No St. Michael’s Catholic College, no Reino Unido

Descendente de micaelenses obteve nota máxima em Matemática, Matemática Avançada, Física e Computação


Correio dos Açores - Qual a sua ligação aos Açores e quando vai viver para Londres? 
Gabriel Costa - Eu nasci em Lisboa, mas o meu pai é de Ponta Delgada e viveu em São Miguel até ir para a universidade. Ele veio para Londres há, praticamente, cinco anos e meio, e eu vim há quatro anos. 

Como foi a adaptação ao Reino Unido?
Definitivamente não foi fácil. Embora tenha tido inglês desde o primeiro ano, quando cheguei foi um choque tremendo. Enquanto eu conseguia perceber as outras pessoas, especialmente quando falavam um pouco mais devagar, sentia dificuldade em expressar-me. Eu, que sou uma pessoa que normalmente está sempre a falar, estava mais reservado e calado, visto que não conseguia interagir de uma maneira confortável. Recordo-me de me sentir cansado. Costumo dizer que foi um curso intensivo de inglês. Mas, devagar e gradualmente, consegui adaptar-me bem, com a ajuda das pessoas. Passado um ano e meio, já me senti completamente adaptado e agora planeio ficar em Londres, pois a educação, especialmente em termos universitários, é mais acreditada, além de que há muito mais oportunidades, nomeadamente em cibersegurança, que é a área que me pretendo especializar. Contudo, sinto saudades do meu país.

O ensino no Reino Unido é diferente do português?
Em Portugal, no secundário, temos que optar por uma determinada área, como ciências, economia, humanidades, entre outras. No Reino Unido, existe mais um ano de escola, ou seja, não é até ao 12º ano, mas sim até ao 13º ano e, nos últimos dois anos, que é o chamado sexto ciclo, os alunos podem escolher três disciplinas, sendo que estas não precisam de ser da mesma área, ao contrário do que ocorre em Portugal. Pode-se escolher quaisquer disciplinas sem correlação entre si, isto é, pode ser Matemática, História e Arte. De facto, a maior parte das pessoas acaba por optar por disciplinas mais ou menos próximas umas das outras. É, igualmente, possível escolher mais disciplinas. Eu escolhi quarto, nomeadamente Matemática, Matemática Avançada, Física e Computação. Além disso, há uma espécie de extras que valem metade de uma disciplina, como por exemplo o EPQ - Extended Project Qualification, que é, basicamente, um texto argumentativo, uma espécie de tese, que eu fiz também. Em Portugal, não conseguiria ter uma disciplina de computação no secundário, o que considero lamentável, hoje em dia, porque computação é algo do futuro. Considero que deviam abrir mais o leque de disciplinas desde o secundário. 

Sempre foi bom aluno?
Nem sempre, tive os meus altos e baixos. Até ao quarto ano sim, todavia entre o quarto ano e o sétimo ano, por diversas razões, não obtive bons resultados, tendo inclusive algumas negativas. Sempre fui bom aluno em Físico-Química, mas mesmo nesta área acabei por não ter tão bons resultados. Consegui recuperar e reencontrar a minha vontade de estudar quando fui para o Externato Frei Luís de Sousa em Almada. Quando vim para Londres, deparei-me com o facto de não perceber muitas das coisas que me estavam a ser ensinadas, além de que havia a barreira da língua. Tive que fazer uma escolha entre estudar ou ficar para trás e decidi que não queria ficar atrás. 
Vim para Londres no 10º ano. No 10º e 11º anos, temos 11 disciplinas que incluem Biologia, que foi uma disciplina que me custou imenso; Inglês também foi difícil, pois temos de estudar textos em inglês antigo. Nas disciplinas que eu gostava mais como matemática, física, foi mais fácil, porque eu gostava.

Teve nota máxima em todas as disciplinas?
Obtive a classificação de A+ ou A* (estrela), como chamam no Reino Unido, nas disciplinas optativas do sexto ciclo. 

Dedica muito tempo ao estudo no seu dia-a-dia?
De momento estou de férias, mas enquanto estava na escola, deixava os estudos para a parte da tarde. De manhã não tinha muito tempo para estudar, pois demorava cerca de uma hora para chegar à escola. Tinha aulas até às 15h00, fazia uma pausa para falar um pouco com os meus colegas e depois estudávamos juntos, mais ou menos, até às 17h00. De seguida, regressava a casa e se precisasse de estudar mais, estudava até às 19h00 ou até mais tarde, dependendo dos projectos extras que tinha. Além disso, tentava aproveitar o fim-de-semana e as férias para estudar. Penso que o mais importante não é a quantidade, mas sim como se estuda.

