Andreia Melo Carreiro integra grupo de sócios

Empresa açoriana Kinergy pretende acelerar a transição energética em ilhas

 Correio dos Açores – Pode fazer uma breve descrição do seu percurso académico?
Andreia Melo Carreiro - Em 2004, fui para a Universidade de Coimbra para frequentar o curso de Engenharia Biomédica. Depois, fiz o mestrado em Energia para a Sustentabilidade na mesma universidade e, após isso, acabei por fazer o doutoramento, em 2012, sobre Sistemas Sustentáveis de Energia no âmbito do programa  MIT (Massachusetts Institute of Technology) Portugal. Este programa consistia numa parceria entre Portugal, algumas universidades portuguesas e o MIT, nos Estados Unidos da América. Além disso, fiz algumas formações profissionais, na área da Energia e em gestão de projectos. Em 2021, fiz um MBA (Master in Business Administration), uma pós-graduação em Lisboa, que já concluí, entretanto.
Tirei Engenharia Biomédica e, quando terminei o curso, comecei a trabalhar em Inovação, ligada às áreas da Saúde e da Energia. Na verdade, a área da Energia despertou-me grande interesse e revelou-se muito mais entusiasmante, por todos os desafios que tinha pela frente. Por isso, é que acabei por me especializar nesta área. Trabalho apenas na área da Energia desde que acabei o curso, em 2009.    

O que a levou a ir da área da Biomédica para a área da Energia?
Gostei imenso do curso de Engenharia Biomédica, mas confesso que não gostava da componente médica do curso. Ao longo do curso, pensava muitas vezes como conseguiria aplicar o conhecimento de engenharia a algo que me despertasse mais interesse do que a área da Saúde. Depois, quando fiz o projecto final de curso, fi-lo num contexto empresarial, numa empresa de base tecnológica, a ISA – Intelligent Sensing Anywhere, uma spin-off da Universidade de Coimbra, criada e fundada por professores meus, onde tive oportunidade de aplicar o conhecimento da engenharia e tecnologia a diversos sectores de actividade. Curiosamente, esta empresa deu origem à empresa onde actualmente desempenho a minha actividade profissional, a Cleanwatts.
Quando iniciei a minha carreira profissional , tinha a responsabilidade de desenvolver projectos que levassem à evolução de alguns produtos ou serviços de base tecnológica a aplicar nos dois sectores, à Saúde e à Energia. Foi aí que surgiu a paixão pela Energia e que perdura até aos dias de hoje.
Sabia que tínhamos que passar por uma revolução energética, porque estávamos com uma abordagem muito conservadora na cadeia de valor, assente no uso intensivo de  combustíveis fósseis com um impacto enormíssimo na sustentabilidade global, e isto significa mesmo destruir a vida no Planeta conforme a conhecemos. Tínhamos que passar a ter algo completamente diferente. Havia todo um potencial para inovar. E um propósito a prosseguir.
É bom acordar todos os dias e saber que vou trabalhar para contribuir para um mundo melhor. A Energia é uma grande arma para combater as alterações climáticas e para contribuir para a sustentabilidade social, económica e ambiental e para que consigamos ter um mundo próprio para as proxima gerações.
A passagem da Biomédica para a Energia surgiu de uma forma muito natural. Sempre me senti muito mais confortável na área da Energia e, por isso, acabei por fazer essa transição para o mundo energético, quer do ponto de vista profissional, quer do ponto de vista académico.
 
Leccionou pontualmente em algumas universidades...
Gosto muito de dar aulas, de partilhar conhecimento, porque ao ensinar aprende-se imenso. Mas, não gostaria de leccionar em exclusividade..
Uma das actividades, que fazia antes e que pretendo retomar, é a orientação de teses de mestrado ou de doutoramento e de trabalhos de investigação.
Acabamos por ter um desafio concreto e depois desenvolvemos a investigação, que nos permite obter novos resultados e soluções, contribuindo para a evolução do conhecimento. Essa é a parte que mais me fascina no mundo académico.
Já dei algumas aulas e palestras na Universidade de Coimbra, e em alguns outros institutos. Por vezes, recebo convites neste sentido e faço-o, pontualmente, com todo o gosto. Além disso, surgem outras oportunidades para integrar a área de projectos em vias de desenvolvimento e, também, participo em alguns projectos a nível nacional e internacional.
Tenho uma ligação muito estreita com o mundo académico, apesar de a minha vida ser no mundo empresarial. Considero que só ganhamos com essa estreita cooperação entre os dois mundos. E sou uma verdadeira promotora desta sinergia.

