Taberna na Boavista surge seis anos depois da sua concepção e conquista sobretudo clientes locais

Depois de seis anos, o hostel Out of the Blue, localizado no centro de Ponta Delgada, concretizou por fim o objectivo de abrir as portas do seu restaurante próprio no passado mês de Maio, dando assim início ao projecto Taberna na Boavista, nome que homenageia a rua onde está situado.
Apesar de não se encontrar numa rua de passagem frequente, Filipe Silva, proprietário do hostel onde se insere agora esta taberna contemporânea, juntou-se ao artista plástico e escultor açoriano Ricardo Lalanda, no sentido de chamar a atenção dos transeuntes para o edifício, ao qual se juntou uma escultura circular em contraste com o amarelo que faz também agora parte da fachada do edifício.
No interior, predomina o preto, que reveste as paredes do espaço, em contraste com os detalhes cheios de cor como o vermelho e o amarelo, entre os tons de ocre presentes em elementos de ferro, visíveis no balcão principal, por exemplo.
Responsável por este projecto está Nuno Silva, gerente do restaurante, sendo igualmente um dos responsáveis por agradar o palato daqueles que visitam o espaço com pratos que variam entre as já famosas batatas bravas e os peixinhos da horta, sem esquecer outros pratos como o pica pau de atum (“de comer e chorar por mais”, conforme anunciam os comentários na plataforma TripAdvisor), bem como a sandes de ‘pulled pork’ ou a salada de polvo.
Apesar do tempo demorado para alcançar este objectivo – uma vez que outros projectos foram surgindo pelo caminho e que, entretanto, houve até uma pandemia que atrasou a concretização de muitas (boas) ideias – Nuno Silva explica que, no passado mês de Maio, em apenas três dias, foi decidido que a Taberna na Boavista iria, finalmente, abrir as portas.
“Há muito tempo que o espaço estava preparado com balcão mas não era nada. Às vezes era, e ainda é, lá servido o pequeno-almoço do hostel, mas a verdade é que nunca foi nada em concreto, até que, em Maio último, «do nada», em três dias, decidimos abrir o restaurante. Obviamente que as ementas já estavam pensadas e estruturadas para que pudéssemos abrir a qualquer altura, e até tivemos vários conceitos diferentes ao longo dos últimos seis anos.”
“Então, em Maio, decidimos que isto tinha que ser uma taberna cheia de petiscos e de coisas boas, muita comida típica portuguesa no que diz respeito aos petiscos, mas nunca esquecendo a vertente estrangeira, porque a verdade é que temos aprendido muito, não só com os turistas que cá vêm, mas também porque gosto muito de estudar comida e acho que na ilha faz imensa falta comida diferente de outros países e que ninguém faz”, diz Nuno Silva.

