Presidente da Junta de Freguesia, Ruben Melo

Na Ribeira Quente os jovens estão a fugir da pesca por falta de condições para os pescadores

 Correio dos Açores - A Ribeira Quente enfrenta problemas de crescimento habitacional…  
Ruben Melo (Presidente da Junta de Freguesia da Ribeira Quente) - Esta é uma das situações mais complicadas que enfrentamos hoje em dia na freguesia. A Câmara Municipal da Povoação está a trabalhar intensivamente, já há alguma tempo, na alteração do PDM. Temos esperança que este trabalho dê frutos, apesar de que possa não alterar tanto quanto gostaríamos. É realmente um problema grave que temos na freguesia. Os casais jovens não conseguem encontrar casa para morar e não se consegue construir habitações novas em lado nenhum. É certo que temos pouco terreno para construir e, no pouco espaço que existe, não é permitido construir devido a essas regras, principalmente da reserva ecológica. 
Todavia, o PDM está a ser alterado, a Câmara está a trabalhar nisso há praticamente dois anos, pelo que esperamos ter novidades sobre esta matéria nos próximos tempos. Na verdade, pode não haver tantas alterações quanto seria desejável. 

Pode-se dizer que este é um dos principais problemas da Ribeira Quente?
Este é um problema de difícil resolução, que não se pode garantir se se irá resolver no futuro. Todavia, não vamos desistir e vamos continuar com a nossa luta. Gostávamos de construir um ou dois bairros em zonas que estão identificadas e que, nesse momento, não é permitido.
É uma realidade preocupante, sem dúvida. Da nossa parte, enquanto Junta de Freguesia, não podemos garantir se vai ser resolvida, pois, infelizmente, não depende de nós, porém posso assegurar que continuaremos a trabalhar até saírem boas notícias.

Em que estado se encontra o projecto de aquacultura ao largo da Ribeira Quente?
Este projecto de aquacultura está a ser explorado por uma empresa privada e ainda está numa fase precoce, de experimentação e testes. Pelo feedback que temos tido, dos responsáveis pela respectiva estrutura que ali trabalham no dia-a-dia, julgo que os resultados são bastante animadores. Temos acompanhado de perto o projecto, aliás os responsáveis têm sido impecáveis, fazendo questão de envolver a população naquele projecto, a nível de empregos, bem como de dar conhecimento à Junta de Freguesia sobre como se está a desenrolar o processo. Na verdade, é um projecto privado que não tem absolutamente nada a ver com a Junta de Freguesia. Mas, temos conhecimento que os resultados estão a ser positivos e eles têm-se mostrado satisfeitos com o que tem acontecido.

Na Ribeira Quente, os jovens têm que seguir obrigatoriamente a profissão de pescador, caso contrário têm que abandonar a freguesia? 
Cada vez menos, os jovens estão a optar pela vida de pescador, por escolha própria. Creio que este fenómeno está relacionado com os tempos em que vivemos. A Ribeira Quente sempre foi considerada uma freguesia piscatória, em que grande percentagem da nossa população, directa ou indirectamente, vivia do mar. Contudo, esta não é a realidade dos dias de hoje. Cada vez temos menos pescadores, menos barcos, o que nos entristece um pouco, mas temos que respeitar e compreender que os jovens têm que tomar as suas opções e seguir os seus rumos de vida. É uma realidade que os jovens não têm optado pela pesca.
A pesca na Ribeira Quente é uma actividade determinante. No meu entender, os pescadores têm que ter outras condições de trabalho, outros ordenados e regalias. Sei que as autoridades competentes estão a trabalhar para isso, no entanto, tem que haver mais igualdade e alguma preocupação, pois,caso contrário, corremos o risco de a pesca desaparecer em freguesias como a Ribeira Quente. 

Os jovens têm optado por que outras profissões?
Pelas mais variadas profissões, nomeadamente restauração, construção. Além de que muitos jovens têm optado pela sua formação académica, aliás isto foi algo que disparou exponencialmente. Antigamente, depois de se terminar a quarta classe, as pessoas iam para o mar e não davam continuidade aos estudos. Actualmente, temos muitos jovens licenciados na Ribeira Quente e outros que estão a trabalhar para isso, seguindo o mais variado leque de profissões. 
Muitos jovens, enquanto estão a estudar, trabalham na restauração como forma de ganhar algum dinheiro extra que auxilie nos estudos. Na Ribeira Quente, temos muita restauração e com qualidade. Depois, obviamente, seguem a carreira da formação que tiraram. São reflexos dos tempos em que vivemos e creio que isto não ocorre apenas na Ribeira Quente. Há freguesias que tinham outras características e que devido às opções dos jovens foram alterando as suas particularidades e tradições.

