Teófilo Braga em Dia Mundial e Nacional da Conservação da Natureza

“Se continuarmos a deixar degradar a qualidade do ambiente nos Açores, estamos a matar a nossa galinha dos ovos de ouro”

 Correio dos Açores - Qual a importância do Dia Mundial da Conservação da Natureza?
Teófilo Braga (Ambientalista) - Uma pessoa que se dedica, há muitos anos, à conservação da natureza e à defesa do ambiente, todos os dias dedica algum do seu tempo a esta causa.  De qualquer forma, é sempre importante o surgimento desses dias, pois a população em geral e a própria comunicação social estão mais despertas para estas questões.
Coincidentemente, além do Dia Mundial, hoje celebra-se também o Dia Nacional da Conservação da Natureza. Esta data é muito marcante em termos históricos, porque foi o dia em que foi fundada a primeira organização de defesa do ambiente em Portugal, nomeadamente a Liga para a Protecção da Natureza, a mais antiga associação de defesa do ambiente em Portugal. Todas as associações foram criadas depois do 25 de Abril, mas esta surgiu em 1948, ainda no Estado Novo.  

Acredita que algum dia se chegará a um consenso sobre a solução para o Miradouro da Lagoa do Fogo?
A reserva natural da Lagoa do Fogo foi classificada em 1974. As principais ameaças à reserva são: a presença e não controlo de espécies invasoras, tais como a conteira, a clethra e outras, no que diz respeito à flora; o aumento da pressão humana sobre a reserva, ou seja, o número de pessoas que desce para ficar próximo da massa de água é cada vez maior; e a descaracterização do espaço onde se encontra o actual miradouro.
 Do meu ponto de vista, a construção do miradouro levará à descaracterização daquele espaço. Quem tem uma vida, mais ou menos longa como eu, desde criança que se lembra de ver aquele panorama, daquela maneira. A construção do miradouro, ainda que subterrâneo, vai alterar, de algum modo, a vista sobre o espaço, de maneira que considero que a melhor solução seria não construir nada naquela zona.
O controlo dos visitantes deveria ser feito a uma cota mais baixa, onde começa a reserva. Por exemplo, o acesso de viaturas poderia ser controlado de algum modo, a partir da entrada para a Caldeira Velha.
Neste momento, o grande problema, mais do que o pisoteio, é a presença excessiva de viaturas na estrada próximo do miradouro. A construção do miradouro não vai, por si, resolver este problema.
Outra questão, que considero excessiva, é o investimento de 1,7 milhões de euros mais IVA naquele espaço. Se queremos, efectivamente, fazer a conservação da natureza, o grande investimento na reserva passaria por aplicar parte daquela verba e de outras na manutenção e recuperação da biodiversidade, através da remoção de invasoras e da plantação de espécies nativas e endémicas, bem como aumentar a vigilância naquela reserva e promover acções de educação ambiental, que praticamente deixaram de existir.

Não existem acções de educação ambiental no momento?
Neste momento, a educação ambiental está concentrada nas escolas e o que há, essencialmente, é o programa Eco-Escolas. Se formos analisar, em pormenor, o que se faz no âmbito deste programa, verificamos que é muito pouco e fica muito aquém, pelo menos nos casos que conheço. Não estou a criticar os meus colegas professores nem os alunos envolvidos, porém, em escolas com grandes dimensões, como o caso da Escola Secundária das Laranjeiras e da Escola Secundária Domingos Rebelo, que têm muitos alunos, apenas um número muito restrito de docentes e de estudantes estão envolvidos no programa, e o resto da escola funciona paralelamente.
Tenho conhecimento de escolas em que há acções para haver a separação de resíduos, contudo os funcionários juntam tudo posteriormente. Ora, os alunos sabendo disso ficam desmotivados. Assim não funciona e não pode ser. A escola tem que estar toda envolvida, desde o Conselho Executivo, aos professores e funcionários, envolvendo ao máximo possível os alunos. Apenas assim se conseguem mudanças. Com pequenos projectos que envolvem meia dúzia de alunos e um, dois ou três professores, não vamos lá. Aliás, conseguimos afixar bandeiras, mas estamos longe de promover, efectivamente, a educação ambiental.

