“A falta de emprego, de habitação e das condições de saúde são as principais condicionantes” na fixação de pessoas nos concelhos mais pequenos como o da Graciosa, diz o autarca de Santa Cruz

Correio dos Açores - Comparando os Censos de 2011 com os Censos de 2021, verifica-se uma diminuição da população nas ilhas mais pequenas dos Açores. A que se deve esta perda de população?
António Reis (Presidente da Câmara Municipal de Santa Cruz da Graciosa) - As ilhas mais pequenas têm menos hipóteses de absorver pessoas com formações específicas. Hoje em dia, grande parte dos nossos alunos quer prosseguir estudos em áreas do seu interesse e procura seguir os seus sonhos. Ao formarem-se em áreas específicas, as ilhas mais pequenas têm maior dificuldade em conseguir abranger todas as pessoas formadas, o que é normal. Ora, isto tem um efeito bola de neve, está tudo encadeado. Não absorvendo as pessoas, estas vão procurar oportunidades em ilhas maiores, ou mesmo no estrangeiro, e acabam por formar as suas famílias longe das ilhas mais pequenas, neste caso, da Graciosa.
Além de que as famílias estão cada vez menos numerosas. Antes, havia famílias com quatro, cinco, seis, sete e mais filhos. Agora, estas são casos raros. Hoje, as famílias têm um filho, dois filhos ou nenhum. Estas são algumas razões que justificam a diminuição da população.  

Considera que as condições de saúde nas ilhas mais pequenas têm influência?
Não tenho dúvida nenhuma que as condições de saúde são essenciais para que os jovens casais decidam fixar-se em determinados locais. Se as pessoas não se sentem seguras em relação ao Sistema de Saúde, é óbvio que isso prejudica a sua fixação, principalmente dos casais jovens, querem começar a sua família. Os casais jovens querem ter filhos e sentir segurança a esse nível. Considero que a questão da saúde é fundamental para apoiar a fixação das pessoas nos concelhos mais pequenos.

A falta de estímulos à habitação é um factor determinante na diminuição da população?
A questão da habitação será, talvez, um dos factores principais. É cada vez mais difícil para os jovens casais adquirirem ou construírem uma casa. Passa muito pelo arrendamento. Além disso, quando vão à procura de casa para alugar, a existência de um leque de oferta, que corresponda às suas expectativas, não é assim tão vasta. Ou seja, as pessoas estão mais exigentes, procuram casas com mais condições e estas são mais caras. Tudo isto dificulta a fixação das pessoas nos concelhos mais pequenos.

Os bens alimentares, cujo transporte é feito via marítima, demoram mais tempo a chegar… Considera que este aspecto condiciona a fixação das pessoas?
Acredito que há alguns anos isso pudesse ser preocupação, mas hoje em dia já não é. O transporte não é perfeito, porém não falta nada na Graciosa. O que não tem hoje, tem amanhã. Não considero uma condicionante, isto é, não é por aí.

O programa MOOV - Mobilidade, Ocupação e Orientação Vocacional pode ser uma ajuda na solução para o problema?
Este programa vai dar hipótese aos mais novos de conhecer outras realidades, o que poderá ser uma ajuda, no futuro, para fixar as pessoas nos concelhos mais pequenos. Por vezes, as pessoas têm dificuldade em vir para os concelhos mais pequenos por não os conhecerem. Refiro-me a quem vem de concelhos maiores. O programa MOOV facilita, pois possibilita os jovens a conhecer as outras ilhas e os outros concelhos, pelo que na sua devida medida poderá ajudar a fixar os jovens no futuro.

Além disso, o que se poderá fazer como forma de solucionar o problema?
Creio que uma aposta na habitação é fundamental. Os apoios à habitação são elementares. No caso da Graciosa, estamos a estudar uma estratégia local de habitação, procurando entender os eixos principais, nos quais temos de insistir para que possamos ajudar as pessoas a fixarem-se no nosso concelho.
A falta de oportunidades, a habitação e as condições de saúde são as principais condicionantes. A meu ver, estas são as três condições mais importantes para ajudar na fixação das pessoas.

E a criação de outros programas de emprego?   
Os programas de emprego são importantes, enquanto não conseguimos fixar as pessoas nos seus locais de trabalho. Contudo, creio que quando se dá início a um novo programa de emprego tem de ser sempre pensado o seu fim. Não se deve prolongar muito no tempo, como aconteceu nos últimos tempos, pois incorremos no risco de levar muitos jovens a uma ‘vida fictícia’, a pensar que estão empregados e, na verdade, estão em programas ocupacionais.
Como alternativa, estes programas têm que ser construídos na base da fixação das pessoas obrigatoriamente. Considero não é grande ajuda fazer as pessoas circularem de programa em programa, por décadas.   
Na Graciosa, apostar na resolução da habitação e da saúde será fundamental para os jovens casais escolherem um concelho como o nosso para se fixarem.   
        
 Carlota Pimentel *

 

Print
Autor: CA

Categorias: Regional

Tags:

Theme picker