Criador da Fat Una, Afonso Van Uden, fala das dificuldades e do sucesso

Exportador de peixe é de opinião de que o mar dos Açores é mal gerido e pede intervenção dos biólogos da UAc para estudar períodos de defeso

Correio dos Açores - Qual a sua ligação aos Açores?
Afonso Van Uden (empresário) - Nasci em São Miguel no ano de 1980 e vivi cá até aos oito anos. Foram os melhores anos da minha vida. Estava sempre na rua com os meus amigos e andava descalço por todo o lado.
O meu pai teve cá a primeira empresa marítimo-turística de pesca desportiva. Foi a primeira firma a ir pescar espadins-azuis e atuns com clientes estrangeiros, nomeadamente suecos e americanos. Apesar de não ir para o mar com os clientes, pulava para dentro dos barcos e estava sempre à volta das linhas, dos anzóis e das pescas. Desde pequenino, costumava ir para a doca, de bambu, pescar carapau e estava sempre naquele ambiente dos barcos. Mais tarde, fiz surf, caça submarina, mergulho de garrafa, e outras actividades ligadas ao mar.
Entretanto, fui para o continente fazer a quarta classe e o restante ensino até ao 11º. No 12º ano, fui viver com uma família americana nos Estados Unidos, através de um programa da Multiway, Exchange Students e foi uma experiência muito interessante. Concluí o 12º ano nos Estados Unidos e, depois, regressei a Lisboa para tirar um curso de Comunicação Empresarial no ISCEM – Instituto de Comunicação Empresarial. Foi uma licenciatura, extremamente, prática que, apesar de não ter nada a ver com peixe, permitiu-me arrancar mais cedo com a minha vida profissional, uma vez que me deu luzes mais directas de como funciona o mundo empresarial e do que é trabalhar.

É aí que surge a sua veia de empreendedor?    
Quando tinha 14 anos, estava a passear os cães ao pé de um campo de golfe e reparei que muitas bolas caíam dentro dos lagos. Fui propor ao director do clube mergulhar nos lagos do campo de golfe, apanhar as bolas, lavá-las, colocá-las em sacos, pô-las à venda no Clubhouse e que os lucros fossem metade para cada um. Ele aceitou a proposta e eu fiz bastante dinheiro com isso, entre 300 a 500 euros por mês, o que era uma fortuna para mim. Mantive esse negócio até aos 20 e tal anos, pois dava-me um pocket money espectacular.
Tive uma cadeira de economia nos Estados Unidos muito gira. No primeiro dia de aulas, fizemos um projecto e dividimos a turma numa sociedade, em que havia banqueiros, vendedores de carros, de casas, havia cheques, ordenados e o objectivo, estilo americano, era quem chegasse ao final do ano mais rico, tinha a melhor nota. Eu fiquei no top dois da turma, fui para banqueiro e fiz uns investimentos de bolsa. A bolsa era com cotações reais. Todos os dias de manhã ia ver os jornais como se tivesse dinheiro real na bolsa. Na verdade, era dinheiro fictício da turma, mas aquilo despertou-me um bichinho de querer ser independente financeiramente mais cedo. Nunca tive mesada. Senti-me forçado a sair da minha zona de conforto e arregaçar as mangas.
No último ano do ISCEM fui fazer um estágio na Portugal Telecom, onde tive o privilégio de estagiar directamente com os administradores. Trabalhava muitas horas, porém os administradores entravam mais cedo do que eu e saíam ainda mais tarde. Não tinham vida nenhuma. Viviam para a marca do fato que vestiam e do carro que guiavam. Tinham mulher e filhos em casa, mas havia pouca ligação familiar. Apercebi-me, rapidamente, que aquela não ia ser a minha vida no futuro. Tive a sorte de me aperceber disso muito novo e anunciei em casa que me ia despedir da Portugal Telecom.
Saí da PT e criei uma empresa, denominada Recigolfe, de limpeza da água dos lagos dos campos de golfe. Tive dois ou três anos neste negócio, contudo não funcionou e, entretanto, fui convidado pelo pai de um amigo meu para ir trabalhar para o Algarve no ramo imobiliário. Foi uma experiência interessante do ponto de vista comercial.
Em 2008/2009 dá-se a crise. Tinha comissões para receber, mas os negócios caíam. Faltou-me literalmente dinheiro para pôr gasolina no carro. Então, fui trabalhar para a L’Oréal Profissional, a vender coloração para o cabelo aos cabeleireiros todos do Algarve, além de que fiz venda de cerveja artesanal para os campos de golfe e para os hotéis. Fui-me desenrascando como podia. Fiz pesca submarina na costa vicentina, onde apanhava uns percebes e robalos que vendia para me ajudar nas contas. Entretanto, nasceu o meu filho. Foi uma altura da minha vida pessoa e profissional bastante complicada, mas importante. Tenho-me vindo a aperceber que quanto mais fora da nossa zona de conforto estamos, mais temos que nos fazer à vida e isso faz-nos crescer.
Surgiu a possibilidade de abrir um franchising de compra e venda de ouro, com um colega meu das vendas das casas, o João. Sempre que há uma crise, as matérias-primas sobem, nomeadamente os metais preciosos. A cotação do ouro disparou quando tudo estava a cair e nós abrimos uma casa de ouro em Albufeira. Contudo, só tínhamos condições para ter um vencimento e foi aí que me lembrei dos Açores. Disse-lhe que tinha nascido nos Açores e que tinha ideia de existir uma cultura grande à volta do ouro. Vim a São Miguel e descobri que em Ponta Delgada havia mais ourivesarias do que farmácias. Regressei a São Miguel em Dezembro de 2009 e em Janeiro de 2010 abri a primeira loja. Chegámos a ter nove lojas no total, mas sabíamos que era um negócio de curta duração e com um crescimento muito rápido.
Entretanto, fui fazer caça submarina para Rabo de Peixe e comecei a fazer amizades com a malta. Fui para o mar com os pescadores profissionais e tirei o curso de pescador profissional também. Fiquei embarcado num barco de Rabo de Peixe e comecei-me a aperceber que havia uma marca Açores muito boa à volta da qualidade do peixe dos Açores. Porém, na minha opinião, seria possível fazer muito mais e melhor.

