“Será preparado até final de 2023 um posto de Lançamento Suborbital”, afirma coordenador da Estrura de Missão dos Açores para o Espaço

Com o objectivo de discutir o futuro da preservação e exploração do planeta, iniciou ontem no Teatro Micaelense a GLEX Summit 2022, recebendo vários cientistas que partilharam com o público as tecnologias e as inovações que abrem caminho nas investigações realizadas em vários domínios, deixando no ar a pergunta “O que se segue?” (“What’s Next?”)
Durante a manhã de ontem, os trabalhos desenvolvidos no Espaço pelos cientistas convidados concentraram todas as atenções, abrindo também lugar para a intervenção do novo Coordenador da Estrutura de Missão dos Açores para o Espaço, Paulo Ricardo Quental, que deu a conhecer aos participantes e cientistas que marcaram presença no evento mais sobre a Estratégia dos Açores para o Espaço, trabalhada, sobretudo, a partir da ilha de Santa Maria.
Assim, conforme explicou, “devido à sua longa pista do aeroporto, Santa Maria será o ponto de acesso e um ponto de retorno do espaço, onde além das instalações de pouso do ‘Space Rider’, será desenvolvido um Centro Tecnológico Espacial que incluirá instalações de processamento de carga útil e outras instalações de apoio”, que estarão preparadas para atender à operação de HAPS, bem como de aviões espaciais e sistemas de lançamento horizontal, prevendo-se ainda uma instalação de teste de componentes de motores e foguetes.
Assim, no que diz respeito ao acesso ao Espaço, o novo coordenador adiantou nesta ocasião que “para além da vontade de instalar um porto espacial de lançamento vertical, será preparado até final de 2023 um posto de Lançamento Suborbital”, estratégia esta que, segundo Paulo Ricardo Quental, “está focada na atracção de operadores privados e investidores, para assegurar modelos de negócio sustentáveis que possam impactos nas nossas ilhas”.
Neste sentido, adianta que serão bem-vindas “todas as empresas e investidores, estando de momento a trabalhar em estreita colaboração com a Agência Espacial Portuguesa, com o apoio da Agência Espacial Europeia, através das quais reafirma a centralidade atlântica da Europa nos Açores, uma vez que “a nova ordem internacional comprova que a Europa necessita dos Açores para atingir os seus objectivos relacionados com a autonomia e resiliência também na área do Espaço”.
Conforme adiantou nesta ocasião, o Espaço representa a diplomacia e é uma ferramenta para fomentar a cooperação, criando sinergias entre parceiros, sendo que Portugal, através dos Açores, tem também o desejo de cooperar na arena internacional de desenvolvimento, com o sentido de desenvolver a Nova Indústria Espacial, em direcção a uma resiliência europeia que fomenta a inovação e que tem em conta também alguns dos desafios diários, como os oceanos. Assim, deu a conhecer as diversas infra-estruturas terrestres que existem nos Açores com capacidade para trabalhar nesta área, como é o caso da ilha de Santa Maria, que é parceira de projectos como o Galileo, Copernicus, ESA e outros operadores privados.
Destacou o papel da infra-estrutura da RAEGE, na ilha de Santa Maria, onde é operado um telescópio para detecção de detritos espaciais, que em breve terá também um radar de detecção de detritos totalmente operacional, sem esquecer o centro de operações de Vigilância e Seguimento Espacial da União Europeia na Ilha Terceira, sendo necessário “avançar para o próximo passo em Santa Maria e nos Açores”.

“Os Açores no centro do mundo”

Para além de adiantar que sente “os Açores como o centro do Mundo” nesta reflexão científica, uma vez que esta semana se concentram na ilha de São Miguel vários cientistas ligados à exploração terrestre, espacial e oceânica, José Manuel Bolieiro aproveitou esta ocasião para referir o bom exemplo que os Açores são em termos de “desenvolvimento sustentável”.
“Estes exploradores de base científica encontram nos Açores um exemplo de uma situação de esperança para o mundo, e nós, claro está, aproveitamos esta circunstância com cientistas, líderes da opinião mundial da ciência, relativamente ao nosso estado de arte e, sobretudo, da nossa perspectiva, numa economia valorizadora da nossa natureza, da genuinidade, de um desenvolvimento sustentável”, adiantou aos jornalistas presentes na sessão de ontem do Glex, no Teatro Micaelense.
No futuro, refere que o Governo Regional dos Açores estará “sempre de braços abertos para os receber, valorizar os Açores como um exemplo para o mundo e, naturalmente, aproveitar a chegada destes cientistas para dimensionar, através da honorabilidade, da notoriedade dos Açores para o resto do mundo”.
No que diz respeito ao Porto Espacial de Santa Maria, José Manuel Bolieiro realça que está a ser desenvolvida nos Açores, com base na ciência, “uma dimensão arquipelágica e de futuro com a ciência”, salientando que se está a potenciar “o desenvolvimento dos Açores com a fixação de talentos e a oportunidade de dar ciência ao nosso desenvolvimento e à nossa posição geo-estratégica”. Destacou, no Grupo Oriental, “o desenvolvimento de uma estratégia de observar o Espaço a partir da terra”, e no Grupo Central os trabalhos desenvolvidos para “tentarmos conhecer melhor a nossa condição terrestre a partir do espaço, com a interpretação de dados com imagem de satélite, para um verdadeiro desenvolvimento de uma economia de precisão”.
No futuro, salienta, é necessário “encontrar uma boa interacção, não só do nosso projecto Açores, como também no quadro do projecto nacional, bem como no contexto da integração europeia”, sendo este o “novo impulso” a dar. Nesta ocasião esteve também presente Rita Marques, Secretária de Estado do Turismo, Comércio e Serviços, que, na sua curta intervenção, elogiou a escolha dos Açores como palco para a realização deste evento neste ano, devido à sua ligação estreita com a sustentabilidade e com a biodiversidade existente, tal como acontece a nível nacional.