Comida isrealita todas as Segundas-feiras

Como forma de colmatar esta lacuna, Nuno Silva conta que às Segundas-feiras há na Taberna comida israelita que tem vindo a surpreender muitos visitantes, já fãs assumidos do pão pita feito de raiz e da falafel de Shy Solomon, natural de Israel, que encontrou nos Açores uma forma diferente de viver a vida, mantendo a proximidade com duas das coisas de que mais gosta na vida: cozinhar e surfar.
Para além de permitir esta diversidade gastronómica na Taberna na Boavista no início de cada semana, esta estratégia permite também que todos os funcionários possam desfrutar do seu descanso semanal, tendo em conta os desafios permanentes no que diz respeito à falta de mão-de-obra que levam as empresas a trabalharem com números mínimos de colaboradores.
“De modo a que todos tenham os seus descansos, tivemos que arranjar forma de não ter o restaurante demasiado tempo fechado, já que este fecha apenas à Terça-feira, mas o facto de termos o Shy Solomon a cozinhar à Segunda-feira permite que parte da equipa possa descansar nesse dia. O Shy é um senhor, já tem mais de 50 anos, mas faz isto há uma vida inteira e faz tudo de raiz. O pão pita é feito de raiz, a falafel é feita de raiz com temperos vindos de Israel, e às segundas-feiras transformamos o restaurante num ‘street food’ israelita que traz diversidade ao projecto, e damos oportunidade de ele mostrar aquilo que ele faz também”, explica o gerente do espaço.
Desde o início, conforme adianta ainda Nuno Silva, o objectivo desta equipa passou por “criar um serviço diferenciado”, aplicado também aos brunch que são servidos todos os Sábados e Domingos, mas uma das maiores surpresas chegou quando os empresários se aperceberam de que são os locais e residentes na ilha os principais clientes da Taberna na Boavista.
Questionado acerca dos motivos que levam a isto, o gerente refere que “terá muito a ver com o facto de a taberna não ter ainda uma expressão muito grande no TripAdvisor”, uma vez que esta é uma das plataformas preferidas pelos visitantes da ilha para escolherem os restaurantes a visitar durante o período da sua estadia, enquanto, por outro lado, os açorianos sabem que este é o centro da cidade e estão atentos ao que de novo vai surgindo, sobretudo através da palavra que é passada “boca a boca”.
“Entre os locais tem funcionado o boca a boca, e uma coisa que nos dá alento é saber que cerca de 70% dos locais que cá vieram já regressaram, e isso faz-nos perceber que estamos a fazer alguma coisa boa, pois ter um espaço destes no centro de Ponta Delgada não é fácil, mas tem trazido os locais de volta e esses locais têm trazido amigos, depois os amigos trazem outros amigos e as coisas têm evoluído assim, o que é extremamente positivo para nós”, refere, sendo este um alento que lhe permite acreditar que este será um projecto com margem para crescer.
A título de exemplo, Nuno Silva adianta que gostaria de aproveitar toda a área do jardim do hostel, onde, à semelhança do interior do restaurante, existem mesas comunitárias que acolhem vários grupos em simultâneo, para servir os petiscos da Taberna na Boavista, pois embora seja possível as pessoas escolherem onde desejam comer depois de serem servidas, não é possível fazer com que os empregados cheguem a toda a extensão do espaço mantendo a actual qualidade do serviço.
“Temos todo este jardim que poderíamos aproveitar, mas não servimos no espaço todo. Se as pessoas quiserem estar no jardim têm que ir buscar a comida, porque eu tenho que poupar os funcionários. O que acontece muito nem é tanto o pagar mal, é o exigir demasiado das pessoas que ficam exaustas ao fim de dois dias de trabalho mesmo tendo mais três dias pela frente”, diz.
Em acréscimo, embora “as expectativas sejam óptimas”, de modo a que seja possível ter mais mesas ao dispor da Taberna, é também necessário “fazer algum dinheiro” para investir na melhoria das infra-estruturas da cozinha, que necessitariam também de ser adaptadas para fazer face às exigências da cozinha.
Por outro lado, embora o menu apresentado neste espaço “não seja propriamente caro”, o constante aumento no custo dos produtos chega também a assustar o gerente, sobretudo no que diz respeito a orçamentos: “Todos os dias vamos às compras e desde o início da pandemia e da guerra é uma dor de alma ir ao supermercado, porque quem tem atenção a orçamentos percebe que, de dia para dia, as coisas aumentam horrores. Está tudo caríssimo e nós tentamos trabalhar com produtos mais acessíveis para podermos ter as pessoas aqui a comer sem terem que gastar todo o orçamento familiar”.
Outro dos desafios principais é já muito conhecido e debatido, dizendo respeito à “falta de mão-de-obra gritante”, problema que, a não ser resolvido, irá trazer muitos problemas aos empresários ligados à área da restauração e turismo, tendo em conta o ritmo a que cresce o número de visitantes nos Açores.
“Não há qualidade a sair das escolas e as escolas são as primeiras a admitir isso, e enquanto as escolas continuarem a fazer estes cursos para as pessoas tirarem o 9.º ano, nós não vamos ter qualidade. (…) As pessoas tiram este curso um bocadinho iludidas, na minha opinião. Querem ir para as grandes unidades hoteleiras porque acham que lhes vão dar um nível mais alto de aprendizagem e em termos salariais, e a verdade é que isso não acontece”, referindo ainda que, no caso de projectos mais pequenos como este que acaba de iniciar, “cada um paga o que pode”.

Joana Medeiros *

Print
Autor: CA

Categorias: Regional

Tags:

Theme picker