Quando surge a Fat Tuna e como teve conhecimento da técnica Ike Jime?
A Fat Tuna nasceu em 2015. A empresa foi criada por mim e pelo meu sócio dos ouros. Após bastantes pesquisas, descobri uma técnica japonesa chamada Ike Jime que consiste em matar cerebralmente o peixe. A primeira coisa é matar o peixe para minimizar o seu sofrimento, o que faz com que este tenha menos stress e gere menos ácido láctico. O ácido láctico, depois de o peixe estar morto, transforma-se em PH ácido e começa a consumir a sua própria proteína, alterando o seu verdadeiro sabor. Com a técnica do Ike Jime, matamos o peixe no cérebro, no meio dos olhos, com um espigão. Depois, cortamos as artérias que estão junto da guelra por baixo da espinha e introduzimos um arame, no cérebro, que lhe vai atravessar a medula, um canal que está por cima da espinha do peixe, que é o sistema nervoso. O sistema nervoso do peixe continua a trabalhar mesmo após a sua morte, pelo que há que destruí-lo, pois está a danificar e a condicionar o valor gastronómico do peixe. Esta técnica traz muita frescura ao peixe. Tipicamente, um peixe morto por asfixia, bem tratado após a sua morte, aguenta seis a oito dias em fresco; com a técnica do Ike Jime aguenta 21 dias em fresco, ou seja, três vezes mais. O valor gastronómico é elevadíssimo.
Quando criámos a Fat Tuna, só trabalhávamos com peixe Ike Jime. Actualmente trabalhamos com peixe Ike Jime e peixe sem técnica. Fizemos contratos, de venda directa, com embarcações de Rabo de Peixe e de outras ilhas. Fiz muitas viagens de avião e idas ao mar, a dar formação aos pescadores e a valorizar o pescado. Se o pargo estava a 10, 12 euros o quilo, fazíamos contrato a 14, 15 euros o quilo, pois o pescador estava a trazer-nos uma matéria-prima de melhor qualidade.
Estávamos a conseguir pôr este peixe no mercado da alta restauração e hotelaria, com chefes exigentes e um público, igualmente, exigente. Trouxemos valor à cadeia toda: o pescador recebe mais, o comerciante trabalha com mais margem e menos volume, e o cliente final vai ter uma qualidade perfeita. No mercado tradicional do pescado, a grande falha que existe, do ponto de vista do cliente restauração, é a consistência na qualidade. Todas as semanas recebe pargo, às vezes, o pargo está bom e outras vezes está mau.
Começámos a ter uma recepção muito boa no mercado europeu e a vender para Portugal continental, Espanha, França, Áustria, Inglaterra, Estados Unidos, Canadá.

Há muitas dificuldades?
É um negócio extremamente difícil, na medida em que estamos dependentes de vários factores, concretamente do pescador, do estado do mar e da SATA para fazer exportação do peixe. De repente, surgem ananases que ganham prioridade sobre o peixe e este fica atrás. Além disso, o comprar pargo a 16, 17 euros o quilo e, de repente, aparece pargo de Marrocos a oito, nove euros o quilo. Após a abertura da fábrica, levámos quatro a cinco anos “a levar na cabeça” a nível financeiro. Entre os empréstimos ao banco, a ter de contratar e investir, com uma carga fiscal gigantesca, torna-se complicado.

