“Nadadores-salvadores não estão a trabalhar tão bem como estavam no passado” devido aos critérios dos concursos, alerta Roberto Sá

Correio dos Açores: Nesta época balnear, que zonas balneares foram da responsabilidade da Associação de Nadadores Salvadores dos Açores (ANSA)?
Roberto Sá (Presidente da ANSA): Estivemos nas Portas do Mar/Piscinas de São Pedro, no concelho de Lagoa e no concelho de Vila Franca do Campo, onde estamos há três anos consecutivos. Este ano, devido aos concursos que decorreram, não estivemos a gerir as zonas balneares de Santa Maria como fazíamos há oito anos consecutivos.

Enquanto Presidente da Associação, como vê esse decréscimo de zonas balneares à vossa responsabilidade?
Os municípios abrem concursos mas não interessa a qualidade do serviço ou do trabalho que prestamos. Os concursos são ganhos, meramente, por quem apresenta a proposta mais baixa e não pelo carácter qualitativo.
Quando se perde zonas balneares em concurso por uma diferença de 60 euros para empresas do continente que não conhecem a nossa realidade e que não conhecem as nossas zonas balneares… penso que as pessoas conseguem tirar as suas próprias ilações. O facto é que, hoje em dia, há mais reclamações e estamos a voltar para trás. Os nadadores-salvadores já não estão a trabalhar tão bem como estavam no passado, porque o nadador troca de entidade patronal todos os anos e não sabe que entidade os vai gerir, e não havendo um trabalho de continuidade, está-se a criar algum desconforto e desmotivação no grupo dos nadadores-salvadores da Região.

Avizinham-se problemas no futuro desta actividade profissional?
Já existem. As empresas têm vindo a surgir há quatro anos para os concursos nos Açores, e já há menos interesse por parte dos jovens residentes da Região em se inscreverem num curso de nadador-salvador. Tal como tenho vindo a defender, este é um trabalho de continuidade e um trabalho sazonal, e torna-se muito difícil nós conseguirmos fazer um trabalho melhor se num ano gerimos umas zonas balneares e no ano a seguir é uma empresa do continente a geri-las e assim sucessivamente, obviamente que isso cria um grande desconforto na nossa organização, no nosso método de trabalho e nos nossos próprios colaboradores, que são os nadadores salvadores. Quem fica também a perder muito com isto são os banhistas, porque havendo um decréscimo na qualidade do serviço, está-se a colocar em causa a segurança de todos nós.

Com quantos nadadores-salvadores contou a ANSA este ano e que comparação faz com o ano de 2021?
Este ano tivemos 38 nadadores-salvadores contratados. Esse número é muito inferior ao de 2021, porque no ano passado tínhamos sete zonas balneares no concelho de Ponta Delgada que este ano perdemos em concurso, já fazíamos a gestão dessas zonas balneares há seis anos consecutivos, em Santa Maria tínhamos quatro zonas e este ano não temos nenhuma, e tínhamos um total de 66 nadadores-salvadores contratados, o que representa um decréscimo superior a 60% em relação ao ano passado. Esses nadadores-salvadores passaram a trabalhar para as empresas, porque elas é que têm a oferta de trabalho e contrataram-nos.

Como poderá a ANSA dar a volta a esta situação?
Não depende de nós dar a volta à situação. O que nós defendemos é que os concursos deviam ter critérios de qualidade, e não apenas o critério do preço mais baixo. Se for possível os municípios colocarem critérios nos concursos, aí nós poderíamos concorrer apresentando o serviço que temos vindo a efectuar, e seria mais fácil contornar essa situação, porque nós não vamos apresentar propostas mais baratas para depois termos um serviço com uma qualidade inferior.
Nós fazemos campanhas de sensibilização, apostámos no desenvolvimento da actividade do nadador-salvador com formações, apoiamo-los nos equipamentos, damos transporte para eles trabalharem entre concelhos, e se baixarmos o valor a concurso vamos tirar aqui qualidade ao nosso serviço, e não vamos fazer isso porque não nos interessa prestar um mau serviço à nossa sociedade.

