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Nos Açores “existe uma normalização do consumo de tabaco e um alerta menor para a patologia respiratória”, diz pneumologista

Correio dos Açores: Quais os principais factores de risco para as doenças do pulmão?
Tiago Sá (pneumologista): O problema principal é o tabagismo e, também, a poluição ambiental. Se nos formos focar na Região, naturalmente, o problema da poluição ambiental não é tão significativo como noutras zonas do mundo, nomeadamente nos grandes centros urbanos, mas o tabagismo, por outro lado, é, visto termos ainda hoje uma prevalência dos hábitos tabágicos bastante alta no nosso país e, particularmente, na Região Autónoma dos Açores.

Falando nos impactos destes factores de risco, que impactos têm vindo a apresentar nas mulheres?
Nas últimas décadas, o consumo de tabaco nas mulheres tem aumentado, enquanto, por outro lado, tem estabilizado ou mesmo diminuído nos indivíduos do sexo masculino. Este aumento do consumo de tabaco tem levado ao aumento do aparecimento de patologias pulmonares, entre elas podemos destacar a Doença Pulmonar Obstrutiva Crónica, uma das doenças respiratórias mais prevalentes e a terceira causa de morte no mundo. A sua prevalência tem aumentado significativamente nas mulheres, o que é associado aos hábitos tabágicos.
No que diz respeito à Doença Pulmonar Obstrutiva Crónica, esta é uma doença respiratória crónica, progressiva, que se caracteriza por sintomas respiratórios como a falta de ar, tosse crónica e aquele ‘catarro matinal’ que os fumadores consideram muito normal mas que é, na verdade, um dos sintomas desta doença, e é, basicamente, o resultado mais frequente dos hábitos tabágicos na saúde respiratória dos fumadores. Há outras patologias associadas, como a Fibrose Pulmonar Idiopática, mas a Doença Pulmonar Obstrutiva Crónica é, sem dúvida, a mais prevalente. Há também o cancro do pulmão, que sabemos que está altamente associado ao consumo de tabaco, e o seu aumento nos indivíduos do sexo feminino tem aumentado também.

Tendo em conta os sintomas da Doença Pulmonar Obstrutiva Crónica, considera que estes são frequentemente ignorados pelos fumadores?
É uma doença frequentemente diagnosticada nas consultas de pneumologia. Os doentes chegam com queixas respiratórias de algum cansaço e de uma tosse que não passa, mas que, muitas vezes, durante meses ou mesmo anos não valorizaram. Quando chegam à consulta referem esses sintomas e não é raro fazer esse diagnóstico de doença pulmonar obstrutiva crónica, que depois carece da realização de uma espirometria, um exame de função pulmonar que permite fazer este diagnóstico, e que tem, felizmente, abordagens terapêuticas, tanto farmacológicas como não farmacológicas, eficazes na melhoria dos sintomas e da qualidade de vida destas pessoas.

Quando começou a sua prática nos Açores, sentiu nas suas consultas o peso de sermos uma das regiões do país com maior consumo de tabaco?
Há pessoas que vão referenciadas por doença respiratória, por isso a minha consulta é de patologia respiratória, e tanto no continente como nos Açores, uma grande percentagem dos doentes na minha consulta são fumadores. O que se nota claramente, é que existe uma normalização do consumo de tabaco e um alerta menor para a patologia respiratória quando em comparação com outras localidades e com outros países. Fiz estágio no Brasil, que é um país onde se fuma muito pouco, e onde realmente as doenças respiratórias acabam por ser menos frequentes do que no nosso país.

E os impactos nos jovens que começam a fumar cada vez mais cedo?
Em relação aos jovens, a verdade é que não podemos falar num aumento da doença respiratória, mas existem doenças que são específicas a determinados tipos de comportamentos, nomeadamente as que são associadas ao consumo de tabaco electrónico (vape). Existem doenças do interstício pulmonar, ou seja, do tecido pulmonar, que são consequência do usufruto de cigarros electrónicos e que, muitas vezes, podem levar a agravamentos respiratórios agudos, e que podem, inclusivamente, levar à morte.
São doenças que não existiam há 20 anos, e que recentemente temos identificado e associado a esse consumo de cigarros electrónicos, e quando falamos em cigarro electrónico falamos em vape. Esta é uma doença que tem um nome próprio, que é e-cigarette ou vaping use-associated lung injury (evali), ou seja, doença do pulmão associada ao uso do cigarro electrónico e vaping. Foi uma doença identificada nos Estados Unidos da América e já temos tido casos destes por todo o mundo.
A verdade é que, hoje em dia, há cada vez mais consenso em relação aos malefícios do cigarro convencional, e já é mais raro encontrarmos jovens à porta da escola a fumarem um cigarro como era mais frequente há 20 ou 30 anos. Mas, na verdade, vemos cada vez mais jovens a fumarem cigarros electrónicos, achando que esse cigarro não tem nenhum tipo de consequência, e é importante fazer este alerta aos jovens de que o consumo do cigarro electrónico não é inóquo e tem consequências potencialmente graves. (…) Nos líquidos utilizados desta forma, existem substâncias potencialmente cancerígenas e com potenciais agressores pulmonares, mas existe muito pouco controlo na composição destes produtos de venda.