A pandemia afectou-vos?
Quando estávamos finalmente a conseguir, dá-se a pandemia. Pensei game over, vamos mesmo abrir falência. Num acto de desespero, pedi ajuda a uns amigos de Cascais, pessoas conhecidas de muita gente das redes sociais, que se movimentam bem naquele tipo de ambiente. Perguntei-lhes se conheciam alguns influenciadores e eles arranjaram-me uns contactos. Falei com alguns e eles pediram-me cerca de 600 euros por post. Expliquei-lhes que não tínhamos dinheiro nenhum, mas tínhamos um peixe espectacular e fresquíssimo dos Açores. Conseguimos fechar contratos com alguns influenciadores, que começaram a receber lagostas e peixe fitado, entre outros, como forma de pagamento, e a fazer o unboxing nas redes sociais. Foi uma loucura. Passámos de um cenário em que julgávamos que íamos abrir falência, para outro dez vezes melhor do que estávamos, em 2019.
A partir daí, entrou-nos uma chuva de pedidos de pessoas que também queriam comprar o nosso peixe. Comecei a contratar amigos meus, que estavam a trabalhar a partir de casa, no computador, a lançar as encomendas para fazer as facturações, pois tivemos um estoiro. Estávamos a trabalhar com cerca de 80 clientes particulares que, subitamente, se transformaram em sete mil, em Portugal inteiro.
Do ponto de vista de entregas, era uma maravilha, pois tínhamos Lisboa e Porto, que são as principais regiões onde vendemos peixe, dada a densidade populacional, completamente fechadas. Andávamos nas ruas sem um único carro e tínhamos eficácia brutal nas entregas.
No final de 2019, tínhamos sete trabalhadores e, em 2022, temos 26. Quanto mais crescemos maior é a nossa responsabilidade. Fizemos um investimento muito grande, a nível de software, porque todo o peixe que entra na Fat Tuna vai ser vendido no próprio dia, para garantirmos a qualidade máxima do nosso peixe. Isto significa que temos uma janela temporal muito curta.

Continuam a enfrentar, actualmente, as mesmas dificuldades no transporte da mercadoria?
Entretanto, surgiu o transporte de um cargueiro para ajudar nos transportes da exportação de São Miguel e das outras ilhas que fazem escala em São Miguel, que depois seguem para Lisboa. Neste momento estamos um pouco melhores, já temos negociado o espaço diário para a nossa carga, mas foi preciso “dar alguns berros” com as pessoas chave da SATA para resolver o problema. Tivemos que defender a nossa família Fat Tuna.

As artes de pesca utilizadas nos Açores são as mais adequadas?
Dentro do mundo do peixe sem técnica, temos artes nos Açores que são extremamente prejudiciais, nomeadamente o palangre de fundo, as redes de emalhar. Essas artes extractivas trazem muito volume do mar para terra, mas o peixe perde muita qualidade. O peixe morde o anzol, fica lá três ou quatro horas preso a debater até finalmente morrer e já vem com uma qualidade muito fraca. As redes de emalhar ainda é pior. O peixe passa por um stress terrível. Além disso, é numa zona da costa onde há muita criação de peixe e, portanto, matam-se by-catch, de pesca acidental, muitas outras espécies que não podem crescer, o que é terrível para a nossa costa. Se formos fazer caça submarina ou mergulho em apneia, à volta da costa de São Miguel, não vamos conseguir ver peixe, praticamente, nenhum e isto é devido às redes de emalhar. Não há coragem política para terminar estas artes.
Na Fat Tuna, escolhemos todas artes de pesca que sejam linha de mão, carretos eléctricos, macacas, entre outros. Outra arte que existe nos Açores, que é terrível e que toda a gente fala lindamente, é o famoso salta e vara nos atuns. Aliado ao salto e vara, utilizam a técnica da mancha. Barcos de dimensão um pouco superior associam-se, apanham isco vivo, nomeadamente cavalas, sardinha, chicharro, petinga, junto a terra, metem-no dentro de tanques enormes, vão lá para fora e a dois, três nós, mandam o isco vivo para dentro de água. Os atuns vão-se juntando, formando uma mancha gigante debaixo do barco e os barcos vão-se revezando. Quando o outro barco está a chegar eles capturam, através do salto e vara, 15, 20 a 25 toneladas de atum. Ora, os atuns vão vivos e morrem por asfixia a bater uns nos outros, a uma temperatura terrível. O objectivo aqui é pescar mais e mais. Portanto, é uma arte completamente virada para o volume.
Se formos ver descargas de atum, na doca de Ponta Delgada, observamos este já sai do barco com ar terrível, todo comprimido, partido, com as barbatanas desfeitas. Aquele peixe só pode ser vendido para a COFACO e para empresas similares das latas. Estão a vender o atum a 1,30 euros para a COFACO, a pô-lo em contentores, a sair não sei para onde, em vez de vendê-lo a empresas como a Fat Tuna, que estaria disponível para pagar 10, 12 euros o quilo de atum patudo. Continuamos a apostar na extracção e não na qualidade.
Ainda não estávamos em Agosto e já tinha acabado a cota do atum patudo. Nos meses de Outubro, Novembro, que é a altura em que os nossos patudos ficam gordos e grandes, não temos cota, pois destrui-se a cota toda com peixes de 10, 14, 20 quilos, que são peixes muito pequenos. Extraímos a cota com toneladas e toneladas de atuns com tamanhos mínimos. (...) Toda a gente sai a perder. Ninguém ganha dinheiro aqui, aliás a única pessoa que ganha dinheiro é o Governo que ganha impostos de todas as transacções. Neste momento, temos atum nas nossas águas açorianas, não há é cota para o pescar, porque já foi extinta por meia dúzia de barcos grandes, nomeadamente traineiras, que limparam tudo.

