5 de julho de 2022

Opinião

A Universidade dos Açores tem uma Reitora Magnífica

Vestiu as suas melhores galas a nossa Universidade, na passada terça-feira, para a investidura da nova Reitora Magnífica da Instituição, Professora Doutora Susana Mira Leal. E o acontecimento, que realmente faz História, por ser a primeira vez que uma mulher assume tal cargo na Universidade dos Açores - e também não tem havido muitas mulheres a exercer tais funções nas Universidades Portuguesas - teve abundante eco na Comunicação Social, como de resto merecia. 
Não me refiro apenas aos relatos da cerimónia, cujo variado programa fez passar depressa a sua expressiva duração, mas também aos comentários de alguns dos habituais colunistas do nosso meio, dos quais lembro Vasco Garcia, Álvaro Dâmaso, Jorge Macedo, e até editoriais em vários periódicos, todos concordantes no sublinhar da importância da Universidade no projecto de afirmação dos Açores e da necessidade de atender aos problemas que enfrenta e garantir-lhe os meios indispensáveis à prossecução dos seus fins.
A Universidade dos Açores foi criada em Janeiro de 1976, ainda antes portanto das nossas Instituições Políticas de Governo Próprio, com a designação de Instituto Universitário. Foi só em 1980 que o Governo presidido pelo então Primeiro Ministro Francisco Sá Carneiro, a instâncias do Governo da Região Autónoma dos Açores ao tempo em funções, lhe atribuiu o título de Universidade, colocando-a sob a tutela da própria Região. Mais tarde, e conforme o desejo insistentemente formulado pelos respectivos órgãos dirigentes, tal tutela passou para o Governo da República e a Universidade dos Açores tornou-se parte integrante do sistema universitário nacional, o que na prática já acontecia, tendo desde o início o Magnífico Reitor assento no Conselho de Reitores das Universidades Portuguesas. O orçamento da Universidade passou então para a responsabilidade do Ministério competente, alteração que viria a revelar-se  nem sempre favorável às necessidades pela mesma sentidas.
Ter ensino universitário nos Açores foi uma inovação de altíssimo significado. Tornou-se mais fácil a qualificação dos quadros de que as nossas Ilhas careciam para a nova fase de desenvolvimento e muitas pessoas se prestaram a retomar um percurso académico que as circunstâncias anteriores não lhe tinham tornado possível. 
Além disso, a Universidade, mesmo nas precárias instalações iniciais, empenhou-se em formar um corpo docente com prestígio, recrutando professores de fora, mas abrindo também, mediante concursos exigentes e com júris contendo professores de outras universidades, as portas de acesso aos vários graus da carreira académica a jovens açorianos, alguns deles já com doutoramentos obtidos em Portugal ou mesmo no estrangeiro. 
O objectivo de uma Universidade capaz de “cientificar”, na expressão do seu primeiro Reitor Magnífico, o Professor Doutor José Enes, as realidades açorianas foi-se consolidando a pouco e pouco, ganhando a nossa Universidade prestígio dentro e fora de portas e tornando-se assim uma peça chave na afirmação dos Açores perante Portugal, a Europa e o Mundo. 
A natural sucessão de Magníficos Reitores trouxe de cada vez sangue novo e novas ideias à nossa Universidade. E assim, com o decurso do tempo, cresceram as instalações, dentro e fora do “campus” universitário, com beleza e qualidade. Aliás, desde o início a Universidade dos Açores aceitou o desafio, natural no nosso Arquipélago, de se repartir, sem se dividir, por várias ilhas, diversificando a sua oferta de cursos conforme as aptidões próprias de cada uma delas. Esta aposta apresenta dificuldades, que têm sido encaradas como desafios a superar, e pode considerar-se que, tal como outras, também foi ganha.
O Reitor Magnífico cessante, Professor Doutor João Luís Gaspar, bem acompanhado pela equipa que escolheu, enfrentou com meritória coragem as dificuldades derivadas da pandemia, bem como, e talvez até mais graves, as decorrentes das regras financeiras draconianas impostas pelos governos da República que se foram sucedendo no tempo dos seus mandatos. A Universidade sofreu com o aperto, mas está viva e em condições de atirar-se, com a nova equipa reitoral, que tem marcas de natural continuidade, aos novos tempos que a esperam.
A nova Reitora Magnífica elencou algumas das suas prioridades no discurso de posse. Relevo a importância dada ao crescimento do número de alunos e à internacionalização da Universidade. Este último aspecto é particularmente importante. Julgo que não se faz ideia, fora da Universidade, da quantidade e origem dos alunos estrangeiros que estudam connosco, ao abrigo do Programa Erasmus. É urgente tornar a nossa Universidade ainda mais atractiva para tais estudantes! E também para professores estrangeiros que venham ensinar aqui por algum tempo, trazendo-nos saber e prestígio.
 Tal como se deve providenciar para que os jovens dos Açores optem por frequentar a nossa Universidade, apontando sempre à possibilidade de saírem daqui para fazerem estudos complementares em universidades nacionais ou estrangeiras e nestas também um semestre, pelo menos, nos termos do já referido Programa Erasmus. O Governo da nossa Região Autónoma e as Autarquias Locais, nos seus programas de apoio e de bolsas de estudo, bem podem dar prioridade às candidaturas à Universidade dos Açores.
A Universidade tem de ser estimada pelas Autoridades Democráticas e pelos Açorianos em geral. Por seu turno, ela tem de abrir-se mais à sociedade açoriana, atraindo-a para as suas aliás valiosas e inúmeras iniciativas, que por vezes, lamentavelmente, quase têm passado desapercebidas. Eis uma tarefa a ter em conta pelos responsáveis da nova equipa reitoral pelo pelouro das relações públicas e divulgação da Universidade.

João Bosco Mota Amaral

(Por convicção pessoal, o Autor não respeita o assim chamado Acordo Ortográfico.)    

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