Crónicas da Madeira

Os meus passos e estão desenhados nas ruas e praças da cidade dos poetas

A razão é porque amo a ilha identifico-me com ela. Mesmo quando fisicamente não estou, o espírito consegue fazer o milagre de a ela regressar sempre. Uso uma imagem poética de Shakespeare, no que respeita à parte material:“ninguém jamais regressou”.Regressa-se só pelo espírito. É bom que assim aconteça, pois podemos sempre que queiramos voltar a conviver com aqueles que amamos. São Miguel levantou-se, por entre o mar de hortênsias. Era madrugada. É quando desperto para a vida, adoçando a alma e prevenindo a consciência para o futuro, para aquilo que penso poderá me suceder…

A visita ao Palácio de Santana e o enriquecedor discurso do Presidente do Governo

E tudo quanto me sucedeu foi extremamente positivo. O regresso à “Cidade dos Poetas”, onde os meus passos estão sempre desenhados pelas ruas e praças; o encontro, no Palácio de Santana, com o Presidente do Governo Regional; a descoberta do “mundo privado” de Manuela Cymbron e John Court e por fim o jantar em casa do poeta Meirelles.
O grupo de madeirenses que, há duas semanas, esteve em são Miguel foi recebido por sua Excelência o Presidente do Governo,Dr. José Manuel Bolieiro. Ali estavam, também, o Dr. José de Andrade – Diretor das Comunidades dos Açores; Madruga da Costa e Dr. Miguel Silva – diretores da Casa dos Açores na Madeira e o Dr. Luís de Freitas – Presidente da Casa da Madeira nos Açores. O Presidente é um político, caracterizado, pelo seu finíssimo trato, possuidor de um dom raro saber imprimir interesse em tudo quanto diz. Intelectual, que contribuindo pelo seu afã em busca da verdade, procura servir, com competência as 9 ilhas do seu Arquipélago. Uma personalidade de fé na força do Espírito, pelo seu saber compreender tudo quanto à sua volta se passa; pela sua crença de que os problemas das suas ilhas se irão resolver, mesmo remando contra possíveis tempestades, mas o progresso e a modernidade vencerão…
Estadista, mobilizador de forças. Ele sabe, recordando Machado Pires ao se referir a Vitorino Nemésio:“o regional universaliza-se na linguagem e no mundo de referências e de sentimentos que mobiliza”. A ilha é o mundo e o homem, é substância mesma da sua criatividade. É este homem açoriano, herói que transformou a lava em cidades, uma das suas grandes preocupações: preparar as novas gerações para o futuro que,  para o tempo que se avizinha. É enriquecer os espíritos para que as novas tecnologias não devorem o homem. Aceitá-las como uma realidade necessária de um tempo diferente, mas jamais sejam causa de desumanização. A questão social está-lhe no coração. O Dr. José Manuel Bolieiro, com o seu discurso inteligente e o desejo de contribuir para uma aproximação dos arquipélagos, conquistou o grupo forasteiro que depois de uma visita guiada ao Palácio, pelo Dr. Pedro de Mello, ofereceu um requintado cocktail aos seus convidados.


