26 de agosto de 2022

Rota Atlântica


A Sata atingiu o ponto de não retorno da sua rota atlântica entre o compromisso da sua viabilidade a longo prazo e o auxílio estatal português.
Iniciou a viagem com dificuldade e com muita turbulência pelo caminho, até este ponto.
Ao longo dos anos, ora por falta de estratégia, ora por opções políticas erradas, a SATA foi acumulando inaceitáveis prejuízos que levaram à necessidade da construção deste plano de reestruturação. Mais de dez milhões de euros pagos em juros do endividamento total da empresa aproximado dos 500 milhões de euros.
Suportada no argumento da continuidade da coesão do transporte aéreo interterritorial do arquipélago dos Açores como região ultraperiférica, nas rotas entre Portugal e a Diáspora Açoriana, a Comissão Europeia aprovou um financiamento de 453,25 milhões de euros, sob a forma de empréstimo direto, permitindo assim criar condições para a viabilidade e recapitalização da nossa transportadora aérea regional SATA, ambicionando consequentemente a estabilidade financeira a longo prazo.
A análise de liquidez indica que, sem financiamento estatal adicional, a SATA teria uma posição líquida de tesouraria negativa. Pretende-se com este urgente financiamento chegar a fluxo de tesouraria zero líquido, num futuro muito próximo. Não teríamos acesso aos mercados de capitais sem garantias financeiras estatais, comprometendo as obrigações com o seu serviço publico.
Outras companhias aéreas europeias receberam auxílio estatal significativo em face do panorama distorcido da concorrência, tais como a Lufthansa, a Air France e a TAP, reduzindo drasticamente, algumas delas, a sua dimensão. 
Atingimos com o plano final aprovado, o ponto de não retorno, como se diz na gíria aeronáutica, isto é, não é possível voltar para trás.
Esta importantíssima ajuda financeira permitirá à SATA reorganizar-se, concentrar-se na recuperação da procura, privilegiando a flexibilização da rede, reequacionar as rotas deficitárias, reforçar a competitividade e a eficácia do seu modelo de distribuição, marca e produto.
O plano alberga em si mesmo a exigência de se alcançarem os melhores resultados, (restruturar os custos, forte argumentação da despesa e evolução do rendimento), que implica a introdução das melhores práticas da “corporate governance”e a isenção do conflito de interesses. Em suma, temos para os próximos tempos, o maior desafio da SATA, num cenário de probabilidades otimista, embora conservador, assegurar o seu “turnaround”. 
Como imposição da UE, coloca-se, desde já, a necessidade da alienação da participação de controlo de 51% da Azores Airlines e a supressão do investimento secundário efetuado em estruturas da empresa de assistência em escala. Como atrás referido, prevalece a obrigaçãode rever e alterar o modelo de gestão, reorganização da estrutura societária da Sata com uma“holding”robusta, gestora das participações das empresas subsidiárias do grupo SATA. Importante a garantia de uma“governance”assente na competência.
Cumprindo o plano, o voo continua sem turbulência e sem sobressaltos, rumo ao destino. A Sata tem capacidade instalada, valor e potencial num mercado regional e interno. 
Limitações como a proibição de quaisquer aquisições e o limite da frota até ao final do plano de reestruturação (2028), comprometem, mais uma vez, a gestão da empresa no rigor e concisão há muito grosseiramente negligenciados. Melhor eficiência no consumo de combustível, eficácia na gestão dos RH, contenção operacional nas renegociações, exigibilidade na rigidez da gestão da manutenção das aeronaves, reduzindo desta forma os custos unitários, parte critica do Plano de Reestruturação.
Chegados ao destino, somos recebidos com o sucesso de uma marca de prestígio onde juntos, o rigor e a credibilidade nos dão as boas-vindas. Somos parte da solução, convergindo no interesse publico.
A rentabilidade esperada pela SATA é apoiada sobretudo por redução do custo por quilómetro de assento disponível. 
Finalmente a Sata tem um plano que a vai obrigar a cumprir metas de curto, médio e longo prazo, impedindo a navegação a vista ao sabor dos fretes políticos, mas sim com uma rota bem planeada. 
Não obstante o debate político, a importância da subvenção a par do reforço do capital, sustentam a argumentação da justificação deste plano estratégico. 
Merece ainda realce o facto deste tipo de planos compreender uma significativa redução dos quadros de pessoal. No entanto em momento algum o documento se refere a este ponto, isto é mérito de quem o negociou, assente na boa-fé e defendendo inequivocamente, na região, uma forte preocupação com a coesão social na proteção do emprego.

Rui Alves

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Autor: CA

Categorias: Opinião

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