Como considera que os Açores estão em termos energéticos?
Os Açores têm um enorme potencial e um longo caminho a percorrer. Continuamos a ser  altamente dependentes de combustíveis fósseis e essa é uma realidade que deveria ser atacada, com o devido cuidado e atenção, pelos custos que aporta, por questões ambientais e sociais, e pela dependência que nós temos do exterior. Veja-se a crise energética que estamos a sofrer no seguimento da ofensiva russa na Ucrânia.
Os Açores, do ponto de vista da Geotermia, fizeram um trabalho absolutamente importante e que é um exemplo a nível mundial. Sabemos tirar esse potencial geotérmico como ninguém e fazemos esse trabalho muitíssimo bem.
O projecto Graciolica é um verdadeiro exemplo para o mundo, e para nós mesmos, pois é uma solução a implementar em todas as ilhas com as devidas adaptações e racionalidade económica.
Enfim, há um conjunto de bons exemplos a evidenciar. Por outro lado, falta-nos maximizar o potencial existente nas nossas ilhas, valorizar os recursos naturais e os diversos recursos distribuídos.
Creio que não nos devemos focar apenas na produção de energia a partir de fontes renováveis de forma centralizada, mas essencialmente, em abordagens descentralizadas. O cidadão, enquanto agente activo da transição energética, ao usufruir das suas casas/condomínios para colocar unidades de produção para autoconsumo com base em fontes renováveis, para consumir, partilhar e injectar na rede sempre que necessário.  
Creio que devemos criar comunidades de energia renovável, onde cada indivíduo, no seu bairro, consegue produzir e partilhar a energia com o seu vizinho.
No âmbito da mobilidade eléctrica, por um lado, estamos a incentivar a aquisição de veículos eléctricos a título individual (e muitíssimo bem); por outro lado, não se verifica a mesma aposta no transporte colectivo, nem um estímulo ao seu uso, pois os  transportes públicos actuais (terrestes) não dão resposta às reais necessidades dos cidadãos e é evidente pela baixa taxa de utilização dos mesmos. Creio que há necessidade de analisar esta questão com o devido cuidado.
Há um conjunto de projectos que eu considero que podem e devem ser desenvolvidos na Região, quer ao nível do estado da arte, quer com abordagens mais inovadoras e disruptivas, pois somos um laboratório vivo, cheio de potencial, mas também com muitos desafios. Temos nove ilhas, que do ponto de vista energético são nove redes muito pequenas, o que traz desafios muito acrescidos na gestão do sistema, mas também traz muitas outras oportunidades.

O que se pode fazer, a curto-médio prazo, para sermos mais autónomos em energias renováveis nos Açores?
Essencialmente, por um lado, temos que colocar mais capacidade instalada de renováveis nas ilhas, de acordo com o potencial que estas têm de recurso, nomeadamente a eólica, o fotovoltaico, a hídrica, isto é, consoante as fontes disponíveis. Em paralelo, há que encontrar um sistema que permita gerir essas fontes para maximizar a sua integração, através da utilização de soluções de armazenamento combinadas com o uso de sistemas de gestão inteligente.
Por outro lado, apostar na produção distribuída usufruindo das infraestruturas existentes (casas, fábricas, edifícios, etc.), estimular a criação e o desenvolvimento de comunidades de energia renovável e do autoconsumo colectivo.
Apostar na eficiência energética, na conversão dos consumos assentes em fósseis para consumos assentes em renováveis, ou seja, pela electrificação e pelo uso de combustíveis e gases renováveis. Apostar na mobilidade eléctrica e no uso dos transportes colectivos em detrimento do individual, incluindo a promoção dos diversos modos de mobilidade suave, como seja o uso de bicicleta, com a criação de condições para que as mesmas sejam usadas em segurança, claro.  
As abordagens a criar deverão ser projectadas numa lógica integrada, e não em silos como tendencialmente acontece.