“A erupção do vulcão dos Capelinhos foi um modelo para estudar outras ilhas”

Subiu ao palco do Glex para dar a conhecer o programa Davinci, mas o Cientista-Chefe na NASA, adiantou aos jornalistas presentes no evento que os Açores são “ilhas muito especiais”, uma vez que se trata também de “laboratórios” que podem ser utilizados “para apreciarmos a terra e os oceanos”, sem deixar atrás o Espaço, também já em exploração. 
Entusiasmado, James Garvin salientou que ver “vulcões e oceanos a interagirem, novas terras, novas histórias e o nascimento da vida” leva também a pensar na forma como “algumas das origens de vida complexa surgiram”, e que, no caso dos Açores, “a erupção do vulcão dos Capelinhos foi um modelo para estudar outras ilhas. Recentemente, uma ilha em Tonga explodiu e a sua explosão foi como a dos Capelinhos. Portanto, aprendemos com o passado e, nos Açores, temos a história do vulcanismo, com pessoas a viver entre uma linda flora e vegetação, e entre o mar profundo, tudo num sítio só.
Nesta ocasião, o cientista aproveitou para partilhar com os participantes deste evento a missão que está a ser preparada para que, já em 2029, seja possível – por intermédio de naves espaciais e robots – atravessar a tóxica atmosfera de Vénus, sendo este um projecto da NASA avaliado em 1 bilião de euros.
“A nossa missão será lançada em 2029, irá dar duas voltas ao sol, a mapear Vénus cada uma das vezes, e depois aterrará em Junho de 2031. Levamos muito tempo a construir essas missões. Temos 2 mil pessoas a trabalhar apenas neste projecto da NASA com investigadores de vários países, como França e Itália, e temos outros parceiros a construir pequenas peças para a nossa Missão, bem como três naves espaciais a serem construídas à volta do mundo.
Após Marte, James Garvin adianta que Vénus deve ser explorado por ser “o planeta irmão” do planeta Terra, uma vez que, em tempos, antes de se tornar extremamente quente e tóxico, pode ter tido vida – através da presença de oceanos – tal como a Terra.
“Não pensamos que a Terra poderá tornar-se igual a Vénus, será muito difícil fazer isso, mas podemos perder mais dos nossos oceanos. Há mares que já se perderam no Cazaquistão, estava lá nos anos 80 e havia um grande mar que agora não existe (…). Com Vénus, existe uma história diferente, mas uma história que podemos voltar a ver para aprender com ela”, conclui.

Exploradores devem continuar investigações para “unir e 
harmonizar” a sociedade

Um dos convidados desta conferência, foi o balonista e psiquiatra suíço, Bertrand Piccard, parte de uma terceira geração de exploradores, que, por estar a trabalhar na reconstrução de uma Ucrânia marcada pela guerra, não pôde estar fisicamente presente em Ponta Delgada para partilhar a sua experiência.
Detectando várias dificuldades na sociedade actual, cada vez mais fragmentada e com intervenientes cada vez mais distantes uns dos outros, Piccard lança a questão “Qual o papel dos exploradores do século XXI?”.
Neste sentido, defende que os cientistas devem continuar os seus trabalhos de exploração nas várias áreas do conhecimento a que se dedicam, com o sentido de poderem ter um papel activo na unificação da sociedade, “para trazerem mais conhecimento, e mais harmonia”, salientando que, por seu turno, os investigadores existem “para serem úteis” para a sociedade.
Rosaly Lopes, vulcanológica planetária, é cientista-chefe da Directoria de Ciência Planetária do Laboratório de Propulsão a Jacto da NASA (JPL), Instituto de Tecnologia da Califórnia, com investigação feita na área da geologia planetária e terrestre e vulcanologia.
Com o público que assistiu às conferências da manhã de ontem, a investigadora brasileira partilhou os trabalhos feitos através da missão Galileo, através da qual estudou a lua vulcânica de Júpiter, Io, uma lua com muitos vulcões com lava quente na superfície, onde existe a Loki Caldera, a maior depressão vulcânica desta lua, que foi também estudada pela investigadora que chegou a ser mencionada no “Guinness Book of World Records de 2006”, como a descobridora de mais vulcões activos em qualquer lugar, ao identificar 71 vulcões activos na lua Io.
Seguindo o tema da conferência, “What’s Next?”, a vulcanóloga defende a realização de “mais estudos nestes vulcões extraterrestres”, inclusive noutros sistemas solares para além daquele em que se insere o planeta Terra. Defende também a importância de se estudarem as plumas de encélado, da lua de Saturno, visíveis no espaço, uma vez que este pode ser “um ingrediente que mostre presença de vida”.
Em seguida, Nicole Stott, artista, astronauta e aquanauta, falou ao público sobre o papel que a arte tem no Espaço, partilhando que durante as suas missões era frequente os astronautas dedicarem algum do seu tempo livre à música e, até, à pintura ou ao desenho.
Assim, actualmente, trabalha com crianças e jovens em risco, que contribuem com a sua criatividade na realização de fatos de astronautas coloridos, compostos pelos pequenos desenhos de cada um dos participantes deste seu projecto.
Por outro lado, Cady Coleman, ex-astronauta da NASA formada em Química, falou ao público sobre a importância de tornar o Espaço acessível a todos, partilhando a sua história de ascensão que lhe permitiu acumular mais de 180 dias passados no espaço.
Joana Medeiros
 

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Autor: CA

Categorias: Regional

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