Biólogo garante que o mar dos Açores é inigualável na Europa e dos melhores sítios do mundo para observar cetáceos e mamíferos marinhos

Correio dos Açores – Como surgiu a ideia de lançar um livro infantil e bilingue?
João Tavares (biólogo) - Surgiu no contexto de um projecto, desenvolvido pela Universidade dos Açores, de criar uma plataforma onde os professores do ensino secundário, primário e pré-escolar pudessem encontrar materiais educativos sobre a literacia do oceano. No fundo, fui contratado para fazer materiais educativos que os professores pudessem utilizar nas aulas. Esse repositório teve vários nomes, acabando por se designar Re-Mar.
Em discussão com a equipa da Universidade dos Açores, falaram-me na necessidade existente de materiais sobre a literacia do oceano para um determinado escalão etário, nomeadamente pré-escolar e primária, pois não havia. Fiz uma proposta aos meus colegas de fazer esta história e um plano de aula com uma série de actividades. Então, desenvolvi o livro, em versão portuguesa original, e o plano de aula com várias actividades para os miúdos. Podem encontrar ambos através do seguinte: re-mar.uac.pt.   
No processo de divulgação, tentando com que chegasse ao maior número de pessoas, os materiais foram submetidos a uma plataforma pública mais abrangente, denominada Casa das Ciências. Todos os anos, é aberto um concurso para os recursos educativos que são colocados na plataforma. O livro “Mostra-me o Mar” recebeu o prémio de melhor recurso educativo, juntamente com a ficha de plano de aula para os professores, relativamente ao ano de 2020.
Como o livro só existia em formato digital, encontrou-se um acordo com a editora Letras Lavadas de publicar o livro em formato impresso. Na altura, surgiu a hipótese de ser um livro bilingue, com uma versão em português e outra em inglês, no mesmo livro. Se virmos o livro de um lado, tem a versão em português e se virarmos o livro ao contrário, em vez de ter a contracapa, tem a capa em inglês, formando dois livros num só, com as duas línguas.
Quisemos alargar o público, o mais possível, para o livro chegar mais longe, a outros países. Além disso, pessoas que visitam os Açores e trazem crianças, podem mostrar-lhes a riqueza do mar dos Açores, conseguindo ter acesso à história. A escolha do inglês passou por ser uma língua franca para as pessoas de quase todo o mundo.
Eu concebi a história, as ilustrações, o design gráfico e fiz uma primeira versão da tradução. Mas, tive a ajuda de um tradutor, Richard Billington, para os termos que mais comuns na língua inglesa, isto é, mesmo não estando incorrectos, há palavras em inglês que são mais fáceis de entender, pelas crianças, do que outras.  

Quando houve a oportunidade de passar do formato digital para o físico?
A impressão em papel não seria possível sem a participação da editora Letras Lavadas, pois o projecto não tinha dinheiro para fazer a impressão do livro. O nosso trabalho ia ficar apenas pela edição digital. A iniciativa de publicar foi da editora do Senhor Ernesto Resendes.
Na verdade, quem tinha acesso ao formato digital sentia a necessidade de imprimir ou de ter um tablet para mostrar o livro. Quando falava com os meus amigos sobre o livro, perguntavam-me onde podiam comprar. Toda a gente queria em formato impresso. É perfeito, dá para a população local e também dá para os turistas.
Importa referir que a editora Letras Lavadas teve a iniciativa de imprimir e criar uma edição bilingue em português e ucraniano, a propósito da guerra na Ucrânia, como uma oferta para a AIPA - Associação dos Imigrantes nos Açores.

Sendo o público-alvo as crianças dos três aos cinco anos, faz sentido que fosse lançado neste formato…   
Estar num tablet ou num telemóvel é sempre menos interessante. O livro assinala que é dos três aos cinco anos e foi desenvolvido para essa faixa etária, mas pode ser interessante para crianças um pouco mais velhas, até aos oito anos. Os meus filhos gostam de ver os desenhos e o meu filho mais velho já tem nove anos.
Em “Mostra-me o Mar”, os desenhos ilustram a vida marinha dos Açores. O livro mostra vários exemplos e fala no nome local das espécies, como o mero, o caranguejo, entre outras. Aliás, algumas espécies não fazem parte da história, mas são mencionadas. Por exemplo, o pintado, que é outro nome para o tubarão baleia, é mencionado embora não seja propriamente uma personagem da história. Esta espécie ficou mais conhecida do público em geral, pois saiu recentemente o documentário “A Ilha dos Tubarões”.