Está satisfeito com o projecto de recuperação da mata ajardinada da Lagoa do Congro e o acesso à Lagoa?
Sou natural de Vila Franca do Campo e, apesar de nunca ter participado, lembro-me que os meus familiares, por tradição, festejavam o São João da Vila, o 24 de Junho, nas margens da Lagoa do Congro.
Desde criança que visito a Lagoa do Congro, altura em que esta ainda estava quase intacta. Recordo-me que encontrávamos azáleas floridas nas bermas dos caminhos. Depois, fui assistindo à contínua degradação do espaço, até que, no ano 2000, fizemos uma proposta de classificação daquele espaço através da Associação Amigos dos Açores, da qual era Presidente na altura. O Governo dos Açores levou sete anos para classificar a Lagoa do Congro como área protegida para a gestão de habitats ou espécies.
Em 2008, parte daquele espaço foi adquirido pelo Governo Regional. Alguns anos mais tarde, li um artigo, publicado no Correio dos Açores e assinado pelo jornalista João Paz, a denunciar o facto de os acessos à Lagoa estarem danificados, causando problemas a quem visitava a Lagoa, nomeadamente os turistas. A partir desta denúncia de João Paz, redigi um texto, uma petição a pedir à Assembleia Legislativa Regional e ao Governo dos Açores que tomassem medidas para implementar um plano de recuperação e gestão daquele espaço, que incluísse a recuperação da mata ajardinada criada por José do Canto e transformasse a área num parque botânico. A proposta foi muito bem aceite pela Assembleia Regional e, posteriormente, o Governo Regional decidiu que ia avançar para a requalificação do espaço.
A 13 de Setembro foi apresentado o projecto de requalificação da mata ajardinada da Lagoa do Congro. De acordo com o Secretário Regional, o projecto terá várias fases. Tenho conhecimento da primeira fase, onde haverá intervenção sobre a vegetação através do controlo das espécies invasoras com a forte protecção de lares das espécies ornamentais mais importantes. Além disso, será feita a remoção de algumas espécies, de modo manual ou com pequenas máquinas, que se encontram em pior estado e que possam causar perigo para os visitantes.
Em relação às outras duas fases do projecto, não tenho conhecimento. Sei que já houve associações do ambiente que pediram que a Secretaria lhes enviasse cópias do projecto, todavia até à data não receberam ou, se receberam, ainda não divulgaram.
Considero que aquele espaço merece ser requalificado. A intervenção deverá ser feita, essencialmente, sobre a vegetação, retirando invasoras, introduzindo endémicas, ordenando os caminhos, tornando mais fácil o acesso, desviando algumas linhas de água que, por vezes, atravessam o acesso. A intervenção humana deverá ser o mínimo possível, pelo que não deverá ser usado betão nem cimento, de maneira a descaracterizar o espaço. Fala-se num parque de estacionamento, mas desconheço a sua localização, pelo que não me posso pronunciar sobre o mesmo.

Onde se deveria situar o parque de estacionamento?
Quando se vai desde Vila Franca do Campo até à Lagoa do Congro, encontra-se uma primeira entrada à esquerda e muito próximo há um edifício, que será propriedade dos Serviços Florestais. Este edifício podia ser usado como entrada e o parque de estacionamento poderia situar-se nesta zona. Com o desenvolvimento imparável do núcleo de visitantes, o caminho podia ter sentido único, de maneira que qualquer visitante fosse obrigado a passar por essa construção que basta ser recuperada. Aí estaria o espaço de recepção, com uma pequena exposição explicativa e poderia ser um centro de interpretação.

Qual a sua opinião sobre o empenho oficial na preservação dos trilhos que existem e no investimento em novos trilhos?
Deixei de fazer os trilhos. Durante muitos anos, fui talvez o principal organizador dos trilhos, no âmbito da Associação Amigos dos Açores, de onde saí há cerca de 15 anos. A partir daí, passei a dedicar-me à agricultura e os meus fins-de-semana são quase todos passados em Vila Franca do Campo, numas quintas que tenho.
Na altura, houve um grande investimento, por parte da Secretaria da Economia, que chegou a ter técnicos a tempo inteiro, preocupados com os trilhos…

Receia que estejamos a caminhar para um turismo de massas com impacto negativo na natureza?
Sinceramente, tenho esse receio. Há alguns anos, os Amigos dos Açores promoveram uma conferência em Ponta Delgada com a presença do arquitecto paisagista Fernando Pessoa. Na altura, o arquitecto falou nos prós e contras do turismo e destacou a importância que este poderia ter para o desenvolvimento dos Açores, desde que fosse controlado e as receitas obtidas fossem aplicadas na conservação da natureza. Infelizmente, não sei se é isto que tem acontecido. Vejo que a pressão sobre determinados espaços é muito grande. Refiro-me ao Miradouro da Lagoa do Fogo, à zona da Serra Devassa, nomeadamente à Lagoa do Canário, onde o número de viaturas é excessivo. Tem que haver, de algum modo, o controlo da presença de grande número de pessoas em determinados espaços. Não é fácil, mas é possível, havendo coordenação das empresas de turismo, agências de viagens, entre outras. Estas poderiam marcar presença em determinados espaços, em horas diferentes, de maneira a não haver concentração de pessoas, em simultâneo, em certos sítios. É algo urgente de se fazer. Deixei de visitar determinados espaços, principalmente no Verão, altura de maior afluência de turistas.

Importa intensificar os Açores como Turismo Sustentável, pois outros destinos procuram também o seu espaço neste posicionamento onde teremos obrigação de liderar. Tem-se feito um esforço neste sentido?
Tenho algum receio, porque uma coisa são as palavras e outra são os actos. Num caso muito concreto, houve um governante que disse, há dias, que os Açores lideravam, a nível internacional, a questão da protecção do mar. O Governo da Madeira afirma que a Madeira lidera, no mundo, a conservação das áreas marinhas. Ora, penso que é muita propaganda e que é preciso passar das palavras aos actos. Isto é fundamental. Se continuarmos a deixar degradar a qualidade do ambiente nos Açores, estamos a matar a nossa galinha dos ovos de ouro. A grande riqueza dos Açores está no seu património natural e cultural também. Mas, se destruirmos o património natural, tornamo-nos numa Região igual a tantas outras, em que seremos invadidos por turistas sem qualquer consciência ambiental e a degradação não terá fim.

Que mensagem quer deixar neste dia?
Quero deixar uma mensagem à população em geral e aos responsáveis para terem cuidado com o nosso património e agirem, visto que ficar apenas pelas palavras não leva a nada. É preciso que as medidas respeitantes à conservação da natureza sejam postas em prática.

 Carlota Pimentel *

 

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Autor: CA

Categorias: Regional

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