Estamos a esgotar o nosso mar…                 
Estamos a esgotar, porque está a ser, extremamente, mal gerido. Temos uma universidade cheia de biólogos marinhos. Porque é que os nossos alunos não vão estudar o período de reprodução de todas as espécies de peixe dos Açores, de forma a criar períodos de defeso? Por exemplo, o goraz é um peixe extremamente importante para nós, porque é o bacalhau do mercado espanhol. Em Dezembro, especialmente no Natal, em vez de os espanhóis comerem bacalhau como os portugueses, comem goraz e nesta altura do ano conseguimos o preço do goraz entre os 40 e os 50 euros o quilo. Antes, chegávamos a Outubro, Novembro e já não havia cota do goraz, pelo que já não o conseguíamos vender a 50 euros o quilo; agora está-se a gerir de maneira a deixar alguma cota para o final do ano que é quando vale mais. A meu ver, devíamos fechar a cota, imediatamente, nos meses de Janeiro, Fevereiro e Março, porque é quando os gorazes estão cheios de ovas. Importa reflectir sobre os milhões de goraz que estamos a extrair do mar entre Janeiro e Março, numa altura em que o este peixe deixa 8, 9, 10 euros o quilo, cinco vezes menos do que deixavam há 15 dias. Nos Açores não temos época, só temos cota e podemos capturar sempre que quisermos, o que não faz sentido nenhum.
Além disso, temos que acabar com as artes extremamente extractivas, as redes de emalhar, palangre de superfície e de fundo, manchas, os saltos e varas ou adaptar o salto e vara de uma maneira mais ecológica. Temos que criar períodos de defeso a todas as espécies, para permitir que estas possam desovar, para que no ano seguinte possamos ter mais peixe para apanhar e um maior controlo sobre as áreas proibidas de pescar.
Enfrentamos dificuldades nos Açores e sermos nove ilhas não é fácil de gerir. São custos altos, pelo que compreendo que tenha que haver apoios e subsídios, mas tem que haver, acima de tudo, alguma inteligência. Poderíamos ter o melhor leite, queijo, carne, peixe e ananás do mundo. Para isso, temos que começar a utilizar os nossos recursos com inteligência e a distinguirmo-nos pela qualidade, e não pelo volume de extracção. Não temos qualquer tipo de competitividade com o mercado sul-americano, com Espanha, com França. Estamos em ilhas, dependentes de barcos e aviões para fazer exportação. Ou apostamos na alta qualidade de tudo aquilo que os açorianos fazem ou vamos estar sempre a vestir as camisolas dos coitadinhos, que precisam de apoios e subsídios para conseguir viver.

Foi considerado o melhor gestor de 2020. Como encara a distinção?
Foi com grande surpresa e um orgulho enorme. Ao mesmo tempo, deu-me vontade de chorar, porque foram anos extremamente difíceis, ao arrancar com a empresa do peixe. Tive quase a fechar portas antes de abrir, pois estive 13 meses à espera das licenças, depois da conclusão da obra, para poder começar a operar. Além disso, achar que íamos abrir falência novamente em 2020 foi duro. É muito exigente ser-se empresário em Portugal, especialmente numa área destas. Creio que recebemos este prémio por termos sido das poucas empresas, na altura da pandemia, a melhorar as suas condições. Estou muito agradecido e fiquei comovido com esta distinção. No fundo, quem recebeu o prémio não foi o gestor do ano, mas sim a equipa da Fat Tuna, visto que sem os colaboradores não conseguíamos chegar onde chegámos hoje.           

Carlota Pimentel *

 

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Autor: CA

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