Casal troca ritmo de vida acelerado no Dubai para desenvolver conceito e alma do Louvre Michaelense

Desde Outubro de 2020 que o Louvre Michaelense Bar Bistro Mercearia se encontra nas mãos de Tatiana Pertegato e de Maxime Le Van, ela uma bartender italiana e ele um chef francês, que, juntos, trabalham na evolução do conceito deste espaço único na ilha de São Miguel, sem o descaracterizar.
Tatiana nasceu e cresceu em Itália, mas aos 18 anos começaria a sua jornada por diversos países europeus, como Reino Unido e Espanha, mudando-se em 2014 para o Dubai onde, no ano seguinte, conheceria o seu marido, chef no mesmo restaurante em que a empresária trabalhava enquanto bartender.
Quanto a Maxime Le Van, este deixou também a sua terra natal relativamente cedo, chegando a trabalhar num restaurante que foi distinguido com duas Estrelas Michelin em Londres, quando tinha cerca de 20 anos de idade. Depois de cerca de oito anos a viver em Inglaterra, partiria para o Dubai.
Apesar de trabalharem na mesma cidade, conta Tatiana Pertegato, a verdade é que, devido ao ritmo acelerado da cidade árabe, a verdade é que este casal tinha pouco tempo de qualidade em conjunto, o que, ao fim de alguns anos, contribuiu em grande escala para que começassem a pensar na urgência de mudar de vida.
“Durante a nossa estadia no Dubai, sentíamos a necessidade de mudar de vida. Precisávamos de dar muito ao nível da carreira. O trabalho pode dar muita satisfação, mas requer muito de nós, portanto, no Dubai chegávamos a trabalhar 12 horas por dia, seis dias por semana. Era um volume muito grande de trabalho e, obviamente, depois de vários anos neste ritmo, eu e o Maxime sentimos que precisávamos de uma mudança e de nos sentirmos mais realizados de outra forma sem ser através do trabalho. Em parte, estávamos também cansados de trabalhar por conta de outrem, queremos trabalhar para nós com a nossa ideia e com a nossa filosofia”, explica.
Dariam então início a um processo “muito democrático” que viria a ditar o local onde o casal passaria os próximos anos – de preferência num local mais calmo – e, para isso, recorreram a um quadro branco e a um motor de busca na internet que os permitisse explorar alguns dos locais que foram surgindo na lista que foram construindo.
“A escolha pelos Açores foi muito democrática. Pegámos num quadro branco e começámos a escrever o que tinha que ter o sítio para onde queríamos ir. Tinha que ter mar, lagoas, montanhas, verde, qualidade de vida e tinha que nos dar a oportunidade de expandir e de receber turistas. No fim, as opções resumiram-se à Nova Zelândia e aos Açores”, conta a bartender.
Terminado o debate entre os dois, ganharia a ilha de São Miguel, porque – para além de reunir todas as qualidades procuradas pelo casal – permitir-lhes-ia também ficar mais próximos da família de ambos, concentrada entre França e Itália, os países de origem destes empresários.

