nordeste, da Wayzor, da Accional, da Yoçor, da Lactaçores e do Hotel Terra Nostra.  

Que condições são necessárias para participar e, claro, falamos de próximas edições?
Para participar no Atlas não é necessário ser um observador de aves experiente, apenas tem de se ter mais de 18 anos e a participação é gratuita. Como referi, os primeiros dias são dedicados à formação e ao treino dos voluntários. 
A SPEA assegurou o alojamento e a alimentação durante a formação e realização do Atlas. O alojamento foi em acantonamento na Escola Primária do Nordeste e a alimentação, durante o trabalho de campo, foi piquenique. A SPEA disponibilizou transporte, desde o aeroporto até o alojamento, nos dias 25 e 26 de Junho.                
                  Carlota Pimentel  
 

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Autor: CA

Categorias: Regional

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