O número de nadadores salvadores na ANSA foi adequado nesta época balnear?
Felizmente, foi adequado. Este ano organizámos mais uma formação que teve uma taxa de sucesso de 100% de aprovação, e conseguimos contratar nadadores-salvadores dessa formação. Eles não ficaram todos a trabalhar para nós, alguns ficaram a trabalhar para a empresa do continente e para outra associação, por isso não tivemos nem excesso nem falta de nadadores-salvadores. Conseguimos fazer um bom trabalho, boas escalas e dando folga aos nadadores-salvadores para poderem descansar. Apesar da falta de nadadores-salvadores a nível nacional, temos conseguido fazer uma boa gestão de recursos humanos.

Em termos de salvamentos, quantos foram registados pela ANSA este ano?
Tivemos muitos poucos salvamentos e temos tido cada vez menos de ano para ano. Só temos cinco salvamentos registados, e as restantes ocorrências não consideramos salvamentos, são aquelas ajudas que o nadador -salvador presta sem ter que entrar na água.
Mas isto deve-se também ao trabalho que a ANSA tem vindo a fazer desde há 13 anos, que é de melhorar o trabalho, dar formação aos nadadores-salvadores, incutir neles o método de trabalho e fazer muita prevenção, e é com essa prevenção que nós evitamos fazer muitos salvamentos, e este ano os registos que temos espelham claramente este nosso esforço e método de trabalho, porque sempre que o nadador-salvador antecipa o que vai acontecer e avisa o banhista para não ter determinado comportamento, faz com que não façamos um salvamento, e isso para nós é gratificante porque não estamos a colocar em risco a vida do nadador-salvador nem dos banhistas.

Em termos de simulacros ou formações, o que têm feito?
Este ano voltámos a não fazer essas actividades. Nos últimos três anos, desde o início da Covid-19, tivemos um decréscimo na parte das sensibilizações, precisamente por conta do vírus. As pessoas não podiam estar em contacto umas com as outras, embora essa situação tivesse melhorado no Verão. Além disso, é preciso algum excesso de nadadores-salvadores para conseguirmos realizar as campanhas que realizávamos no passado, excesso que não temos. Esperamos que em 2023 possamos voltar a recuperar as actividades que fazíamos, importantes para a nossa Associação e para a nossa sociedade.

E as formações em Desfibrilhação Automática Externa (DAE), continuam a realizar?
Este ano estivemos na ilha Terceira e formámos 30 nadadores-salvadores de Angra do Heroísmo, uma vez que a Câmara Municipal colocou DAE em todas as zonas balneares foi necessário fazer essa formação. Quer a formação de novos nadadores-salvadores, quer as formações em DAE a ANSA nunca deixou de as fazer, nem com a pandemia.

Os turistas têm bons comportamentos no mar ou preocupam os nadadores-salvadores?
Nós olhamos para o turista como olhamos para os banhistas locais, não podemos assumir que todo o turista que vem para cá não sabe nadar muito bem, há turistas que sabem nadar melhor do que muitos banhistas residentes. Para nós é um banhista, uma pessoa que está a usufruir da zona balnear, e temos que ter atenção a ele, da mesma forma que temos que ter atenção aos outros frequentadores das nossas zonas balneares.

Quais os principais desafios da Associação neste momento?
O desafio é dar continuidade ao trabalho que temos vindo a desenvolver ao longo destes 13 anos, recuperar muitas das actividades que não temos vindo a realizar desde que surgiu a pandemia. Esperamos que, neste aspecto, não haja mais entraves, que consigamos formar mais nadadores salvadores no próximo ano para não haver falta de nadadores salvadores que prestam assistência a banhistas e que continuemos a fazer formações complementares para os nossos nadadores-salvadores serem cada vez mais profissionais e terem um trabalho cada vez mais preventivo e, com isso, ficamos todos a ganhar.                      

 

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