Como foi a sua passagem pelo Governo?
Fez-me sair da minha zona de conforto. Eu sempre trabalhei no sector privado, onde tudo é muito mais ágil, eficaz, simples de se fazer acontecer e onde trabalhamos (muito) com o propósito de alcançar determinados objectivos. De repente, deparei-me com uma realidade completamente diferente. Confesso que no início foi um choque, pois foram muitos os entraves e bloqueios difíceis de se gerir. Foi uma experiência de vida interessante, onde dei o melhor de mim para contribuir para a minha terra. Posso classificar como uma missão e uma autêntica aprendizagem. Não tenciono repetir, é um facto, pois não é o meu mundo, mas guardo essencialmente as boas recordações deste percurso e o orgulho no trabalho que desenvolvi.

Que marca deixou na governação açoriana?
Do ponto de vista político, julgo que não criei nada absolutamente exclusivo. Contudo, creio que desenvolvi trabalho, juntamente com a equipa com quem trabalhava, muitíssimo importante para a Região. Aliás, é possível encontrá-las no portal de energia Açores. É público e os resultados estão à vista de todos. Realço a mobilidade eléctrica. Nesta matéria, desenvolvemos um trabalho quase a partir do zero, e conseguimos, efectivamente, implementá-lo. Pela primeira vez, foi criada uma estratégia com foco no futuro, designadamente a estratégia açoriana da energia para o horizonte 2030 que, ainda que aguarde aprovação formal, existe, é pública e apresenta um conjunto de directrizes e orientações. Claro que, neste momento, já precisa de ser actualizada.
 Fizemos um trabalho importante ao discutir publicamente os diversos aspectos relacionados com a energia, desde as renováveis, à mobilidade elétrica, à eficiência energética.
A sensação que eu tinha era a de que a Energia acabava por ser muito negligenciada. Isso ocorre, porque temos uma dependência enorme da República. Porém, defendemos tanto a nossa autonomia e depois somos tão dependentes neste aspecto.
Compreendo também que não seja um tema ‘sexy’ do ponto de vista político. Erradamente, claro! A energia é mesmo muito importante e, quando bem gerida, permite que as nossas empresas sejam mais competitivas, que se erradique a pobreza energética e que tenhamos uma sustentabilidade do território, do ponto de vista financeiro, económico, ambiental e social.
No meu tempo de governação, tivemos oportunidade para discutir alguns dos assuntos pertinentes publicamente e de forma aberta. É um debate que considero que se deve manter público, com os actores políticos, os representantes dos sectores de atividade e a sociedade em geral.

Após abandonar o cargo de Directora Regional da Energia, foi trabalhar para o continente...
Quando terminei o meu trabalho na Direcção Regional da Energia, queria voltar à minha carreira profissional no sector privado, onde sempre trabalhei. No entanto, na altura, recebi um convite para ir para o Ministério do Ambiente e da Acção Climática, enquanto adjunta do Secretário de Estado da Energia, com desafios muito concretos, no âmbito do PRR – Plano de Recuperação e Resiliência, e também para auxiliar na alteração da legislação principal, a nível nacional, que é a organização do sector eléctrico nacional, publicada no início deste ano.
Decidi abraçar este desafio. Foi uma experiência absolutamente fantástica e muito gratificante, tendo em conta que desenvolvemos políticas e medidas muito relevantes para a evolução do país. Foi muito bom ter tido a oportunidade de contribuir para as mesmas.

Por que razão decidiu regressar?
Tive no Ministério do Ambiente e da Acção Climática cerca de um ano e o objetivo era mesmo passar um curto período de tempo.
Findo este tempo, regressei à minha actividade profissional, da qual estive ausente cinco anos e, confesso, que tinha muitas saudades.  Estive no Governo dos Açores durante quatro anos e um ano no Governo da República. Achei que já era demasiado tempo e que já tinha dado o meu contributo ao país enquanto cidadã. Estava na altura de voltar à minha vida profissional. Não tenciono ter carreira política, não é essa a minha ambição nem o meu propósito de vida.

