Sónia Torres cria projecto para apoiar famílias carenciadas no Serviço de Obstetrícia do HDES

Desde cedo que Sónia Torres, natural do concelho da Ribeira Grande, aprendeu a tricotar com a sua mãe e, embora se tenha revelado um conhecimento útil que lhe preenche ainda hoje muito do seu tempo livre, nunca pensou que se pudesse tornar num passatempo determinante para ajudar algumas das famílias açorianas mais necessitadas no momento em que acolhem um novo membro na família.
Porém, foi exactamente nisso que aplicou as suas “mãos de fada” depois de se ver na necessidade de se ausentar do seu trabalho por motivos de saúde nos primeiros meses deste ano, voltando então a fazer casaquinhos e mantinhas “para ocupar o tempo enquanto estava em casa”.
Depois de algum tempo a pensar nas formas como poderia reverter as peças de roupa que produz para ajudar a sociedade, nasceria, em Maio de 2022, a página e o projecto “Ajudem-me a Ajudar”, com o objectivo consolidado de apoiar directamente o Serviço de Obstetrícia do Hospital do Divino Espírito Santo (HDES), através da doação de vários conjuntos de bens, denominados kits, que serão oferecidos mensalmente ao hospital para serem depois oferecidos aos pais e bebés mais necessitados que por ali passem.
Para além de uma lembrança para a mãe e de um postal, feito especialmente pelo projecto ‘Ajudem-me a Ajudar’, a dar os parabéns aos pais pelo nascimento do bebé, e embora o conteúdo de cada kit varie consoante o que estiver disponível, fazem parte destes conjuntos casaquinhos, mantinhas, fralda de tecido, chucha, carícias e mudas de fralda, podendo também conter alguns produtos de higiene, frutas e papas indicadas para consumo a partir dos quatro meses de idade, sendo este um apoio importante para muitas famílias.
Quanto aos critérios de selecção, Sónia Torres adianta que estes são uma “responsabilidade das enfermeiras, porque são elas que estão ali no dia-a-dia e são elas que têm a percepção de quem são as mães que realmente precisam mais. Vêem por si próprias se a mãe tem roupas adequadas para o bebé ou se são pessoas que não têm grandes possibilidades financeiras, e são essas pessoas que serão beneficiadas com este projecto”, explica.
Depois de apresentada a ideia directamente no Serviço de Obstetrícia e ao Conselho de Administração do HDES, Sónia Torres afirma que esta foi “recebida com louvor”, tendo-lhe ficado marcada uma conversa que manteve com um profissional de saúde que lhe adiantou que “há bebés que saem do hospital sem um gorro, sem uma mantinha ou sem um casaquinho”, algo que lhe deu ainda mais força para que esta ideia crescesse.
Inicialmente, conta, este foi um processo que começou sozinha e pelas suas próprias mãos, mas conseguiu já o apoio essencial de dois braços direitos, “que mesmo não sabendo uma da outra”, entraram em contacto com a criadora do projecto para perceberem como poderiam elas próprias ajudar, uma vez que sabem também tricotar várias peças de roupa para recém-nascidos.
Deste modo, o projecto – que pretende também, no futuro, abranger os bebés prematuros do Serviço de Neonatologia – irá, amanhã, pelas 14h30, entregar oficialmente um conjunto de seis kits ao Serviço de Obstetrícia, para além de duas cadeirinhas auto que foram gentilmente doadas ao projecto pela loja Kid to Kid, e que irão assim permitir que, através do pagamento de uma caução, as famílias que não têm a possibilidade de ter o seu próprio ovinho possam fazer o transporte do seu recém-nascido em segurança até casa.
Porém, embora a primeira entrega oficial esteja prevista para amanhã, a verdade é que Sónia Torres e as suas ajudantes tiveram já que entregar um kit no HDES, tendo em conta a necessidade por que passava uma família que por ali passou para dar as boas vindas ao mais novo membro da família. No entanto, satisfazer as necessidades dos casos mais inesperados que podem surgir apenas se tornará possível com o número de mãos que se têm envolvido no projecto, permitindo que este tenha “uma maior durabilidade”, pois, caso contrário, Sónia Torres conseguiria apenas juntar “dois ou três casacos por mês ou uma mantinha ou outra”.