Entrei no maravilhoso mundo privado de Manuela Cymbron e de John Court

Levado até à quinta “preservando”, em Rabo de Peixe, pelo meu amigo e poeta Victor Meirelles, entrei no mundo privado de Manuela Cymbron Barbosa e John Court. Duas personagens fascinantes, ligados por uma forte paixão, que os rejuvenesce e os torna verdadeiramente interessantes porque as suas personalidades completam-se complementam-se. Ele é americano, nascido em Maryland - Virgínia. Ela micaelense. Até chegar à Quinta -Palacete em estilo colonial virginiano, passei por ruas labirínticas, cujas pedras negras dos longos muros - diria quase medievais – prenderam-me a atenção, não só pelo ambiente que me ofereciam, mas também pela extensão interminável dos mesmos. Sozinho jamais teria chegado ali. Um taxista gentil, Luís, ao serviço do casal conduziu-nos. Chegados ao primeiro portão o próprio condutor abri-o com as chaves. Percorre-se uma alameda ladeada por árvores frondosas. Encontra-se um segundo portão, em ferro e de novo, outra alameda surge, até que finalmente se chega à casa: espetacular! A sua fachada, estilo colonial, está coberta de ervas. As duas colunas que sustentam uma espécie de alpendre, enriquecem o pátio da entrada. Esta casa fez-me lembrar a de Jefferson, em Monticello, onde estive há anos.
Simpática esboçando um largo sorriso Manuela Cymbron Barbosa recebe-me, bem como às minhas amigas Betty e Ferdinanda. No hall, decorado com requintado gosto estava John Court que, amavelmente, me conduz ao primeiro salão, com uma varanda sobre um lago, adornado com três lindíssimas estátuas de anjos. Fala pouco português, mas entende-o perfeitamente.
Com uma farta cabeleira branca, ele transmite, de imediato, a sua grande sensibilidade e talento. Os quadros por ele pintados, são verdadeiras obras de arte. Enchem as paredes dos diferentes salões. Muitos fazem-me lembrar os quadros de Rembrandt, com pontos de luz que incidem em pormenores chamando a atenção para os mesmos. No meu diálogo com John Court, fiquei sabendo que os seus avós e pai foram oficiais da marinha e que a sua mãe passou uma longa temporada no Rio de Janeiro, falando vários idiomas. Os seus quadros estão em diversas galerias e museus americanos.
Nos seus salões, com peças de mobiliário do século XVII e XVIII há, a par do requinte da decoração, há quadros que enaltecem a sua obra: o quadro de Rabo de Peixe de 1999; o de KirthI 1990 e o de Kirth II – 1990. Dois nus. São obras que só um grande pintor poderia pintá-las. Tal é a beleza e perfeição. A autenticidade das paisagens e das pessoas. O seu estúdio de trabalho, envolto em árvores, é grande e indescritível. Aí descubro o poeta e o filósofo John Kirthian Court, qualidades que enriquecem a sua obra. Aí ele confessa-me da sua grande paixão pela sua mulher, um grande pilar da sua vida. Verdadeiramente encantadora, na sua figura aristocrática e na grandeza da sua simplicidade. Ela é, sem dúvida, a deusa inspiradora para que o poeta pintor sonhe e passe a realidade de uma poesia que é a mensagem pictórica, tornando-o único como pintor: sempre enamorado pelos seus quadros. Como grande anfitriã Manuela Cymbron preparou uma receção com comidas e bebidas selecionadas. A sua beleza de mulher retrata-se por toda a casa. É uma espécie de luz que ilumina os salões. Move-se elegantemente naquele palacete escondido entre o arvoredo. Jamais poderei esquecer este encontro que tanto me sensibilizou e encantou. Filha de Aníbal Cymbron Barbosa, foi professor, durante três anos, na Escola Industrial e Comercial do Funchal, na altura em que era diretor, o escritor Álvaro Reis Gomes.

O jantar em casa do Poeta Meirelles à luz das velas

No dia 13, quarta-feira, almoçamos no “Casa Nostra” um restaurante agradável, pela sua decoração e excelente refeição.Connosco estavam as sempre queridas amigas Teresa Neves e Isabel Portugal. Um convívio que serviu para falarmos de poetas e poesia; para adoçarmos as almas.
Os jantares em casa do Poeta Meirelles primam sempre pela escolha do menu; pelos convidados, homens e mulheres das letras, lá estavam Ângela de Almeida e José de Mello. À luz das velas sobre a toalha de adamascado vermelho, brilhavam as pratas e as paredes carregadas de quadros de vários pintores, marcam as diferentes épocas. Um ambiente esplendoroso que tornam os nossos convívios mais agradáveis. Em termos de recebimento, naquela casa, nada é igual. Há sempre coisas surpreendentes que acontecem.
Como sempre o dono da casa desfez-se em gentilezas, cativando como sempre os seus convidados.
Deixei São Miguel, com saudades, mas como referi, no início desta crónica, estou sempre por ali e espiritualmente.

Por João Carlos Abreu *

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Autor: CA

Categorias: Regional

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