Podendo trabalhar em qualquer sítio, por que escolheu os Açores?
Na verdade, nunca quis sair daqui. Saí, em 2004, para ir para a Faculdade. Vivi doze anos no continente, onze em Coimbra e um ano no Porto. Curiosamente, em 2015, tentei regressar e fui a uma entrevista de emprego. Mas, foi-me dito que tinha um currículo demasiado interessante para trabalhar na Região, o que me deixou um pouco frustrada e até um pouco indignada. Na altura pensei que não regressaria mais. Mas, passado alguns meses, tive o convite da Dra. Marta Guerreiro, então Secretária Regional da Energia, Ambiente e Turismo, para integrar a sua equipa e assumir a pasta da Energia, portanto para ser Directora Regional e aceitei. Assim, voltei em 2016 e nunca mais daqui saí.
No período em que estive no Governo da República, andava em viagens entre Lisboa e Ponta Delgada. De momento, vivo em São Miguel, que é a minha base e onde exerço a minha actividade profissional. Trabalho daqui para Coimbra, onde se situa a sede da minha empresa; para Bruxelas, pois faço alguns trabalhos para a Comissão Europeia; para Lisboa e outros sítios. Enfim, trabalho daqui para o mundo e desloco-me quando é necessário, para reuniões presenciais, acções no terreno, conferências, etc.
 A pandemia trouxe coisas muito más e graves, porém trouxe uma nova dinâmica ao  mundo profissional. As pessoas deixaram de trabalhar fisicamente no seu local de trabalho e passaram a trabalhar remotamente. A empresa onde trabalho, a Cleanwatts, também transitou para essa abordagem de trabalho remoto.
Na verdade, é muito fácil, pois tenho aeroporto a cinco minutos de casa e em duas horas e meia estou em Lisboa. Este trabalho remoto não me deixa desconectada das pessoas, pelo contrário, estou conectada com a equipa. Estamos em contacto de forma permanente e funciona lindamente, pois as pessoas são crescidas, responsáveis e têm objetivos a cumprir. Não trabalhamos para cumprir horários, isso é algo que não existe. Trabalhamos para alcançar objetivos e resultados e, quando assim é, torna-se tudo muito mais simples e motivador.

Escolheu ficar em São Miguel por causa da família?
Eu gosto muito da minha família. Existe uma grande amizade entre nós, somos muito próximos. A minha família sempre me fez muita falta, durante os tempos em que estive fora. Não me considero “menina da mamã ou do papá”, mas sou muito “menina” de todos os meus. Gosto muito de tê-los por perto.
Além disso, adoro viver nos Açores pelo contacto com a natureza. É muito bom, depois de um dia exaustivo de trabalho, poder sair de casa a pé, sem trânsito à volta, e fazer uma caminhada em frente ao mar. Gosto de viver perto do mar. Considero que temos uma qualidade de vida e liberdade nos Açores que não se consegue ter em outros sítios.  
Contudo, não excluo a possibilidade de ir trabalhar e viver para outro local temporariamente. Gosto dessas experiências e considero que fazem parte da nossa evolução. Para já, faz-me sentido viver aqui, pois consigo ter o equilíbrio que preciso para ser feliz.

Que projectos tem em carteira?
Tenho imensos. Alguns em curso, outros em fase de criação, a nível europeu, nacional e até regional, todos focados na transição e sustentabilidade energética. Apesar de não trabalhar para uma empresa dos Açores, decidi, juntamente com outros sócios, criar uma empresa cá – a Kinergy, que neste momento, está a ser desenvolvida e, em breve, será divulgada. A kinergy surge com o propósito de acelerar a transição energética em ilhas. Pretendemos desenvolver, essencialmente, actividades assentes em renováveis, criar comunidades de energia renovável e projectos de autoconsumo colectivo para possibilitar a partilha de energia entre diversos utilizadores com a intenção de, por um lado, aumentar a competitividade das empresas e, por outro, combater a pobreza energética e/ou reduzir custos com os encargos energéticos para as  famílias. O principal propósito da empresa é permitir que a energia seja consumida de forma limpa e a baixo custo. Vamos começar a estar no terreno muito em breve.
                          

Carlota Pimentel

 

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Autor: CA

Categorias: Regional

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