De acordo com a mentora do projecto, a página em questão foi criada também com o objectivo de reunir donativos, quer em numerário, quer através de outros artigos que são sempre bem-vindos durante os primeiros meses de vida de um bebé, tais como papas e demais produtos alimentares indicados para esta faixa-etária, fraldas e artigos de higiene ou até as lãs que dão origem às peças de vestuário que acompanham estas crianças nos primeiros meses de vida.
Numa primeira fase, a página contou sobretudo com o apoio e donativos de familiares, amigos e colegas de trabalho de Sónia Torres, contando ainda com o apoio de um colega de trabalho em especial, Carlos Arruda, que foi o responsável pelo logótipo do projecto.
Entretanto, Sónia Torres acabaria por garantir também o apoio de algumas empresas, nomeadamente a Wells, que desde início ajudou com produtos de higiene e papas, da mesma forma que a Nestlé se revelou também acessível ao ter doado pratinhos de papa e ursinhos de peluche.
Já no que às lãs diz respeito, Sónia Torres realça o importante apoio da Retrosaria Ponto Fácil, que procura sempre “fazer um miminho” no preço quando as lãs se destinam ao projecto, tendo também o benefício de incentivar outros clientes que por ali passem a contribuírem para o projecto através da doação de novelos de lã ou outros bens. Também através da Retailor, empresa de distribuição do Grupo Bensaude para a qual trabalha, Sónia Torres conseguiu angariar um “generoso cabaz de papas e frasquinhos de fruta” das marcas que representa.
Em acréscimo, também a Leroy Merlin ajudou o projecto com a oferta de uma cómoda que se encontra numa loja especializada na venda de vestidos de noiva, e cuja utilidade passa por expor alguns dos produtos confeccionados por Sónia Torres e pelas suas ajudantes, funcionando também como um ponto de recolha de donativos, onde as pessoas podem deixar lãs, mantinhas, casaquinhos, ou fazer um donativo em dinheiro.
Mesmo tendo iniciado este projecto sem conhecer as reais necessidades do Serviço de Obstetrícia e dos pais – que ultrapassam as inicialmente pensadas – a criadora da página “Ajudem-me a Ajudar” salienta que o início deste trajecto deixa todos os seus contribuidores “com o coração preenchido por sabermos que, pelo menos naqueles primeiros dias”, algumas das necessidades básicas dos bebés ficam acomodadas.
À iniciativa em questão, todos os dias chegam novos donativos, seja sob a forma de fraldas, chuchas, toalhitas ou dinheiro, o que permite que a criadora deste projecto tenha confiança na garantia da sua continuidade.
No caso de querer contribuir para o desenrolar desta missão, pode entrar em contacto com a página através do Facebook, e assim ajudar de várias formas: “Para quem não tem possibilidade de nos ajudar com produtos, só a divulgação da página ou do projecto é muito bom. Podem também ajudar com a doação de lãs ou com o valor monetário, e nós compramos as lãs para assegurar as montagens dos kits. Poderão ainda ajudar com a doação dos próprios artigos, como fraldas, toalhitas, chuchas ou géis de banho”, adianta Sónia Torres, salientando que seria também uma mais-valia para o projecto se o número de voluntários crescesse.
Muita ajuda tem também chegado a partir do interior do hospital, salienta, Sónia Torres, uma vez que auxiliares, médicos e enfermeiros têm sido particularmente sensíveis a esta causa. Em acréscimo, tem também chegado ajuda do exterior da ilha, contando já com apoios de uma pessoa do Faial que se disponibilizou para fazer alguns casaquinhos que serão entregues aquando da sua próxima consulta no Hospital do Divino Espírito Santo, contando com um kit especial que chegará directamente de Portugal continental, e também com alguns donativos que chegaram a partir do Canadá, conclui Sónia Torres.

Joana Medeiros *

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Autor: CA

Categorias: Regional

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