Esta classificação máxima valeu-lhe alguma bolsa de estudo?  
Vou para a Imperial College, em Londres, e uma das razões que possibilitaram a minha entrada nesta universidade foram as notas máximas que obtive nestas disciplinas. 
Em termos de finanças universitárias, o Reino Unido funciona de forma de forma diferente de Portugal. Não há muitas bolsas de estudo e as que existem destinam-se a pessoas mais desfavorecidas. Na vasta maioria das universidades no Reino Unido, tem de se pagar 9.250 libras de propinas por ano, sendo que em algumas pode ser um pouco menos. Para alunos estrangeiros, as propinas são ainda mais elevadas. Toda a gente tem acesso a um empréstimo do governo, nomeadamente o tuition loan. Aliás, não é bem um empréstimo, pois tem determinadas características que o tornam mais fácil de pagar. O governo cobre tudo, dependendo de vários factores como o ordenado dos pais, entre outros. Existe outro empréstimo, denominado maintenance loan, que decorre muito dos custos de vida. A pessoa só paga estes empréstimos, o tuition loan e o maintenance loan, quando ganha mais que um determinado montante. Ou seja, é um valor fixo e, caso o ordenado seja superior ao definido, paga-se uma percentagem a mais. Passados 30 anos, o empréstimo é limpo. A partir do próximo ano, será após 40 anos. Julgo que cerca de 85% dos estudantes acaba por pagar todo o empréstimo.

Porquê Ciência da Computação?  
Dentro das Ciências, há bastantes áreas que me fascinam, mas a Computação foi amor à primeira vista. Em computação, estamos muito tempo à procura do nosso erro, pois o computador nunca está errado. Estamos a trabalhar com um objectivo, até conseguir resolver o problema. Quando me apercebo do erro, sinto um entusiasmo e uma alegria. Nesta área, há muitos desafios e eu gosto de desafios. É uma área sem igual. Consegue-se ajudar inúmeras pessoas, contribuir para a mudança com visibilidade no mundo real. É, sem dúvida, uma área com muita saída actualmente e no futuro.

Que profissões pode vir a desempenhar com este curso?
Estou a considerar algumas. O meu curso terá mestrado integrado, pelo que será mais específico. As cadeiras são vocacionadas para segurança informática. Depois da universidade, planeio trabalhar em empresas como a Cisco ou a Google, que é onde há mais futuro, se tiver sorte, claro. Todavia, as saídas profissionais deste curso não passam apenas por estes gigantes. Trabalhar para muitas empresas pequenas, enquanto consultor, é uma boa oportunidade, na medida em que no futuro, e já nos dias que correm, as pequenas empresas terão que investir muito em segurança da informação, caso contrário poderão ser prejudicadas de uma maneira muito pesada.

Os ataques informáticos estão em voga… 
Portugal, se calhar, não tem investido tanto quanto devia em segurança informática, portanto é um alvo muito mais fácil para aqueles que se querem aproveitar. Considero que toda a gente, não só os grandes conglomerados de empresas, precisa de apostar em segurança informática. Entendo que tem que ser ajustado com o que as empresas conseguem investir, no entanto deve ser algo a ser considerado, definitivamente. Especialmente as empresas mais pequenas, podem ser completamente destruídas por alguém mal-intencionado com um computador e o mais assustador é que, para tal, nem é necessário perceber-se muito de computadores, sendo apenas preciso ir a um canto da internet, onde a maior parte das pessoas não vai, e ter acesso a um programa que causa destruição.

O que gosta de fazer nos tempos livres?
Como gosto muito de Física e Matemática, dedico algum do meu tempo livre a estas áreas, a ouvir palestras e outras coisas, pelo que esse estudo acaba por ser um hobby. Confesso que desde que saí de Portugal, não tenho tido tantos hobbies como poderia e gostaria, tendo em conta que me foquei nos estudos.  Gosto de ir a um parque com os meus amigos e também gosto muito de música, apesar de já não tocar (antes tocava piano) oiço muita música. Além disso, tenho-me forçado um pouco a ler, pois sei que é muito bom, mas para mim não é fácil começar.

Era capaz de viver sem computador e telemóvel?
Sem computador não. Sem telemóvel seria custoso, mas creio que seria possível. O computador quase que pode servir como um telemóvel, mas para mim seria muito mais difícil.

Está nos seus planos viver nos Açores?
Possivelmente. Fui a São Miguel em Outubro do ano passado, regressei este Verão e adorei. O ambiente é espectacular. Se algum dia regressar a Portugal para viver, os Açores é um dos locais que, definitivamente, vou considerar. 

Que perspectivas tem de futuro?
Estou focado em ir para a universidade aprender com os professores da Imperial College que são topo de topo. Depois de fazer o bachelor’s, passo automaticamente para o mestrado que está incluído e daí pretendo ingressar no mundo do trabalho, preferencialmente, como disse, num dos gigantes da indústria. 
De momento, esses são os planos, mas ainda está tudo em aberto.
                                  
                                     Carlota Pimentel

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Autor: CA

Categorias: Regional

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