Antigo Bar da Lagoa do Fogo com projecto para ser empreendimento turístico de quatro estrelas

Depois de largos anos ao abandono, o emblemático edifício onde em tempos funcionou o Bar Lagoa do Fogo, na estrada que liga a Ribeira Grande à lagoa com o mesmo nome, conta agora com um projecto para a sua requalificação que permitirá a sua transformação num empreendimento turístico de quatro estrelas.
O projecto em questão é avançado pela empresa Azor Sky e, embora o projecto se encontre neste momento em fase de licenciamento, os investidores acreditam que será possível iniciar a construção deste novo espaço dedicado ao turismo no início do ano de 2024.
No total, serão construídos oito apartamentos T0 que poderão ser alugados por locais e turistas, com elementos decorativos que remetem imediatamente para a estação geotérmica ali tão perto, nomeadamente tubos metalizados que percorrem os quartos, bem como fotografias que completam este “mergulho na geotermia”, como lhe apelida Gonçalo Lopes, um dos arquitectos responsáveis pelo projecto.
O empreendimento turístico contará ainda com uma zona de recepção – também inspirada na geotermia, uma vez que esta se irá inserir num “tubo gigante” – existindo ainda espaço para uma zona comercial onde serão vendidos produtos regionais e planos turísticos regionais para quem por ali passe em direcção à Lagoa do Fogo, havendo ainda espaço para um bar, onde se prevê que sejam servidas bebidas e pequenos petiscos.
O desafio para a concretização deste projecto foi recebido pela equipa da SO Arquitectura & Design no Verão de 2021, conforme adianta Gonçalo Lopes, salientando que o mesmo ficou concluído no passado mês de Julho, cerca de um ano depois mediante todos os desafios que se apresentaram perante este caso em concreto.
“Foi um processo que demorou mais do que o processo normal, por várias razões. Uma delas pelas condicionantes naturais do edifício, outra porque havia uma grande parte do edifício que estava ilegal, e, portanto, foi preciso realizar algumas audiências prévias com a Câmara Municipal da Ribeira Grande de forma a podermos arranjar uma solução para legalizar e prosseguir com as construções, e também audiências prévias com a Secretaria Regional do Ambiente, por conta da proximidade com a ribeira”, esclarece o arquitecto.
Outro aspecto que desde cedo foi tido como um grande desafio para a constituição deste projecto prende-se com a proximidade do icónico bar com a Central Geotérmica da Ribeira Grande, tendo em conta o impacto estético que esta coloca bem como o barulho que esta produz, obrigando à equipa de arquitectos a apresentação de “soluções viáveis ao nível do isolamento acústico para ser possível ultrapassar este problema” e levar a que o edifício tenha a oportunidade de ter uma nova vida, já que “no desenho original do edifício” tudo indicava que “não se pensava nos problemas acústicos causados pela geotermia”.
Ao nível estético, quer para se demarcar dos restantes espaços turísticos que a ilha oferece como para procurar resolver este problema de acústica, o projecto para este novo empreendimento turístico na ilha de São Miguel contempla “uma grande alteração das fachadas”, utilizando nos acabamentos exteriores materiais como a madeira de criptoméria, realçando que as próprias janelas do edifício estão desenhadas da forma como se apresentam “por questões acústicas e pela geotermia”.

Edifício irá reaproveitar calor da água gerada pela geotermia

Assim, e sendo esta uma questão “tão presente”, a equipa de arquitectos resolveu utilizar a seu favor esta aparente desvantagem – que ao longo dos anos desmotivou outros investidores – e, em vez de esta continuar a ser “um problema a esconder, absorvemos o máximo possível dessa proximidade”, encontrando formas de dar uma utilidade a toda a energia sustentável possível.
Sabendo que, ao longo dos anos, a EDA fez alguns testes-piloto para tentar aproveitar a água quente da geotermia que não é utilizada para nenhum fim durante a produção de energia, e que todos os testes que foram feitos se demonstraram inviáveis devido à distância entre as infra-estruturas e a estação geotérmica, foi então estudada a opção de utilizar esta fonte de energia para aquele edifício ali tão próximo.
“Todos os testes que foram feitos pela EDA demonstraram-se inviáveis porque a proximidade dos edifícios ou das estruturas era bastante distante, e a água quente, quando saía, chegava ao ponto de abastecimento já numa temperatura muito reduzida. Isto só seria possível de realizar se houvesse uma estrutura ou edifício que ficasse muito perto da geotermia para que a água conseguisse chegar a uma temperatura alta. Por isso, arrisco-me a dizer que este será o único edifício que vai conseguir aproveitar essa energia desperdiçada, e por isso é que dizemos que esta será uma espécie de duplo aproveitamento de energia sustentável, porque estamos a aproveitar a energia que é proveniente da energia sustentável que já foi produzida”, explica Gonçalo Lopes.
Em relação à forma como esta energia será utilizada, o arquitecto explica que será aproveitado apenas o calor da água para os sistemas de aquecimento ou de ar condicionado, ou, ainda, para o aquecimento da água.
“A água que sai dos reactores geotérmicos tem que voltar para os aquíferos subterrâneos. Ou seja, não podemos puxar a água dos buracos subterrâneos, até porque essa água nem sequer é uma água saudável por causa da questão dos minerais. A água quente que é gerada para arrefecer os reactores vem muito quente, perto dos 100ºC, e é essa água quente que nós queremos puxar para o nosso edifício para, por exemplo, os aquecimentos, os ares condicionados ou os aquecimentos das águas, porque é o calor que nós queremos, não a água em si”, refere.
Conforme explica Gonçalo Lopes, o projecto concebido prevê apenas “uma alteração do edifício original, embora este seja completamente diferente” do que agora existe. Isto é, não está contemplada qualquer ampliação do edifício, apenas o aproveitamento das áreas brutas na sua totalidade, incluindo na sua altura, tendo em conta o permitido por lei. Neste sentido, a única diferença dirá respeito ao telhado.
“Antes tínhamos uma cobertura inclinada que dará lugar a uma cobertura plana”, adianta Gonçalo Lopes, acrescentando que a ideia é incluir um terraço que, conforme os aditamentos futuros, poderá – ou não – incluir uma piscina infinita.
No que diz respeito ao interior do edifício e à sua respectiva decoração, e conforme demonstram as projecções, adianta-se que a opção foi “romper completamente com o estilo anterior, embora aproveitando a estrutura original do edifício”, diz Gonçalo Lopes, tendo em conta que o antigo Bar Lagoa do Fogo foi sofrendo alterações ao longo dos anos e, por isso, “apresentava uma data de linguagens” sem coesão entre si.

Joana Medeiros *

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Autor: CA

Categorias: Regional

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