A Covid-19 teve algum impacto no número ou na expressão das doenças pulmonares hoje em dia?
A Covid-19 foi, sem dúvida, uma pandemia global de uma infecção viral respiratória. Todos fomos acompanhando as potenciais consequências de curto e de longo prazo desta infecção, todos também acompanhámos a evolução da pandemia, à custa do papel das vacinas a agressividade desta infecção foi sendo progressivamente menor, mas a verdade é que ainda hoje eu vejo muitos doentes em consulta que tiveram quadros de Covid-19, muitos deles sem necessidade de internamento, mas que levaram à permanência de sintomas respiratórios, nomeadamente tosse, falta de ar e cansaço. Por um lado, as sequelas directas da Covid-19 levaram ao aumento da consulta de pneumologia, por outro lado, o alerta da população para a patologia respiratória que esta pandemia trouxe, levou também ao aumento da procura das consultas de pneumologia.

Que importância têm os vários tipos de vacinação – pneumonia, gripe e Covid-19 – na prevenção das doenças respiratórias?
A vacinação da pneumonia pode ser feita em qualquer altura do ano. Existem grupos de risco que são identificados para a toma da vacinação anti-pneumocócica, nos quais se incluem doentes com patologia pulmonar crónica, mas também idosos sem doenças respiratórias, porque a população idosa é uma população que tem uma susceptilidade maior para sofrer de pneumonia, por isso existem recomendações da Direcção Geral de Saúde para a vacinação anti-pneumocócica que devem ser cumpridas e que devem ser relembradas, e as pessoas podem perguntar ao seu médico de família se têm indicação ou não para a vacinação.
Quanto à vacinação sazonal da gripe, ela é importantíssima também para os grupos para a qual está indicada. (…) A vacinação para a Covid-19 é uma vacinação necessária para prevenir a infecção grave por Covid-19. Quando a pandemia começou e começámos a ver as vacinas a serem utilizadas, nós percebemos que, naturalmente, a infecção por Covid-19 pode deixar sequelas pulmonares graves crónicas, por isso, com esta vacina irá prevenir estas consequências respiratórias significativas.

A pneumonia pode ser prevenida de alguma forma, tendo em conta a sua alta mortalidade?
A prevenção da pneumonia ocorre através de estilos e hábitos de vida saudáveis e, naturalmente, de uma boa higiene respiratória. Acima de tudo, o nosso sistema imunitário tem que estar forte e para isso temos que ter um estilo de vida saudável e temos que evitar agressões, evitar o consumo de tabaco e de outros que aumentam o risco de infecção respiratória e cumprir as medidas habituais de higiene respiratória que, nos últimos anos, têm sido fortemente relembradas na comunicação social para toda a população. Cumprir a vacinação para os grupos de risco que têm indicação para a mesma é, também, importante. Esta é uma doença que pode afectar qualquer pessoa, mas os extremos de idade, as crianças e os idosos, têm um risco maior de sofrer de pneumonia. Mas, para se ter uma ideia, a pneumonia mata 16 pessoas por dia em toda a Europa.

Em que momento em que as pessoas devem recorrer ao pneumologista?
As pessoas devem procurar o seu médico de família ou um pneumologista quando têm queixas de falta de ar que, por vezes, desvalorizam, e, muitas vezes, é difícil as pessoas terem consciência de terem falta de ar quando começam a adoptar um estilo de vida francamente sedentário. Muitas vezes pergunto a um doente em consulta se ele tem falta de ar, e ele diz que não, mas se perguntar se tem falta de ar ao subir umas escadas já afirma que se cansa muito, e isso não é normal. O problema dos sintomas respiratórios, e particularmente nos doentes fumadores, são aqueles que, muitas vezes, se vão instalando de uma forma progressiva e crónica mas a pessoa vai-se adaptando e vai acabando por desvalorizá-los.

Qual o maior desafio no diagnóstico do cancro do pulmão?
É uma doença francamente silenciosa, esse é que é o grande problema. Nós diagnosticamos frequentemente o cancro do pulmão já numa situação avançada, porque os sintomas do cancro do pulmão são mais frequentes quando a doença está avançada. É uma doença silenciosa e de evolução silenciosa. Muitas vezes, o doente com cancro do pulmão não tem ainda sintomas associados a ele, ou então tem sintomas leves associados à sua patologia respiratória que não valoriza. Quando o doente tem sintomas francamente associados ao cancro do pulmão, muito semelhantes aos sintomas provocados por outros cancros, como falta de força, falta de apetite, perda de peso, sangue na expectoração, muitas vezes a situação já está evoluída.

As pessoas fumadoras ou com hábitos de vida pouco saudáveis têm que estar mais atentas?
Têm que estar mais atentas e têm que falar com o seu médico. Todos os médicos têm obrigação de, em qualquer contacto com fumadores, de ter uma intervenção para a promoção da suspensão tabágica, existem, inclusive, internacionalmente, indicações para rastreio de cancro do pulmão nas populações de risco, algo que ainda não está implementado de forma organizada em Portugal, mas é importante que um fumador pense em deixar de fumar e que pense em consultar o seu médico para estar mais atento a sintomas que possam aparecer.

Como se dá a notícia de que alguém tem um cancro do pulmão sem nunca ter fumado?
Já me aconteceu várias vezes. E esse é um grande problema da doença oncológica, que tem muitas formas de se manifestar, e tem múltiplas etimologias. Sabemos que a grande maioria dos doentes do cancro de pulmão estão associados ao tabagismo, mas existe uma percentagem de cancro do pulmão que ocorre em não fumadores.
É difícil como a comunicação de qualquer cancro, seja cancro da mama ou cancro de qualquer outro órgão, é sempre um momento delicado e que é preciso fazê-lo de uma forma adequada, humana e franca para com o doente.

 

 

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