6 de setembro de 2022

Opinião

Adriano Moreira faz hoje cem anos!

 Nunca fui próximo do Professor Adriano Moreira, que só conheci pessoalmente há relativamente pouco tempo, mas estudei os diplomas que fez publicar quando foi Ministro do Ultramar, no começo dos anos 60 do século passado, num Governo presidido por Salazar, quando frequentei a disciplina chamada de Direito Ultramarino, no terceiro ano de curso da Faculdade de Direito da Universidade Clássica de Lisboa. 
Adriano Moreira, vindo de correntes políticas distantes do regime ditatorial, aceitou entrar no Governo quando já se perfilavam no horizonte os primeiros sinais da crise do colonialismo europeu, subsequente à Segunda Guerra Mundial. Ao subir a Ministro atacou questões pendentes há muito e tentou abrir novos caminhos, mas a breve trecho teve de encarar-se com o Ditador, que lhe exigia mudança de políticas, exigência por ele correctamente transformada na sua imediata demissão.
Entre as medidas que ficaram conta-se a abolição do vergonhoso Estatuto do Indigenato, que privava parte da população colonial de direitos cívicos e servia de plataforma para a exigência do “imposto de palhota” e das “culturas obrigatórias”. Os traumas daí derivados ainda não se desfizeram totalmente e são até invocados na discussão em curso sobre o racismo e a descolonização.
Muito mais do que o seu notável percurso político, aliás complexo, impressiona-me em Adriano Moreira o seu grande apego à Universidade e ao magistério correspondente. Aliás, é da sua responsabilidade a primeira tentativa de criar universidades em Angola e em Moçambique, veleidade que, segundo alguns, terá apressado a sua saída do Governo. 
Cabe-lhe a honra de ter sido um dos pioneiros da introdução da Ciência Política nos estudos de nível universitário no nosso País. Possuindo grande capacidade de fazer discípulos –o que  o torna, mais do que um Professor, um Mestre – espalhou a sua influência pelas Universidades de Portugal, dos Países de Língua Oficial Portuguesa e até do Estrangeiro, onde os seus livros são lidos e o seu ensinamento respeitado. A sua ligação à Universidade dos Açores está testemunhada no texto hoje divulgado por um dos seus mais notáveis discípulos, Luís Andrade de seu nome, Professor Catedrático da nossa Universidade.  
Afastado da sua cátedra pelas regras do limite de idade no exercício de funções públicas, Adriano Moreira tem continuado ligado à Universidade de muitos e variados modos, nomeadamente orientando os trabalhos de investigação de candidatos ao doutoramento na elaboração das suas teses. Presidiu também ao organismo de avaliação e ajuda da qualidade do ensino superior. Do seu mandato como Presidente da Academia das Ciências de Lisboa ficaram muito boas recordações.
 Julgo que se pode identificar com o vezo de Professor Universitário o gosto que Adriano Moreira cultiva de reflectir em público e de fazer pensar, o qual leva-o a manter o seu magistério activo, através de conferências e artigos de jornal, que não são meras provas de vida e de domínio pleno das suas faculdades mentais, mas verdadeiras lições de sabedoria de quem viveu muito e partilha generosamente a experiência adquirida. 
Todos beneficiamos com isso e por isso lhe estamos gratos!
Que Deus o conserve assim, são os meus votos ao Senhor Professor Doutor Adriano Moreira, na altura em que festeja, com a sua Família e os seus muitos Amigos e Admiradores, num clima de unânime prestígio nacional, o seu Centenário! 

 
(Por convicção pessoal, 
o Autor não respeita o assim     
chamado Acordo Ortográfico.)

João Bosco Mota Amaral

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