A obra tem, essencialmente, uma mensagem de preservação ambiental e dos oceanos?
A obra está ligada à preservação dos oceanos para dar a conhecer a riqueza do mar dos Açores. Sou biólogo e cresci a ver documentários na televisão sobre sítios longínquos. Julguei que para ser biólogo teria que viajar muito e trabalhar locais distantes, mas na verdade, acabei por constatar que o mar do meu próprio país, especialmente o dos Açores, tem uma riqueza muito grande. O mar dos Açores é inigualável na Europa e está ao nível dos melhores sítios do mundo para observar cetáceos, mamíferos marinhos; tem uma cor que não se encontra na Europa Continental; é mais rico do que o Mediterrâneo, que é tido como um sítio de águas límpidas e transparentes, mas que não tem tanto peixe. Os Açores estão cheios de vida e este fascínio pela riqueza do mar dos Açores foi o que me levou a ilustrar este livro desta forma. Vi, ao vivo, todas as espécies que estão no livro. Foi algo que partiu da minha experiência pessoal, pela diversidade da vida.       

A história começa quando um caranguejo ajuda um mero preso à rocha, devido a um pedaço de plástico perdido no mar… A temática da poluição é uma componente forte no seu livro?
O mero está preso por um pedaço de plástico e o caranguejo corta o plástico, libertando o mero. Assim, nasce uma dívida de gratidão e uma amizade entre as duas personagens. A poluição é um assunto importante, porém é tratado “ao de leve” no livro, pois este é suposto ser muito simples e linear, por causa da idade a que se destina. O tema da poluição é tratado mais a fundo no plano de aulas.    

Qual a importância de as crianças perceberem que o mar é vida e alimento?
É muito importante que as pessoas percebam que o mar não é só água. As pessoas, ao observarem o mar de fora, vêem uma imensidão azul, todavia não vêem o que está no fundo.
Tenho, desde criança, um fascínio para o mergulho. Queria conhecer toda a riqueza que não conseguia ver. Apesar de ser muito grande e fascinante, o mar não é infinito e o ser humano está a pôr o oceano em perigo.
O oceano é um dos maiores factores de resistência às alterações climáticas, absorvendo o excesso de calor que surge todos os anos. Ou seja, o oceano faz com que as temperaturas não sejam tão elevadas quanto poderiam ser. Apesar de ser uma espécie de escudo de protecção que o planeta tem contra as alterações climáticas, estamos a degradá-lo e a estragá-lo. Claro que não transmito isso às crianças no livro. O meu objectivo, com este livro, é que as crianças criem um fascínio pelo mar, de forma a que queiram fazer algo para protegê-lo, quando tiverem capacidade de perceber estes detalhes, nomeadamente como o mar nos protege, nos dá alimento e cria um planeta melhor para nós.

Que papel uma universidade como a dos Açores pode ter como elo de ligação à comunidade, especialmente numa faixa etária tão específica?
Não sou a pessoa mais indicada para responder a esta questão. Contudo, a minha visão é que a universidade tem um papel na sociedade que passa por, além de dar formação, criar um mundo mais educado, onde as pessoas sejam capazes de pensar sobre aquilo que as rodeia e de tomar decisões responsáveis. Ao contribuir para melhorar o ensino nos níveis mais básicos, a Universidade dos Açores está a cumprir o objectivo das universidades que é fazer as pessoas pensarem sobre o mundo e agirem da melhor maneira possível sobre ele.
      
Em que medida a ciência está ao serviço da leitura?
No caso de “Mostra-me o Mar”, tentei criar um texto que fosse específico, de um ponto de vista linguístico, das ideias que estão lá representadas. O texto retrata experiências e coisas, cuja interpretação vem do meu currículo científico, enquanto biólogo. Quando estive debaixo de água e a trabalhar a bordo de navios de pesca, vi o mundo à minha volta numa perspectiva diferente, questionando-me sobre várias coisas. Este background científico ajuda-me a interpretar e a perceber quão fascinantes são as coisas que acontecem ao meu redor.
Durante uma fase da minha vida, mergulhava assiduamente, e quando o fazia, ficava fascinado por estar debaixo de água e descobrir os nomes dos peixes, das algas, entre outras. Tentei passar estas experiências e conhecimento para o meu livro.
A pesca do atum nos Açores é algo digno dos documentários do National Geographic. Os pescadores encontram o atum, vendo a forma como os cagarros voam. Esta observação acontece, às vezes, a quilómetros de distância, recorrendo ao uso de binóculos. Considero isso interessantíssimo.  

Há algo mais que queira referir?
Tive um papel em todas as partes da construção do livro, desde a história, até à tradução. Porém, o livro foi o resultado de um trabalho de equipa. Deram-me as suas opiniões, ajudando-me a melhorar os conteúdos e a forma como expunha as ideias. Sou o autor, mas sinto que foi um trabalho partilhado, com várias pessoas, cujos nomes se encontram no livro. A maior parte faz parte da Universidade dos Açores.  

Carlota Pimentel

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Autor: CA

Categorias: Regional

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