A Ribeira Quente tem uma população envelhecida?
Creio que é um misto. Temos muita gente idosa na freguesia, mas os jovens também não querem sair da Ribeira Quente. Alguns saem praticamente obrigados, ora porque vão estudar, ora porque arranjam trabalho fora. Apesar das dificuldades que um casal jovem enfrenta para arranjar casa, noto que fazem tudo para conseguir permanecer na freguesia. Os jovens, ainda hoje em dia, têm um amor incrível a este cantinho da nossa ilha.

Verifica-se o problema do consumo de NSP – Novas Substâncias Psicoactivas na freguesia? 
Por norma, acompanhamos esse tipo de situações de perto, aliás temos uma equipa que trabalha nesta área e que presta apoio a algumas pessoas que necessitam. Em relação a este assunto específico, a questão das novas substâncias psicoactivas, creio que não se chegou a reflectir muito aqui. 

Em que estado está a obra de requalificação do acesso à Ribeira Quente?
Esta é uma obra de longa duração, se não me falha a memória, de 500 e tal dias. É uma obra enorme, pelo que os imprevistos vão acontecendo. Por vezes, a população queixa-se que está a evoluir pouco e lentamente, mas creio que é a percepção das pessoas. Por ser uma obra de grande envergadura, não se faz de um dia para o outro. No geral, considero que está a correr muito bem, vamos ter uma obra eficaz, que nos vai proporcionar, sobretudo, a segurança da estrada. Embora não seja uma obra da Junta de Freguesia, sendo que é uma obra do Governo Regional, temos tido o cuidado de pedir às pessoas que compreendam que uma estrada em obras implica paciência, porque os constrangimentos aparecem. Entendo que seja um pouco enfadonho esperar pelos semáforos, especialmente à noite quando as pessoas estão sozinhas. Todavia, temos que encarar que é passageiro e que será para o bem de todos nós, principalmente para a população da Ribeira Quente, mas também para quem nos visita, e são cada vez mais aqueles que gostam de visitar a nossa freguesia. 

Na sua opinião, seria melhor uma segunda via?
Quando se discutiu essa via alternativa, eu não pertencia ainda ao executivo da Junta de Freguesia. Segundo sei, esta segunda via era quase tão insegura, ou até mais, do que a existente. 
Adoraria e tenho o sonho de que algum dia possamos ter uma via alternativa para a Ribeira Quente, porém uma via alternativa segura. Para ter duas estradas de acesso à freguesia inseguras, mais vale ter só uma com o máximo de segurança possível. Antes gastar os milhões acrescentados na via existente e ter uma via segura. Sabe-se que serão ultrapassados os 9 milhões de euros depois de concluídas as obras. 
Se me disserem que é possível fazer uma via alternativa, com as condições de segurança asseguradas, serei o primeiro a batalhar para que se consiga.

Que outras dificuldades a freguesia da Ribeira Quente enfrenta?
Existe na Ribeira Quente uma dificuldade transversal a todo o mundo, designadamente a falta de mão-de-obra. Antes, uma das razões apontadas para a falta de mão-de-obra eram os programas ocupacionais de emprego, sob o argumento de que estes ocupavam as pessoas que poderiam estar a trabalhar nos privados; agora, depois de uma grande redução destes programas, a falta de mão-de-obra continua. Ou seja, há falta de mão-de-obra na restauração, na construção, na pesca, nos supermercados, em todo o lado. Esta é uma enorme preocupação, pois temos pessoas ambiciosas na Ribeira Quente que querem levar os seus negócios adiante, mas deparam-se com este problema deveras preocupante. 

O futuro da Ribeira Quente passa pelo quê?
Considero que a pesca é uma boa via e todos nós gostaríamos que a Ribeira Quente continuasse a ter este porto e peixe fresco todos os dias, porque isso faz parte da nossa história e das nossas tradições. 
Sendo uma freguesia virada para o mar, temos que pensar em actividades relacionadas com o oceano, nomeadamente a pesca turismo, passeios turísticos no mar, entre outros. A situação da aquacultura, crescendo e funcionando bem, também pode criar muitos postos de trabalho na freguesia, o que poderá ajudar-nos a crescer bastante.
Temos que ter a ambição de olhar em frente, de perceber que vivemos numa freguesia que está na moda e há sempre mais que se pode fazer para evoluir e dar condições de vida a quem quer permanecer na nossa sociedade e comunidade. Orgulho-me em dizer que, na Ribeira Quente, temos uma restauração de qualidade e há que dar continuidade, visto que é mais um pólo de atracção para a freguesia. As pessoas vêm para a Praia do Fogo, sabendo que podem comer e beber bem, que serão bem atendidos. Isto é, há um programa que se pode fazer na freguesia além da praia. Na Ribeira Quente temos a ambição de evoluir cada vez mais. 

                                                Carlota Pimentel
 

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Autor: CA

Categorias: Regional

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