Do Dubai para o meio do Atlântico

Uma vez que o casal se encontrava noivo, Maxime Le Van e Tatiana Pertegato pensaram que esta poderia ser uma oportunidade perfeita para, além de darem o nó no meio do Atlântico, virem conhecer um dos destinos da sua lista final. E foi assim que, em Julho de 2019, depois de prepararem o casamento à distância, através de uma planeadora de casamentos, chegaram pela primeira vez à ilha de São Miguel.
O casamento decorreu no Sul Villas & Spa, na Lagoa, e devido à extensa lista de convidados – que entre familiares e amigos somou 14 nacionalidades diferentes – o espaço foi reservado na totalidade pelos noivos. Esta foi, conforme conta a italiana, uma forma de “apresentar as famílias à ilha no caso de se concretizar a mudança”, e desta cerimónia resultaria uma amizade importante com Eduarda Mesquita que, mais tarde, acabaria por ajudar o casal na sua transição para o arquipélago.
Enquanto isso, Maxime Le Van e Tatiana Pertegato passariam a lua-de-mel passando por várias ilhas açorianas, nomeadamente Pico, Terceira e Flores, ilha que, num primeiro momento, encantou Maxime pela sua beleza mas que, para Tatiana, não era a “casa” com que ambos ambicionavam.
Depois deste período passado a conhecer algumas das ilhas dos Açores, o casal voltou ao Dubai, que, tal como o resto do mundo, viria a sofrer com as consequências dos sucessivos confinamentos provocados pela pandemia, levando ao encerramento “por completo” do restaurante onde trabalhava Tatiana Pertegato.
Em Março de 2020, conta a bartender, o casal havia já decidido que viria para São Miguel, onde pretendia abrir um novo restaurante, dando assim início a um projecto próprio. Porém, com o encerramento do seu local de trabalho, e confrontada com a necessidade de colocar os sonhos do casal em pausa, Tatiana acabaria por aceitar uma proposta de trabalho em Brno, na República Checa, onde durante vários meses trabalhou para um amigo que ali abriu um restaurante.
Entretanto, em contacto com Eduarda Mesquita, sócia de Catarina Ferreira, a proprietária e impulsionadora do conceito do Louvre Michaelense, Tatiana pôde partilhar algumas das suas preocupações em relação à situação em que se encontrava o casal, sendo surpreendida com o facto de Catarina se encontrar, naquele preciso momento, à procura de alguém que pudesse gerir o negócio, na esperança de se poder dedicar a outros projectos.
Reestruturado recentemente, conforme conta Tatiana Pertegato, o objectivo deste trespasse seria o de dar a oportunidade a outras pessoas de darem continuidade à evolução do Louvre Michaelense, sem o descaracterizar. Assim, em Outubro de 2020, depois de o casal ter dado provas de que seria perfeito para gerir este espaço já tão característico da baixa de Ponta Delgada, acabaria por se mudar primeiro para São Miguel, onde começou também a aprender português, língua que hoje domina.
Porém, Maxime Le van e Tatiana Pertegato decidiram mudar o nome do estabelecimento para Louvre Michaelense Bar Bistro Mercearia, tendo em conta que, através das fotografias que lhes foram enviadas, logo perceberam o potencial que o espaço tinha para servir refeições únicas num local repleto de história e, também ele, único na ilha de São Miguel.
Entretanto, até 2021, o casal contaria também com o precioso apoio de Hugo Ferreira, chef que alargou o menu do Louvre Michaelense com pequenas refeições. Assim, de “um espaço que não abria muito durante a noite”, o bistro transformou-se num espaço que acolhe clientes para “almoços, jantares ou apenas para desfrutar de um cocktail”, sensação esta que faz com que o casal sinta hoje que todos os seus esforços “fizeram sentido”.
Conhecer a gastronomia local apresentou-se, por si só, como um desafio para este casal, uma vez que no Dubai era raro e difícil encontrar produtos frescos que não resultassem da importação, mas depressa acabaram por se entusiasmar com os produtos locais que se encontravam à sua mercê.
“Não conhecíamos muito a gastronomia local. Quando casámos, fomos a vários restaurantes e notámos que muitos sítios tinham a mesma coisa. Era tudo muito parecido e achámos que faltava alguma variedade. Desde o princípio, o que queríamos fazer era utilizar o produto local com uma gastronomia um pouco mais moderna. (…) Depois de vários anos no Dubai, onde tudo é importado, onde não há nada fresco e local, este é, para nós um paraíso”, diz Tatiana Pertegato, salientando, por exemplo, a utilização de peixe local nos pratos ali confeccionados, como o caso do atum, do lírio, ou da bicuda.
Quanto ao feedback dos clientes, salienta que, no início, notou algum “medo” da parte dos locais, uma vez que temiam que o conceito do Louvre Michaelense se perdesse, mas com o passar do tempo, salienta que este medo se esbateu, sobretudo devido à nova oferta que proporcionavam: “Durante a pandemia fizemos Lusco Fusco todos os fins-de-semana, ou seja, jantares temáticos. Como não se podia viajar nessa altura, fazíamos as pessoas viajarem através da gastronomia, tivemos jantar mexicano, indiano, italiano, francês, russo, tailandês, japonês, um trabalho muito grande, mas que para nós foi muito motivador e para os locais que estavam bloqueados aqui na ilha foi um sucesso”, relembra.

Encontrar pessoas qualificadas
continua a ser um grande desafio

Quanto aos desafios actuais, Tatiana Pertegato confirma os receios da restante restauração no que diz respeito à contratação de pessoas qualificadas ou interessadas em aprender na área da hospitalidade.
“É complicadíssimo encontrar pessoal, e continua a ser. Noutros países, falando com amigos, já começam a referir que há falta de pessoal, inclusive no Dubai, o que quer dizer muito. Depois da pandemia, no mundo em geral tivemos uma falha de pessoal, e não será fácil recuperar essas pessoas. (…) Mas há uma mistura entre falta de vontade e falta de formação. Há uma falta básica de formação, e quem tem um pouco de interesse tem falta de vontade, é sempre muito complicado. Precisamos de mais pessoas para a cozinha, aliás, há dois anos que precisamos de mais pessoas”, adianta.
Tendo esta situação em causa, a italiana salienta que este seria um debate “muito interessante”, uma vez que “é um paradoxo que uma ilha que tem agora muito turismo tenha uma lacuna de pessoas que trabalhem em hospitalidade”, referindo ainda que, por haver falta de recursos humanos formados nesta área, a hospitalidade tem-se tornado num autêntico “tanque de tubarões”.
Posto isto, a ideia de abrir um restaurante próprio na cidade de Ponta Delgada está, neste momento, em suspenso, embora o casal esteja actualmente a fazer consultoria para um restaurante italiano que irá abrir num novo hotel que deverá ser inaugurado no próximo ano.

Print

Categorias: Regional

Tags:

Theme picker